rdb_RoboCop2014_header

Robocop

Metal Fundido

Quando José Padilha foi convidado para realizar uma versão do “Robocop” do séc. XXI, muitas foram as dúvidas colocadas quanto à capacidade do realizador de “Tropa de Elite” em recriar de forma convincente e minimamente entusiasmante, este original de Verhoven do já distante ano de 1987.

Quando o “Robocop” do Holandês chegou aos cinemas na década de 80, dividiu as críticas e opiniões em consequência da excessiva violência da obra, que por vezes parecia gratuita e dispensável, mas que fazia parte do estilo crítico e expositivo do seu cinema.

Contudo a análise ao cinema de Verhoven em geral e a “Robocop” em particular, é tudo menos simples, uma vez que a brutalidade que o autor utiliza é mais uma forma de crítica através do choque do que propriamente uma apologia da mesma. Sendo que algumas cenas são de tal forma exageradas que podem ser compreendidas pelo espectador mais atento como uma sátira social que se faz sentir através de um grito ao invés de um murmúrio.

Curiosamente ou talvez não, Padilha fez o mesmo com “Tropa de Elite”, filme que aparentemente justificava a violência policial, de um ponto de vista algo fascistóide e repressor.

O pensamento de Padilha (e dos restantes escritores) só fica claro após a sequela de “Tropa de Elite. Só aí se compreende que o estado militar advogado no primeiro filme serve primordialmente para colocar em evidência as fragilidades das sociedades modernas que apesar de defenderem a liberdade, conseguem justificar com alguma facilidade a utilização de força repressora sobre os prevaricadores.

Em ambas as obras uma questão tão assustadora quanto pertinente fica no ar: Quando aqueles que têm como missão deter os que ameaçam a sociedade, se tornam tão ou mais desumanos que os criminosos, passam eles a ser a principal ameaça à sociedade?

O poeta romano Juvenal explicou-o com uma frase: Quis custodiet ipsos custodes?

Que é como quem diz, quem vigia os vigilantes?

Voltando à visão de Padilha de “Robocop”, importa dizer que apesar de manter alguns pontos em comum com o filme original…é bastante diferente.

O esqueleto ou neste caso, exosqueleto da história é por demais conhecida.

Num futuro relativamente próximo, a cidade de Detroit, como tantas outras é flagelada pelo crime que ganha espaço quotidianamente. Há um sentimento nacionalista e marcial no ar que clama por soluções radicais para erradicar o crime.

É nesse cenário que proliferam empresas com mais tecnologia que moral, que estando proibidas de utilizar “Drones” e unidades de combate cibernéticas em tereno americano (apesar de usadas sem qualquer restrição em teatros de guerra distantes), aproveitam o terrível atentado ao agente da ordem Alex Murphy, para criar o derradeiro agente da paz e da ordem, Robocop.

A premissa básica do filme remete-nos para uma enganadora simplicidade, que é no entanto claramente desmentida por um subtexto denso e complexo.

As duas versões são de alguma forma pessimistas em relação ao futuro, só que os demónios do final da década de 80 são as empresas multinacionais, tentaculares que compram e vendem a alma ao diabo em nome do lucro. E de facto essa previsão negativa já se cumpriu.

Os fantasmas do futuro em pleno séc. XXI – são de acordo com esta nova versão – o regresso dos regimes totalitaristas, nacionalistas e repressores. Essa predição curiosamente está também a cumprir-se agora, em tempo real.

Padilha no entanto caminha numa direcção diferente no que diz respeito à crítica apresentada. O filme é muito mais intimista e contido e isso faz dele um filme muito diferente do anterior.

É menos amoral, subversivo e misantrópico?

Sim! Mas é mais inteligente e principalmente muito mais acutilante.

No que diz respeito ao elenco, sem desrespeito aos actores da versão do século passado, este é bem mais forte, principalmente pela presença do excelente Gary Oldman, que é excelente como de costume, no papel do moralmente ambivalente Dr. Dennett Norton.

Temos ainda Michael Keaton, Samuel L. Jackson e Abbie Cornish, em muito boa forma e um Joel Kinnaman (que para muitos estará para sempre ligado à série de culto “The Killing”), que oferece um Alex Murphy muito diferente daquele que Peter Weller nos ofereceu no século passado.

No que diz respeito aos meios ao dispor de Padilha em 2014, a comparação com o que era possível em 87, é de uma injustiça atroz. Mas o grande trunfo da sua realização não é a utilização dos efeitos especiais, que nestes filmes são sempre entusiasmantes, mas a capacidade de demonstrar a tristeza e o desespero sem necessitar de cenas histriónicas e diálogos cabotinos.

Penso que a tarefa de Padilha foi cumprida, sem brilhantismo mas com consistência.

Na minha opinião, um filme bem mais maduro, ainda que seja possível que muitos sintam saudades do cinismo da primeira película.

Sai com um Satisfaz Bem.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This