“O Livro Negro” | Hilary Mantel

“O Livro Negro” | Hilary Mantel

Uma vida desenterrada do mais negro e escuro conhecimento

Temos a imagem de um homem de origens simples, sem nunca dar a conhecer mais do que o necessário sobre si mesmo, com grande poder sobre um monarca mas nunca o suficiente para viver tranquilamente; como foi a vida do homem que se podia dar ao luxo de ter como único amigo o rei de Inglaterra, carregando esse pesado fardo mas enorme satisfação?  Pouco ou nada se sabe de Thomas Cromwell, o Secretário-Mor de Henrique VIII e, nesse sentido, a autora Hilary Mantel, premiada com o Man Booker Prize de 2012, apresenta aos leitores uma vida desenterrada do mais negro e escuro conhecimento.

O Livro Negro” poderia parecer um manual de bruxaria  quando, na verdade, é o livro de costumes antigos que regia o pessoal que trabalhava nas casas reais; na verdade, regia tudo excepto a Câmara Privada do Rei, cuja maneira de funcionar nunca foi nem poderá ser transparente aos olhos de quem gostaria de saber.

Este livro e esta sociedade transbordam de mistério e de atitudes extremamente cuidadas. Thomas Cromwell tem noção do perigo de dar um passo em falso e actua de acordo com o seu livro mental ainda por escrever, “Um Livro Chamado Henry”, a biografia de um rei aos olhos de Cromwell, cuja vida e traços de personalidade julgava conhecer de cor mas que na verdade nos escapa entre os dedos, um leão ao qual podemos esfregar a juba e puxar os bigodes enquanto não podemos tirar os olhos das garras, ai as suas garras…

Numa corte que se apodrece em debate, rancores, murmúrios, segredos, intrigas e traições, ela é o reflexo de uma sociedade podre e em batalha constante em direcção ao progresso, caminhando pela primeira vez rumo a uma separação com a Igreja Católica, difícil de aceitar. Um pouco de bruxaria talvez fizesse jeito por aqui.

Que o diga Anne Boleyn, a rainha que acreditou ter melhores capacidade de domadora e feiticeira do que a história veio a confirmar. Os protocolos designados no Livro Negro são muitos, mas como confrontar as regras centenárias com uma religião tão recente e colocada as vontades de um Rei indeciso, curioso, fascinado e facilmente perdido pelos encantos de uma mulher? Toda a gente sabe das mulheres de Henrique VIII, tantas quanto o seu título de Rei designa, num curioso destino proclamado…

Como declara na sua nota final, a autora não reivindica palavra de ordem para o seu livro, mas tenta apenas oferecer uma versão para os factos históricos, tanto para os amplamente conhecidos como para os menos claros e escondidos. Numa linguagem pitoresca, bem carregada de adjectivos e palavras sérias, juízos de valor interessantes sobre as personagens, vamos abrindo a janela da história entre o rei e o Secretario-Mor, naquelas que foram as últimas semanas de vida de Anne Boleyn aos olhos de Cromwell, tanto e tão pouco amado, mas sempre carregado de mistério até ao fim dos seus dias.



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