“Nós, os afogados” | Carsten Jensen

“Nós, os afogados” | Carsten Jensen

À procura do equilíbrio do mundo

Em qualquer um dos mundos, atravesse-se o caminho da ficção ou percorra-se a sinuosa estrada da realidade, há um adjectivo comum capaz de caracterizar, numa palavra com cinco letras, a excelência e a grandiosidade: épico. Adjectivo que assentará, como uma luva feita por encomenda, a “Nós, os afogados” (Bertrand Editora, 2014), livro de Carsten Jensen que merece toda e qualquer honraria que lhe seja feita.

O livro é um clássico instantâneo, seja pelo aspecto colossal – está a milímetros das 800 páginas – ou por abarcar, praticamente, um século de história com o ar fresco do Norte da Europa a entrar, sem permissão mas grande descaramento, pelas janelas deixadas abertas.

Se na “Trilogia do Cairo”, esse monumento literário construído por Naguib Mahfouz, acompanhávamos a vida de três gerações de famílias entre a eclosão da Primeira Guerra Mundial e o golpe de 1952, que terminou com a monarquia do Egipto, em “Nós, os Afogados” a história é outra, ainda que a guerra e o perigo, assim como as convulsões sociais, estejam sempre presentes.

O livro transporta-nos até à cidade-ilha portuária de Marstal, na Dinamarca, onde os seus habitantes pareciam viver sob o domínio de um irrefutável destino: os homens faziam-se marinheiros e as mulheres viúvas.

A viagem começa em 1848, quando um grupo de navegadores dinamarqueses deixa a ilha de Marstal para lutar contra os alemães. A campanha revela-se um desastre, e muitos são aqueles que encontram a sepultura no mar. Laurids Madsen é um dos sobreviventes, que «esteve no Céu e voltou a descer por causa das suas botas.(…)Esteve às portas do Paraíso e viu São Pedro, embora o guardião da entrada na vida celestial lhe mostrasse apensa, de relance, o rabo.» O que, em linguagem corrente, poderia ser trocado por um “ainda não chegou a tua hora, desce lá outra vez”.

Laurids desce à terra como um homem novo, famoso entre os seus pares pela visita ao Céu mas de certa forma transformado. Depois do regresso a casa, possível através de uma troca de prisioneiros, Laurids volta à vida marítima, correndo o mundo de uma ponta à outra até que, depois de uma viagem de 6 meses a bordo de um navio holandês, desaparece do mapa, reinando a incerteza sobre qual terá sido o seu destino. Na dúvida e mesmo que sem uma reconfortante sepultura, a mulher faz o luto e dedica a vida aos filhos.

A história segue então os passos de Albert, o filho favorito de Laurids, e a forma como Isager, um professor violento, semeou nele e nos seus companheiros «a sede de sangue. Uma sede que nunca poderia ser aplacada.» Albert cresce e, seguindo o apelo pelo mar, dirige-se a Hobart Town, o último dos portos habitado maioritariamente por ex-condenados. É lá que se juntará ao Flying Scud do capitão Jack Lewis – que esconde não só um saco com pérolas como a cabeça mirrada de James Cook -, partindo em busca do pai pelo Pacífico.

Acompanharemos a viagem de Albert até à idade maior, onde representa uma figura de destaque na vila, prosseguindo depois com a história com Klara Friis, a quase mulher de Albert, e a do filho Knud, que viu em Albert um pai que o apresentaria ao mar com todas as honras. Será com Knus que assistiremos à morte de uma era, onde os navios à vela dão lugar aos de vapor e onde, a par dos perigos do mar, surgem também os submarinos, inimigo mortal, que afundam barcos e tolhem incontáveis vidas. É o tempo em que a incerteza e a sede de aventura são trocadas pelo desejo de lucro, a venda de navios, o esquecer dos perigos e o aparecimento da bolsa, que transforma por completo a vida no mar e em terra.

Magnífica viagem marítima entre terras exóticas e mares tempestuosos, “Nós, os afogados” é um romance de corpo inteiro, com tanto de ironia como de drama, numa radiografia ondulante da frágil condição humana e da busca da alma pelo equilíbrio do mundo. Ao percorrer a linha temporal entre o final do século XIX até ao fim da Segunda Guerra Mundial, Carsten Jensen recupera também um tempo de grandes mudanças, quer na indústria naval quer na vida familiar de pequenas cidades, que tinham o mar como guia espiritual – para o bem e para o mal.

Quando se aproximar o Natal e o tempo ficar dominado pela loucura das listas, “Nós, os afogados” estará, certamente, entre os melhores livros do ano para muito boa gente. Quanto a nós, RDB, já temos um lugar reservado. No camarote com serviço VIP.



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