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Norberto Lobo @ Teatro da Trindade

Quem tem medo do Lobo Bom?

Norberto Lobo parece ser daquele tipo de artista que é, na banalidade do dia-a-dia, um indivíduo tímido e desajeitado. Duvidamos do seu jeito para as miúdas – seja lá o que isso for de ter jeito para as miúdas. Norberto Lobo, ele que já vai no terceiro disco a solo, “Fala Mansa”, descobriu que tem um dom e potenciou-o. Num país que, confirma-se agora, está em recessão económica e em que se discute a sobrelotação de malta com habilitações literárias, Norberto Lobo descobriu o que o distinguia e rendeu-se à evidência: Nem todos podemos ser Políticos ou Engenheiros e, Deus nos livre, Lobo não se tornou nem numa coisa nem noutra. Evitou-se mais um Lobo Mau, ganhou-se um Lobo Bom.

O concerto que deu no Teatro da Trindade, o de apresentação de “Fala Mansa” no passado dia 11 de Maio, é o mais intimista possível. Ao fim da primeira canção ouvimos um sincero “Lindo”. Vem da cadeira ao lado, alguém convertido àquele contínuo dedilhar, aquele mestre explorador tantas vezes comparado a Carlos Paredes e a Jim O’Rourke que é Norberto Lobo.

A dificuldade de Norberto Lobo e deste tipo de espectáculo está em manter o mesmo nível de atenção do público, ao longo da totalidade do concerto. Lembramo-nos, por exemplo, da falta de paciência que temos para um Joe Satriani ao vivo. Daí que, a meio do espectáculo, Lobo explore territórios mais dignos dos Tigrala, projecto paralelo partilhado com Guilherme Canhão e Ian Carlo Mendoza.

Tanto virtuosismo poderia afastar Norberto Lobo das melodias. Não é o que acontece. Como em «Mudar de Bina» e «Pata Lenta», as melodias continuam a ser pormenor importante na equação. Tanto dedilhar cheio de virtude poderia também condenar aqueles silêncios a um momento castrador e de um vazio irrespirável. Pelo contrário, os silêncios servem para respirar, porque Lobo sabe dosear esse sobe e desce de tensão e intensidade que caracterizam os seus espectáculos. Nos momentos mais intensos parece que, exageremos, estamos perante uma orquestra. A guitarra – ao todo, seriam duas clássicas e um outro instrumento de cordas que parece e soa como um banjo – é só uma, mas parece duas ou três. A certa altura dá uso ao bottleneck numa guitarra personalizada e cheia de idiossincrasias. Cada vez que o mestre do fingerpicking termina uma canção, cada uma delas uma peça fundamental, uma contribuição fulcral para o legado da música portuguesa, ouvem-se aplausos, longos, de vários segundos, um irrefutável sinal de reverência. “Obrigado por terem vindo e não terem ido ver os Tindersticks”, diz ele. “Tu és melhor”, diz um fã. Resposta à altura.

Não nos deixemos enganar por este nome, este nome de protagonista de anúncios de marca de champôs. No nosso gabinete ou no Teatro da Trindade, Norberto Lobo é sempre e invariavelmente brilhante.

Dêem-lhe uma guitarra, a sério.



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