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Nicolas Jaar @ Lux

Segunda-feira, noite de cinema – mais barato. Ou Segunda-feira, noite de Nicolas Jaar - priceless.

E eis que tenro homem, uma mesa de mistura, um órgão/sintetizador, um micro, e o incontornável Mac fizeram, de uma frívola noite de início de semana, um (im)provável pasmo – não “esgotado” (que estava), mais transbordado (que foi). Foi assim, sem suspeitas, que lá por gostar não há imparcialidade que resista ao cenário delicioso que Nicolas Jaar deu ontem, 23 de Janeiro, no encosto do piso rasteiro do Lux. Quase lhe dávamos os parabéns (também fez 22 anos no recente 10 de Janeiro). E só não lhos damos porque já não vamos a tempo de tomar por assalto a sua preciosa precocidade, que bem lhe assenta.

Nasceu em Nova Iorque, 1990, e lançou unhas à electrónica com… catorze anos! Sim, catorze. A viver a maior parte da sua adolescência em Santiago do Chile, e maravilhado por “grandes” como Mulatu Astatke e Erik Satie, foi antes de ser que já era – devoto à música, no geral, e ao piano, em especial.

Nicolas Jaar estreou-se na Wolf + Lamb com dezassete aninhos e, desde aí, não conseguiu parar de ascender, surpreender e inovar. Louvado. Fundou em 2009 a label Clown & Sunset, editora independente e casa artística, dirigida juntamente com Nikita Quasim e Soul Keita, que fizeram estrear-se em 2009 com “Sunset of a Clown”, Vols. 1 e 2, até chegarem a “DARKSIDE EP”, 2011.

Tem desde 2008, com “The Student” da Wolf + Lamb, um gordo número de EPs lançados e escolhe, para as suas remisturas, temas e autores à altura do céu. O resultado já era bom, antes de lhes tocar, mas consegue fazer o raro milagre do “filme melhor que o livro”. “Space Is Only Noise”, da Circus Company, foi o mais aguardado (e primeiro) álbum de Nicolas Jaar, lançado no ano passado.

Apareceu no Lux sem grandes alaridos, por volta das 23:00, e começou nos áudio-preparativos. Tranquilo. Foi só quando o video jamming, right behind, desatou em pretos e brancos da mãe Natureza, que percebemos o “aí está ele”.

De fato de treino preto, sem compromissos, parece que olhou uma única vez para a plateia. Mas, sentir… Deve tê-la sentido – várias.

Começou com voz (ainda em mutação, já propaga saúde), registou, samplou e lançou. Sonâncias em tempo real, outras gravadas, foi despejando harmónicas que lhe fluem “estupidamente naturalmente”.

Ainda bem que não percebe nem fala muito (pelo menos português alive). Caso contrário, como iríamos explicar-lhe a insipiência de alguns comentários abafados na multidão, de equivocados sobre o que foram ver (e ouvir) – “Deixa lá! Quando ele (Nico) começar com aquelas que são sempre iguais, vamos lá para cima” – Gente assim só ocupa.

Veio a solo, depois de no SBSR ter vindo acompanhado e superado expectativas com banda. One man show não é fácil, ainda mais se de uma mesa e meia dúzia de máquinas se trata. Ainda assim, até o panorama vídeo se acusa secundarizado (sem desmérito).

Nico consegue mexer e exacerbar sem recorrer à intocabilidade dos hits originais e da imagem. Toca no que já fez, aumentando e diminuindo-lhe o pitch, e brinca na sua própria lentidão arrastada.

Acabou a primeira parte com «Space Is Only Noise», single do mais recente álbum homónimo, depois de «Stay In Love» e outras iguarias reformuladas, e voltou para o encore (até o comíamos) com «El Bandido» e a apetecida «Mi Mujer». Não se pode dizer que a detonação tenha emergido nesta ou noutra faixa. Foi-se dando, repetidamente.

Mesmo mesmo no fim, segundo bis, anunciou a last one com a fantástica «Winter Rose», dos The Bees. A única remistura que (finalmente) me atrevo a opinar como inferior à original – inatingível. Ainda assim sua colossal discípula.

Para nem tudo serem roses, também conseguimos decifrar defeitos, pronto. É que o jovem, mesmo passando a vida a assombrar e a não deixar adivinhar passos seguintes, é previsível numas coisas: sempre que nos leva a patinar som fora, é seguro que nos vai puxar, irremediavelmente, no mesmo tipo de meta, quando os âmagos exigem ser exaltados e as cabeças demandam estrilho.

Mas, e isso é mau? A previsibilidade soa mal, mas seria como não dar um happy end a um filme amado. Aqueles fins que quase nos levam a não perceber tudo para trás – não são justos. Nicolas Jaar partilha essa justiça com o público, sem olhar.

Outro “senão”, imaginável de um génio recentemente adorado, é que, fácil e rapidamente, se torna enjoativo. E, juro, não por ter menos qualidade ou acreditar no anti-sistema dos que deixam de gostar assim que todos os “outros” começam. Antes porque tudo o que é demais chateia. E, quase sempre, se o que é demais é para muitos, então uma enorme minoria vai querer saltar fora.

Nunca – atenção: nunca digam “nunca”, mas “raras vezes” – se tem visto surgir indivíduo assim, a deslizar tipo manteiga na profundidade melódica das coisas – chega a dar sono – e elevá-la até ao momento mais ambicionado – a ressurreição dos ávidos. Os botões desengatam altas notas, soltam-se frangas e lançam-se zénites – está instalada a dança arrebatada.

Quero parar de escrever (bem) sobre Ele – já – mas Ele é imparável. E é bom que saiba que alguns depositam santa fé na música que ainda vai ter de dar ao planeta.

Pior que Nico? Só óptimo. Melhor? Haver música (boa) para além da morte.



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