“Kama Sutra – As Regras do Amor” | Vatsyayana

“Kama Sutra – As Regras do Amor” | Vatsyayana

All you need is love

Quando Vatsyayana escreveu o “Kama Sutra” entre os séculos IV e V da nossa era, estaria certamente longe de imaginar que o livro se iria tornar, para a literatura, aquilo que o Beatlesco «All you need is love» se tornou para os amantes da boa música pop: um marco que serve de mantra musical quando tudo parece correr mal ou nos esquecemos daquilo que é realmente importante.

A recente edição pela Marcador, de ar muito vintage, vem mostrar que o Kama Sutra não trata apenas de mostrar quais as melhores posições para o acto carnal, mas que é antes um livro que mistura em doses não necessariamente iguais sexo, religião e política, visando o gozo pleno da vida.

O nome Kama Sutra tem origem na união dos termos kama, que significa desejo e amor, e sutra, um conjunto de ensinamentos revelados sob a forma de aforismos. A obra original tinha como destinatários os nobres da Índia, que levavam uma vida de luxo e se dedicavam a adquirir o maior número possível de habilidades sexuais. Porém, apesar do ar prazeirento, o “Kama Sutra” pertence à literatura religiosa indiana pois, apesar dos ensinamentos conduzirem ao prazer carnal, visam, em primeiro lugar, a elevação espiritual do homem.

Numa visão (inocentemente) sexista, as mulheres aparecem como “colaboradoras eficazes para o triunfo de um amigo ou a derrota de um inimigo. Devemos, portanto, aproveitá-las de acordo com as circunstâncias.” Mas atenção, se esta instrumentalização servir apenas para satisfazer o desejo sexual, aí entramos no domínio do pecado. Apenas se está autorizado trocar amor com mulheres casadas se o intuito esconder uma outra finalidade, tal como “trucidar o seu marido apropriando-se dos seus bens.”

Há depois todo um arsenal de truques, dicas e conselhos para que acto sexual ganhe a aparência de um momento épico: as carícias que precedem o acto, os beijos e os abraços, as mordeduras, os gemidos e os ais; ou um estudo sobre as tendências sexuais das mulheres, pois todas são diferentes e convém adaptar o desejo à personalidade e gostos de cada uma: há umas que gostam de bater, outras que gostam de ser mordidas, outras ainda que gostam de gritar como se não houvesse amanhã.

Entramos depois na parte das posições e, então, surgem finalmente as ilustrações que o nosso imaginário se habituou a construir sobre a obra. Porém, o sentido de humor e as dicas práticas nunca abandonam o barco: há conselhos sobre como o homem se deve comportar durante o acto sexual, uma palestra sobre casamento, matrimónio e lua de mel e conselhos para que as mulheres – «volúveis como o vento, com uma personalidade movediça» – saibam tirar de forma fácil e indolor dinheiro a um amante.

Vindo dos primórdios do tempo, apresentando um forte sentido prático, um inesperado sentido de humor e um sexismo de época que hoje se lê de sorriso nos lábios, esta edição do “Kama Sutra” é uma mais-valia para qualquer biblioteca. E a companheira ideal para ter à cabeceira.



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