O Marciano Andy Weir

“O Marciano”

Nem tanto à Terra, nem tanto a Marte

O padrão é reconhecível de imediato: parágrafos curtos para pular entre páginas com rapidez; linguagem corrente, oral, embelezada com piadas imediatas, porém nem sempre (ou quase nunca) eficazes; personagem principal a levar a maior fasquia do livro como narrador autodiegético, para uma maior relação emotiva com o leitor, se bem que lá se deixe a terceira pessoa cuidar do enredo multi-personagem. A edição está pronta, agora trata-se de vender uma quantidade ridícula de exemplares.

Ora, nem sempre é assim tão linear, mas são aspectos a ter em conta no panorama editorial de hoje. Alguns afirmam que os bons escritores intimistas não têm lugar nas prateleiras das grandes superfícies, remetendo-os para modestas edições de autor ou negócios duvidosos (em que os custos saem do bolso do autor). Com sorte, são levados na vaga colossal e incerta das edições digitais. Já o veterano em vendas pela Amazon, Andy Weir, não lê em O Marciano (Topseller) palavras, lê antes cifrões e extractos bancários. O primeiro romance deste engenheiro de software conta com o selo de aprovação de Douglas Preston, guru do bestseller, que deve ter dado o livro a ler a um assistente para sacar o elogio do verso.

Se por um lado é de louvar o saber enciclopédico de Weir, não sendo tarefa fácil transpor e conferir a quantidade de informação científica que contém a obra, o personagem central – Mark Watney – arrisca-se a ser a última pessoa com quem se gostaria de estar sozinho num planeta sem vida, de tão entediante que o seu constante regurgitar de factos e curiosidades é, semelhante a uma grelha incessante de programas do Discovery Channel.

Mark Watney foi deixado para trás, não por culpa dos companheiros, que até serão fulcrais para o seu regresso. O “náufrago” marciano terá de recorrer à sua capacidade intelectual para cultivar alimentos (batatas); não descartar alternativas menos dignas para se hidratar (urina purificada); desenrascar-se com uma série de engenhocas prestáveis – tudo para se aguentar em Marte com vida. Watney enfrenta a cada instante um novo perigo, tornando a sua sobrevivência uma espécie de videojogo com vários níveis de dificuldade. É comum um capítulo começar com Watney a avisar-nos que é desta que morre por ter feito porcaria ou por algum incidente fora do seu controlo. Se num primeiro momento, face à resma de folhas que restam, é difícil sentir-se tensão que seja (é espectável que Weir não mate Watney logo de início), rumo ao final já se toma como garantido que neste género de obra de consumo rápido não se sacrifica um final feliz e moralista. Weir ainda tenta a referida variação entre narradores para manter o suspense, porém a tensão continua invariavelmente nula.

Não há motivos fortes para pegar n’O Marciano, a não ser que se aprecie um compêndio de curiosidades científicas conduzidas por um enredo cinematográfico, de modo a manter a imaginação mais entretida. A não ser que a futura adaptação de Ridley Scott se torne uma obra-prima (a julgar pelos recentes trabalhos do cineasta de Alien e Blade Runner, será difícil), ninguém se lembrará disto daqui a vinte anos.



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