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O Caso Farewell

Um thriller apolítico.

“O Caso Farewell” de Christian Carion não é carne nem é peixe. Não é um thriller político puro e duro, nem é um drama familiar bem desenhado. Não há mal em querer misturar dois géneros que parecem à partida antagónicos, vários filmes fazem-no e bem, e nos últimos tempos é raro o filme de género – seja o western, seja o musical, seja um thriller como este, muito comum na década de 70 do século passado mas caído em desuso desde então – que não sirva de pretexto a outra história.

O problema é a indecisão entre fazer uma coisa ou outra, se era para ser estudo sobre amores filiais e parentais, sobre amores maritais, sobre sacrifício perde-se demasiado tempo com a trama de espionagem e o contrário também se aplica. Falta ao filme um fio condutor e penso que se deva a isso as cenas que não vão a lado nenhum, as pontas soltas, a sensação de que não foi editado suficientemente, mas também a falta de alguns momentos, a falta de algumas cenas importantes, a sensação de que foi demasiado editado. Assim de cabeça, não me lembro de nenhum filme recente que me pareça ao mesmo tempo tão longo e tão curto.

Quando tenta ser um filme de espionagem, “O Caso Farewell” raras vezes consegue criar ou manter tensão. Não fosse a cena inicial que nos dá a saber que alguém irá morrer, poder-se-ia pensar que todas aquelas  acções (que ajudaram a pôr termo ao regime soviético – aqui em versão postal ilustrado, focando-se demasiado em relíquias kistch) não iriam ter qualquer tipo de consequência. E, a não ser num ou outro momento bem conseguido, nunca há sensação de verdadeiro perigo para as personagens. Não se pede rios de sangue nem mortes a rodos, pede-se que o filme tenha a coragem de fazer sentir os horrores que enuncia.

Pense-se em “Quebra de Confiança” de Billy Ray – com o soberbo Chris Cooper – também sobre agentes duplos e quejandos e em quão superior é em relação a este filme, sem ter necessidade de recorrer a caricaturas mal enjorcadas de figuras políticas de relevo: o Reagan obcecado por Ford, o inescrutável Miterrand, a mancha na cabeça de Gorbatchov, ou exactamente por não ter.

Quando tenta ser drama familiar, “O Caso Farewell” nunca ultrapassa a lógica de telenovela – um episódio do Gossip Girl tem mais profundidade – com personagens bastante mal desenvolvidas. Principalmente as mulheres e em especial a mulher do protagonista francês: servem como motor da narrativa ou para criar um pouco de conflito a martelo mas têm espessura nenhuma. E não é com poesia, nem com simbolismos bacocos – ver poema sobre os lobos e a analogia fácil com o sacrifício – que a coisa vai ao sítio. A realização preguiçosa e ilustrativa não ajuda à festa.

Fica a curiosidade de os actores – Guillaume Canet e Emir Kusturica – que interpretam os papéis principais serem ambos realizadores. Os problemas do filme não residem neles, e fica o desejo de que fosse qualquer um deles a realizá-lo.



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