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O Caso Spotlight

A Sacrossantidade da Notícia.

Vivemos uma época onde comunicamos sem barreiras ou censuras (pelo menos aparentemente), todos os dias realidades são construídas, reputações manchadas e figuras e modos de vida  são celebrizados como consequência da profusão de informação que cruza o nosso olhar e onde ocasionalmente nos detemos.

Se hoje perguntarmos aos nossos amigos onde leem as notícias diárias , provavelmente um grande número deles nos dirá que o faz através das redes sociais.

Apesar dos benefícios que estes avanços informáticos trazem para a sociedade, existe o enorme risco da falta de critério, de filtros ou de confirmação dessas notícias ou pseudo notícias, que surgem sem qualquer esforço no nosso ecrã e que de uma forma ou de outra nos influenciam nas nossas apreciações.

É verdade que vivemos num país de opinadores com agendas mais ou menos escondidas, que os meios de comunicação são detidos por grupos económicos que nos impingem as versões dos factos que mais vantagens lhes trazem, mas sempre existiram e sempre existirão homens e mulheres capazes de lutar pela sacrossantidade da notícia como veículo da verdade.

Indivíduos que lutam contra os poderes instituídos e as sociedades e organizações que tentam preservar a mentira e o status quo. Esses homens e mulheres merecem ser chamados de jornalistas.

O Caso Spotlight ( o título não faz qualquer sentido uma vez que Spotlight não é um caso mas uma equipa de investigação), é sem a mais pequena dúvida o melhor filme de investigação jornalística desde o já velhinho: Os Homens do Presidente.

E isso é dizer muito!

Spotlight  leva-nos aos meandros da investigação conduzida pelos jornalistas de investigação do Boston Globe aos  crimes de abuso sexual perpetrados por sacerdotes católicos a crianças das suas paróquias durante as últimas décadas do Séc. XX e primeiros anos do Séc. XXI.

Boston é uma das cidades dos Estados Unidos com maior enraizamento na sua extensa comunidade irlandesa, que com ela trouxe uma forte ligação ao Catolicismo e uma obsessão pelo código do silêncio. Cerca de 65% da sua população é católica e existem igrejas e escolas de matriz católica em quase todas as ruas da cidade.

É perante essa conjetura, que o recém-chegado novo editor principal do Globe, Marty Baron ( Liev Schreiber), decide dar maior cobertura jornalística a uma investigação em torno de John Geoghan, um padre de Boston, que alegadamente abusou sexualmente de mais de 100 crianças.

Marty não é de Boston e é judeu, o que aos olhos de alguns ,é o suficiente para indagar das suas razões em alargar as investigações à Igreja Católica no seu todo e não apenas a Geoghan.

É então que a equipa de investigação Spotlight entra em cena. Dessa equipa fazem parte: Matt Carrol (Brian d’Arcy James); Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e o Luso-Americano Mike Rezendes (Mark Ruffalo) apoiados pelos editores assistentes, Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton), um filho de Boston com profundas raízes na comunidade e Ben Bradlee Jr. (John Slattery), também ele com longa história no jornal e na comunidade da Nova Inglaterra.

Um longo e por vezes desesperante trabalho de investigação, entrevistas e confirmações viria a seguir-se , contando com muito poucos aliados ( onde se destaca o advogado de defesa Mitchell Garabedian, interpretado sobriamente por Stanley Tucci) e muitos obstáculos colocados não apenas pela Igreja mas também pelo quase infinito manto de segredos e silêncios de uma sociedade que não pergunta porque teme a resposta.

Spotlight é um grande filme, isso é evidente. É também o mais perto de observação obrigatória para os portugueses em geral e os homens da imprensa em particular, que consigo imaginar.

Muito existe de semelhante entre a comunidade de Boston e sociedade portuguesa…O temor reverencial por figuras de autoridade, a desesperada tentativa de manter o poder instituído, o silêncio criminoso perante os horrores escondidos do quotidiano e o medo…sempre o medo a condicionar as nossas mais lídimas aspirações…

Mas no seio de todos os povos, existem também pessoas muito corajosas e dignas  e este filme honra-os sem os transformar em mártires ou heróis.

Nos aspetos formais da execução técnica, o filme é sempre escorreito, entusiasmante pela história (mérito da adaptação dos argumentistas, Josh Singer e Tom McCarthy), discreto na direção de actores – apenas Mark Ruffalo e Michael Keaton têm direito a solos numa orquestra muito bem afinada – com ótimos diálogos e sem  excessos interpretativos, e uma realização que se fixa nos factos . E isso é provavelmente a maior homenagem que o realizador Tom McCarthy  pode fazer ao jornalismo.

As interpretações acompanham a densidade narrativa e a sobriedade de processos, onde os maiores destaques são obviamente Keaton e principalmente Ruffalo que tem em Spotlight,  um dos seus melhores papéis.

Um grande filme que aconselho vivamente e que sai com um Muito Bom!



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