“O Grande Gatsby” | F. Scott Fitzgerald

“O Grande Gatsby” | F. Scott Fitzgerald

Uma trágica e melancólica autobiografia

Francis (ou apenas F., como rezam a história e as capas dos livros) Scott Fitzgerald viveu sempre com medo de que a mediocridade lhe batesse à porta. A vida fez-lhe a vontade e tal adversidade nunca se lhe atravessou no caminho, mesmo que as portas da fama e de acesso a degraus sociais superiores se tenham aberto; não graças à ascendência social, mas sobretudo à sua inteligência e a uma figura muito bem-parecida. E, também, graças a uma imaginação imensa, moldada a partir do próprio corpo.

Diz-se que a ficção nunca conseguirá criar algo tão surpreendente quanto aquilo que a realidade é capaz de inventar. No caso de Fitzgerald, a máxima foi cumprida à risca, tendo-se tornado o autor-personagem de quase todos os seus livros. “O Grande Gatsby” (Editorial Presença, 2013), um diamante que apenas revela todo o seu brilho num final apoteótico, é talvez o maior exemplo desse narcísico e amargurado olhar ao espelho.

Jay Gatsby é um tipo misterioso, um excêntrico da “idade do jazz”, rico e pouco dado a grandes moralidades. Dedica-se a oferecer festas de arromba a toda a gente que decide aparecer na sua grande mansão, movido por um secreto e ambicioso desejo: reconquistar o coração de Daisy Buchanan, por quem se havia apaixonado na juventude mas que entretanto casara com o milionário Tom Buchanan, enquanto Gatsby partia para a guerra. Mas será que o passado pode ser tão facilmente reclamado?

A história é-nos contada por Nick Carraway, vizinho de Gatsby, que acaba por actuar como um cronista da verdade, perdido entre algum orgulho e uma grande dose de desapontamento. Se lermos um pouco sobre a vida de Fitzgerald, talvez digamos que ele é, em “O Grande Gatsby”, retratado em duas personagens: em Nick, através do desejo de justiça e do desapontamento com as convenções sociais; e em Gatsby, um novo-rico que vê no dinheiro o motor que torna tudo possível, um rebelde sem ideologia a caminho da auto-destruição.

Com uma narrativa que se vai transformando devagar ao longo das páginas, “O Grande Gatsby” é uma aparente pedra sem valor que, aos poucos, se revela um gigantesco diamante. Poucos livros falam, como este, da perda das ilusões e da insensatez de alguns sonhos. Obrigatório.



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