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A minha rua… Nova Iorque

Viver numa espécie de purgatório nova-iorquino que dá pelo nome de Williamsburg, encalhado entre a impenetrável comunidade porto-riquenha e a apatetada comunidade hipster.

Ora bem, começando pelo meio da história, ou in media res, para ser mais erudito, neste momento não estou a morar na minha rua.

A minha rua era a E 11th Street com a First Avenue no coração de East Village. Foi lá que morámos durante os primeiros oito meses que estívemos aqui. Portanto, até há umas semanas. E não é por ser na parte baixa de Manhattan que gostava tanto desse sítio (com uma dúzia de bons cinemas num raio de dois quilómetros ou com o Washington Square Park – é o que tem o arco – a cerca de 15 minutos). E não é porque ter um café com o melhor espresso (e o mais barato, e o que não é uma semi-italiana) de Nova Iorque do outro lado da rua. E não é por já estar habituado a lá morar e já conhecer os cantos à zona.

Okay, se calhar é pelo que escrevi atrás. Não há-de ser com certeza é pelo rato ocasional ou pela barata sempre-presente nos meses quentes dentro de casa ou pela ratazana gigante a passear pela noite durante todo o ano. A fauna de Manhattan não parece de Primeiro Mundo. Até os pardais são animais ferozes. E não me ponham a falar dos esquilos, essas ratazanas felpudas… Aí vai um ponto a favor para Williamsburg e para o resto de Brooklyn, a fauna aqui é muito mais ordeira.

Isto até parece mal, estou em Nova Iorque e só me sei é queixar. Então, vou-me queixar mais um bocadinho. Já sabia que não se podia fumar em lado nenhum a não ser na rua, na rua pode-se. Mas não se pode beber na rua. Nos bares pode-se, mas não se pode fumar. Portanto, beber e fumar só em bares que tenham um patiozinho. Ainda há uns quantos. As bebidas é que são caríssimas, todos os bares aqui fazem mais ou menos os preços do Lux. E o tabaco, então, está pela hora da morte; onze dólares por um maço de Marlboro.

Outra coisa que também é cara aqui é viver debaixo de um tecto e entre quatro paredes. O estúdio onde vivíamos em East Village custava 1700 dólares mensais (com tudo incluido, é certo). Vamos lá ver, se o dólar vale hoje aproximadamente 0,68 euros, então 1700 dólares equivalem a 1161 euros. Parece muito, e é, mas para aqui até não está mal. O que quer dizer muita coisa. Nesta nova casa onde estamos agora pagamos mais 100 dólares (68 euros) mas temos direito a mais um quarto, desenhos macabros nas paredes e música latina a qualquer hora do dia. São as vantagens de viver um bocadinho mais longe.

Mas não fiquem a pensar que isto é um mar de rosas. Uma coisa que me chateou quando aqui cheguei é que isto não é nada como no cinema. Andei não sei quantos anos a ver filmes passados em Nova Iorque e maravilhar-me com a cidade para se desfazer a minha fantasia num momento. O momento que demora a chegar a Times Square. Esta famosa zona da cidade, em tempos idos, antro de pornografia, prostituição e outros males sociais, é agora um gigantesco centro comercial para turistas e bimbos locais encadeados/zombieficados pelas luzes circundantes.

Bem vistas as coisas, Nova Iorque tem muito poucos locais turísticos que valham a pena (a excepção é para aí o Empire State Building). A pista de gelo do Rockefeller Center é mirrada, os museus estão sempre à pinha de sonâmbulos a percorrer as galerias e a tirar fotografias a despropósito, a St. Patrick’s Cathedral é bem menos interessante do que as catedrais europeias. O que é normal, esta cidade é mais recente que a maioria das capitais europeias e tem, por isso, menos história. O que eu acho é que se tivesse cá vindo durante uma ou duas semanas tinha odiado Nova Iorque, de tão desapontado. No entanto, não é esse o caso. Porquê?

O facto de estar a morar num sítio chato é culpa minha (nossa) e de qualquer maneira vamo-nos mudar para Carroll Gardens, uma zona bem mais apetecível também em Brooklyn, no começo de Outubro. Nova Iorque tem isso, por cada sítio feio, tem um bonito. Por Queens inteira, existe um Central Park. Ah, é verdade, o Central Park é capaz de ser o parque mais bonito do mundo. E por todas as coisas más que citei atrás, existem centenas de concertos a toda a hora (alguns à borla), teatro do bom, cinema de todo o mundo, das melhores e mais baratas livrarias do mundo (a Strand por exemplo), pessoas interessantes (para contrabalançar), sítios para passear.

Lá está, não me parece que Nova Iorque seja exactamente uma cidade boa para se visitar, mas é uma excelente cidade para se viver. Passear nos diferentes bairros (Tribeca, Soho, Greenwich Village são assim de cabeça os preferidos) em alturas diferentes do ano é um prazer. E a ideia de que qualquer coisa pode acontecer aqui é uma das razões principais que me leva a ficar, apesar das saudades da família, dos amigos e de Lisboa.

Ainda não posso dizer que seja minha, Nova Iorque, mas talvez já seja mais do que eu penso. E há-de ser cada vez mais. Posso ter dito muito mal, mas todo o português diz mal das coisas que gosta, seja do Benfica ou do bitoque que está a devorar (outra falha em Nova Iorque, não há bitoques).



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