“O Jogo” | Anders De La Motte

“O Jogo” | Anders De La Motte

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No mundo da literatura e do cinema, muitas foram as tentativas de estabelecer uma fusão entre a ficção e a realidade, transformando a vida num jogo onde é difícil perceber se estamos a segurar o joystick ou a ser comandados, do outro lado do vidro da arcada, por um jogador ocasional que vai lançando moeda atrás de moeda.

“eXistenZ”, um dos mais incompreendidos e mal-amados filmes de David Cronenberg, é o exemplo perfeito dessa fusão entre o jogo e a realidade, esbatendo qualquer fronteira entre o que é real e o que é imaginário. “O Jogo” (Bertrand, 2014), o primeiro livro de uma trilogia sonhada pelo sueco Anders De La Motte, vai beber também ao conceito de jogo, ainda que sem a componente alucinatória Cronenberguiana.

No dia em que Henrik Pettersson – ou “HP” – encontra acidentalmente um telefone numa viagem de comboio atravessada por uma imensa ressaca, julga ter encontrado uma forma de ganhar um bom dinheiro com o achado. Porém, quando tenta perceber de que modelo se poderá tratar este estranho telemóvel, uma mensagem surge no visor: “Queres jogar, Henrik Petterson?”.

Certo de estar a ser alvo de uma partida do seu amigo Manga, um perito em computadores convertido em muçulmano, aceita entrar no jogo e cumprir a primeira missão: roubar um guarda-chuva vermelho a um passageiro que entrará no comboio algumas estações mais tarde, tendo de filmar o acto como prova. A missão valerá 100 pontos e, caso HP a consiga levar a bom porto, ficará com o telemóvel desbloqueado, pertencendo-lhe por direito até que decida continuar a jogar. Porém, aquilo que no início parecem missões inocentes tornar-se-ão, com o tempo, grandes e emocionantes desafios, conferindo a HP um estrelato entre um mundo obscuro feito de apostas, esquemas e muita política, difícil de abandonar mesmo que esconda em si um lado negro.

Em paralelo acompanhamos a história de Rebecca Normén, uma inspectora da polícia em ascensão – e irmã de HP -, assombrada por um passado que a revisita constantemente através de bilhetes colados no cacifo da esquadra. Afastados um do outro por um percurso tudo menos colorido, HP e Rebecca serão inconscientemente aproximados pelo Mestre do Jogo, revisitando feridas comuns mas incertos sobre que caminho tomar a partir do momento em que a realidade parece ser apenas um jogo.

Mais do que um thriller cerebral, “O Jogo” revela-se um livro que privilegia a acção em detrimento da trama – com uma linguagem longe de perfumada -, oferecendo personagens a que falta alguma profundidade e onde a ideia de redenção parece estar presa por arames. Leiam-no como um jogo, um entretenimento de algumas horas, sabendo que, quando virada a última página, será vossa a opção de inserir créditos para jogar o nível seguinte: “Vibração”, o segundo livro da trilogia com edição prevista para breve.



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