amor_inside

Há novidades no Amor?

Para mim é a amante.

No novo filme da Rosa Filmes, “O Que Há de Novo no Amor?”, seis jovens realizadores portugueses fizeram, no fundo, uma declaração de amor a essa amante, essa amada cidade de Lisboa. Foi assim que eu vi e gostei.

Foi assim que eu vi e gostei, porque se visse de outra forma não tinha gostado tanto.

O filme do sangue novo dos cineastas Mónica Santana Baptista, Hugo Martins, Rui Santos, Tiago Silva Nunes, Hugo Alves e Patrícia Raposo estreou-se este sábado, 4 de Fevereiro, nos cinemas para contar a história de seis jovens de uma banda. Os Ursos são o paralelo, quase real, para as bandas portuguesas, quais cogumelos dos bons por Lisboa e este Portugal fora, que têm a capital como palco para a música, encontros, desencontros. Aqui, além dos ensaios, há, sem haver, sempre na bela subtileza de olhares, perguntas e respostas de uma vida que, não sendo jovem de mais para ter o “Coração Partido”, não foi ao fundo das questões do amor; mas também quem quer ir? Talvez tenha sido essa subtileza a vitória do filme protagonizado por David Cabecinha, Diana Nicolau, Inês Vaz, Joana Santos, João Cajuda, João Pedro Silva E Joana Metrass, Miguel Raposo, Nuno Casanovas, Sofia Peres.

O cerne são as seis histórias de amor entrelaçadas, nem sempre com a profundidade desejada, umas nas outras, iluminadas pela luz de Lisboa. E é isso que sem dúvida encandeia nesta estreia. Pois sendo o amor tocado ainda com luvas por estes jovens cineastas, o que luziu foi, inevitavelmente, o palco: Lisboa.

O que há de novo no amor, no destes seis cineastas e, atrevo-me a dizer, no nosso, é afinal este cenário de Lisboa, o amor que a vida com vida nos traz e que, na efemeridade das coisas, o volta a tirar. Porque nestas coisas de nos enamorarmos pela luz de Lisboa, há que saber que se nos alucina também nos hipnotiza. Às vezes é preciso parar para saber vê-la da nossa janela. As seis personagens fazem-no, cada uma à sua maneira, na sua procura. E com eles sabemos que se continuamos desesperadamente na pergunta do que há de novo, do que é o amor, é porque nos falta palmilhar Lisboa abaixo e acima, de coração mais leve, ao ar, metaforicamente ou não, pois não faltou o balão em forma de coração distribuído pela Rosa Filmes que até nisso está de parabéns. A ante-estreia + filme + casting + concerto que encheu a cidade de cartazes, foi bem conseguida de início ao fim. Pôs-nos a ouvir a boa música portuguesa que saiu da banda sonora com Samuel Úria e Peixe: Avião e continuou em concerto no São Jorge. E aí, depois do filme descomplicar e responder, sem grande enredo e com uma boa estética, a questões básicas do amor, pensamos nas nossas histórias, bem tocadas, cantadas e escritas. Correcção: muito bem tocadas por gente nova e a seguir de perto, das bandas Coelho Radioactivo e Cão da Morte, com João Coração. Serão as nossas histórias assim tão mais complicadas? Se calhar não há nada de novo e de estranho aí. Se calhar é mesmo só vivê-las, cantá-las e descer a Avenida da Liberdade com os tais balões em forma de coração. Porque afinal, o que há de novo no amor senão entregarmo-nos a ele?

Lisboa: a amante

Os jornais dizem-nos enamorados por ela, lá foram premeiam-na como destino turístico, mas ela já era nossa amante. Amante sem a conotação negativa da palavra, amante é aquela que ama, mas se quiserem Lisboa é também a outra, à letra, a amante que todos já tivemos, porque já não há primeiras pedras para atirar, é a amante que faz sonhar, procurar, escrever músicas, andar à chuva… ser amante é coisa boa. E Lisboa é boa!

"O Que Há de Novo no Amor?"

É este ar que se respira, não é de agora, que parece ter inspirado estes seis realizadores que conhecem e trabalharam bem os recantos da cidade, com inteligentes usos da luz e dos cenários que nos pautam os horizontes da meditação na nossa vida comum em Lisboa. Mais uma vez a subtileza presente e vencedora, não há miradouros demasiado conhecidos nem pontos turísticos, há uma Lisboa onde qualquer um pode ir à janela.

Os realizadores percorrem as janelas, sabem onde é a próxima festa, sabem que é sempre melhor que a anterior e que é isso que, às vezes, nem sempre, nos faz sentir sozinhos no meio da multidão, ou andar à procura do que há (de novo, ou não) no amor. Uma festa que pode ser uma música com novos acordes, uma insatisfação, um medo de entrega, receio de compromisso: tudo está nas esquinas e palcos que o filme percorre.

É esta amante que permite e provoca, seduz, reluz e ofusca estas seis histórias e outras seis milhares de histórias mais ou menos juvenis, mais ou menos complexas, mais felizes, mais avessas. Estes seis realizadores conhecem, gostam de Lisboa e mostraram-na da forma que afinal também tantos de nós conhecemos. O filme fala de como se vive e se vive bem em Lisboa, das suas tendências, sendo que uma delas é esta mesma: gostar de Lisboa. Ser “Lisbon Lover” está onde nunca esteve. Atrevo-me a dizer que já não há sete colinas mas uma oitava, feita de nós que nas outras sete vivemos, feitas de retalhos, de crafts and design, de arte urbana, de bares que se transformam em ruas inteiras e que às vezes ficam cor-de-rosa! Uma colina onde quase só dá música portuguesa, muita e muito boa, onde bate sol quase sempre mesmo quando não bate porque há mais gente a rir. E a rir, subimos e descemos a colina a pedalar ganhando avanço aos anos demais em que dissemos que Lisboa não é boa para andar de bina. Lisboa é boa para tudo!

Estas ruas (que nos pertencem, ainda que o apaguem das paredes) estão cheias de vida e o filme, louvada seja a tal subtileza que aqui vence, mostra vida em cada canto. E com a pergunta a pairar “O Que Há de Novo No Amor?”, sem dar por ela, estamos ao lado dos actores, a escolher o que há de melhor na música, na Louie Louie no Bairro Alto, a dançar (e a suar) no Bacalhoeiro num concerto de Samuel Úria. Estamos lá porque os lugares existem, ainda que essa veracidade seja corrompida às vezes por diálogos fracos e pouco naturais. Na Lisboa do filme descemos a rua de bicicleta como se não houvesse carros nem problemas. A Lisboa do filme tem a praia já ali a dois minutos para ires esticar as ideias. Sol, areia, mar, Tejo, ideias melhores, ideias piores, amigos nos lugares habituais, nos lugares certos mesmo que o coração ande, às vezes, às avessas. A Lisboa do filme é a nossa Lisboa.

O filme fala de uma juventude que procura casa como nunca antes na capital, que gosta do rendilhado de telhados à janela para se inspirar a escrever canções, e da vizinhança próxima: “olha uma vizinha, olha um bebé”, diz a meio um casal que vê o amor interrompido pela vida curta demais, enquanto do outro lado da cidade alguém grafita: Tenho o coração partido. Há no amor deste filme a amizade que é também uma forma de amor, a perda, a não entrega. Há a intimidade, a paixão e o compromisso. O amor é tudo isso, ou nada disso. Nada de novo no amor portanto, pois esta é já a conhecida teoria triangular do amor de Sternberg, em que intimidade, paixão e compromisso se desenrolam em relações mais ou menos complexas.

Há paixões, receios, entrega, fuga, corações partidos, para recair numa coisa: a intimidade. É a intimidade de hoje, difícil, fugaz, corrosiva, que pode aparecer num ecrã mas que não consegue esconder-se em olhares para uns, ou que teima em não conseguir olhar nos olhos de outros. Uma intimidade a teimar do início ao fim. Porque talvez o que haja de novo no amor, ou não tão de novo assim, seja essa intimidade, falta dela ou excesso dela a não conseguir estabelecer laços ou a enforcá-los.

O pior do amor

Ao contrário do que acontece no amor e seus labirintos, não houve grandes desilusões no filme, mas a temática, o amor, universal e ao mesmo tempo tão particular, sentimento tão socialmente construído e afinal tão idiossincrático, essa, pedia um pouco mais de profundidade. As duas horas de filme também. Horas com espaço para uma bela fotografia da cidade de Lisboa e as margens do seu rio Tejo mas com tempo a sobrar para outras imagens que fossem além de um armazém de jovens em festas (pouco) underground. O que se quis mostrar, nessa ocasião e noutras como aquela em que se abre num soslaio demasiado focado uma grama de uma qualquer felicidade ilícita. Por esses e outros caminhos foi tudo assim muito ao de leve como a canção de embalar «Corações Partidos» que acompanha o filme de início ao fim. Talvez a ideia fosse essa, essa subtileza do toque, porque afinal o que falta ao amor é a pureza das coisas e a abstracção do mal que, lá estando, nunca será ao amor que nos conduzirá. Mea culpa, eu nisto do cinema português sou mais “Sapatos Pretos em Noite Escura”. Não se quer com isto dizer que o filme tivesse de ser mais pesado ou controverso só porque fala de adolescentes numa banda mas, quando se fala de amor, a leveza do ser é insustentável, não? Por outro lado a leveza não afastou as cachopas, de não mais de quinze anos, que comiam bolachas Oreo atrás de mim e riam de qualquer coisa que o João Cajuda fizesse, mesmo representando ele a personagem de um paneleiro. Um, dos vários, pormenores, que me agradou: o uso desta palavra tão portuguesa. Fora todas as tendências mostradas da bina ao graffiti, ninguém se corrompeu pela palavra gay que, sinceramente, não é nada tuga. Paneleiro é como se diz em bom português, acordos à parte e, neste filme todo tuga – realizadores, cenário, actores, música – foi assim que se disse, acentuando-se no trailer que quis anunciar um filme sem papas na língua mas que, nisto das relações humanas, não foi muito além das bolachas Oreo da fila de trás.

“O Que Há De Novo No Amor?”

Hugo Alves, Hugo Martins, Mónica Santana Baptista, Patrícia Raposo, Rui Santos, Tiago Nunes
Edição: 2011
Secções: Cinema Emergente, Competição Nacional
Ficção, Portugal 2011, 121′, Dcp
Argumento: Hugo Alves, Hugo Martins, Mónica Santana Baptista, Patrícia Raposo E Octávio Rosado, Rui Santos, Tiago Nunes
Fotografia: Daniel Neves
Música: Peixe -– Avião
Som: Tiago Raposinho
Montagem: Rui Santos
Com: David Cabecinha, Diana Nicolau, Inês Vaz, Joana Santos, João Cajuda, João Pedro Silva E Joana Metrass, Miguel Raposo, Nuno Casanovas, Sofia Peres
Produtor: Maria João Sigalho
Produção: Rosa Filmes

Fotografia por Ana Jerónimo. 



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This