The Last Dinner Party @ Coliseu dos Recreios (08.02.2026)
Uma comunhão votada ao infinito.
Texto por Patrícia Santos e fotografia por Graziela Costa.
Oito de Fevereiro. Um domingo de chuva até ao tutano. Há quem diga que a água das nuvens não é apetecível, quase nunca o é. Porém, há excepções, há sempre excepções. E se tenho de frisar uma delas, eis (aqui), sem dúvida, o tão ansiado concerto das The Last Dinner Party no Coliseu dos Recreios. Muitas eram as pessoas à espera pela abertura de portas às 20H. Chegar uma ou duas horas mais cedo foi sinónimo de aconchego na vontade e de clareio na agitação. De facto, a precipitação era bastante, quer fosse ela climatérica e/ou metafórica – afinal, a alma só ficaria lavada quando o concerto começasse.
Pouco depois das 20H, é permitida a entrada na sala de espectáculos. Uma correria envolta em rigor e certeza. À frente do público, um cenário idílico tomou conta do olhar de cada um. Um altar-mor, comum a todos e (a)percebido na sua totalidade. Desde logo, uma espécie de tecido branco que do seu amarfanhado criou nuvens de esperança e de leveza. Simultaneamente, aquilo que pareciam duas entradas para o firmamento – uma delas, mais presente, não fosse o sino que a acolhia tão ensurdecedor no seu silêncio. Quase ao centro do palco, no tecto, algo semelhante a vários pássaros que, ao serem prateados, reflectiam toda a verdade a que estariam sujeitas aquelas duas horas de interrupção no tempo. Um altar-mor, repito. Escadas e musgos. Musgos e escadas. A ininterrupta cor branca. Estar-se-ia na presença de um espaço sideral, meio misterioso e meio apetecido.
Durante trinta minutos, Sunday (1994) deu o passo de honra, e que bem que o fez. A banda de dream pop formada em LA faria, assim, a sua estreia em Portugal. ‘Em cena’ desde 2020, contam com dois EPs, um álbum deluxe e outro que será lançado em Março do presente ano. Formam um livro de quimera(s) ainda com muito para se explorar, desde logo porque se “o sonho comanda a vida”, ter-se-á toda uma existência de devaneios para (os) concretizar. Num ambiente denso em camadas sonoras oníricas, Sunday (1994) fizeram entoar meia dúzia de canções, entre elas «Tired Boy» e «Stained Glass Window». Canções estas que, apesar de enigmáticas, formaram uma clarabóia essencial na decifração das nossas angústias.
22H01. É a vez das The Last Dinner Party pisarem o palco. Este seria o primeiro concerto da tour europeia (afirmam que Lisboa é uma das suas cidades favoritas) de apresentação do seu segundo álbum intitulado “From The Pyre” – álbum esse que seria tocado na íntegra. Ao mesmo tempo, foram também cantadas quase todas as músicas de “Prelude to Ecstasy” (o seu primeiro álbum). A banda entra, caminha em direcção ao centro, como se o mesmo fosse um lugar de purificação. Estávamos ali prestes a assistir a um ‘Juízo Primordial’ – honesto e corajoso. «Agnus Dei», «Count The Ways» e «Feminine Urge» dão o mote inicial, a tríade de canções que tornam a súplica em necessidade, que transformam qualquer oração em benção.
A banda londrina foi demonstrando que presença na actuação era com elas – com uma atitude afincada, com uma personalidade bem distinta. Abigail Morris tomaria as rédeas da performance na qual cada variação melódica foi um admirável mundo novo. «Second Best», «Rifle» e «The Scythe» estiveram entre as seguintes músicas mais cantadas. Concebeu-se uma sintonia sem ímpar – se o público sabia para o que vinha, também The Last Dinner Party nos ofereceu uma ‘refeição’ que em tudo nos satisfez – oh, que rejubilo. Eis que nos deparamos com uma ‘comunhão votada ao infinito’ – os figurinos que eram obras de arte, o cenário que era sacrossanto, as vozes que se conjugavam no mais que perfeito dos tons… e, enfim, os sorrisos, as palmas, as lágrimas.
Em tom de confissão, partilharam que revivem muitas vezes o primeiro concerto que fizeram em Portugal, em 2024, no Primavera Sound. Entusiasmadas por voltar ‘cá’ quase dois anos depois, agradeceram com a seguinte frase – “Portugal, we love you!”. O sentimento é mútuo. Efectivamente, houve ‘espaço’ para todas as emoções. Nunca se ficou à deriva, navegou-se por mares certeiros. Do protesto surgiram momentos lindos de harmonia; do protesto apareceram múltiplas cores visíveis e invisíveis; do protesto conectaram-se as pessoas. Como se fosse um fogo que de fátuo nada tem. A linguagem cantada, falada e dançada foi compreensível a todos. «My Lady of Mercy», «Inferno» e «Nothing Matters» formam o triângulo de despedida. Por fim, «This is the Killer Speaking».
“We cried, we danced, we loved”. O entusiasmo, o contentamento e o orgulho. Do ‘êxtase’ à ‘pira’ e da ‘pira’ ao ‘êxtase’. Foi assim, durante quase duas horas, o concerto das The Last Dinner Party.
Nota: nesta tour europeia, a banda tem à venda umas fitas em várias cores a dizer “The Last Dinner Party”. Esta iniciativa serve para ajudar associações locais, em cada cidade onde vão. Em Portugal, o montante foi redireccionado para a Refood.
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