TBA_Novelo_Joelle_Zingaro_ (c) Beatriz Pequeno (103)

Novelo Vago + Joëlle Léandre e Carlos “Zíngaro” @ TBA (31.01.2026)

De improviso em improviso

Com as bancadas do TBA muito bem compostas, os iInstrumentos de brincar das Novelo Vago destacam-se pelas cores vivas, em contraste com o palco, cadeiras e demais parafernália negra.

Vera Morais, Teresa Costa e Inês Lopes – as Novelo Vago – iniciam a sua apresentação com um peça da auditoria da última, sobre um poema de Adília Lopes, «Enterro».Peça escrita pela Inês. O enterro de Adília Lopes, ao que se segue «Canção de Embrulhar», de Alexandre O’Neill.

O trio é associado ao Dada, um movimento artístico, ou não, conforme for a perspectiva de cada um sobre o tema. A experimentação e chance têm um papel fundamental nesta concepção e isso é visível e audível ao longo de todo o concerto.

Nas peças de Novelo Vago o uso da voz é mais um elemento que constrói. Por vezes não há palavras, há sons. Que ora soam limpos, ora se apresentam como uma intrínseca cacofonia, mas sempre com um propósito, mesmo correndo o risco do receptor não se encontrar no mesmo comprimento de onda.

«Deus é a Nossa Mulher-a-Dias» leva-nos novamente a Adília Lopes, numa forma diferente de interpretação do som, de compor, por vezes quase a parecer que se está a raspar as unhas sobre a ardósia, como que à procura de despoletar uma reação, seja na pessoa ao lado em palco, seja na plateia.

Teresa Costa é a autora do momento de Jazz, segundo a própria. Um registo minimalista,  a que se segue um punk pautado pela erudição, com a pandeireta a marcar o ritmo e a voz de Vera Morais num registo mais descontraído.

«Ruído», é um poema de Hilda Hilst. Aqui uma escova penteia a a pandeireta, enervante, mas que parece apurar à medida que a peça avança.

Teresa Costa é a autora de uma peça que música um texto de Gertrude Stein, “To Surrender One Another”. É incontornável que há exercícios que resultam melhor aos ouvidos de uns do que outros. Onde alguns apenas vislumbram ordem, outros apenas se apercebem de caos e fica uma sensação estranha no ar, mas o balanço é positivo. Desafiamo-nos. Exploramos. Descobrimos novas formas de abordar um texto. De criar uma peça musical que é verdadeiramente única, que provavelmente nunca mais será tocada exactamente das mesma forma.

A fechar há uma canção em holandês, sobre as palavras de um poeta surrealista belga, Paul van Ostaijen, «Marc groet’s morgens de dingen», que pode ser traduzido para algo como “Mark saúda coisas pela manhã”. Sim, isso mesmo.

Abandonamos a sala durante alguns minutos, tempo para se preparar tudo para o duo composto por Joëlle Léandre e Carlos “Zíngaro”, que em boa hora decidiram reavivar uma colaboração que teve origem no anos 80, numa altura em que a contrabaixista francesa vai celebrando os seus 50 (!) de carreira.

Em palco parecemos imersos numa banda sonora de um filme tocada ao vivo. Aqui, cortesia do contrabaixo de Léandre e do violino de Zíngaro, o ritmo oscila entre frenético e o tenso, com pequenos oásis de paz aqui e ali, antes de tudo escalar novamente. Estamos  perante dois executantes sublimes que não precisam de palavras para se perceberem; os instrumentos são como uma extensão dos seus corpos, com o contrabaixo como que a desdobrar-se em múltiplas dimensões.

Há um spoken word peculiar, levado a cabo por Joëlle Léandre, onde se parecem exorcizar alguns demónios interiores mas também fazer uma critica social, se bem que mais orientada para a realidade gaulesa. Há um elogio para o nosso comportamento como público e fica patente o incrível alcance e diversidade que Joëlle oferece em palco.

De improviso em improviso chegamos ao final de ambas as apresentações mais ricos, numa demonstração simples, mas eficiente de como o todo é maior do que a soma das partes.

Fotografias da autoria de Beatriz Pequeno e gentilmente cedidas pelo TBA.



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