“O Voo do Corvo” | Juliet Marillier

“O Voo do Corvo” | Juliet Marillier

Doses deliciosas de mistério e expectativa

O segundo tomo de qualquer trilogia padece sempre do “síndrome do meio” (tão familiar para quem se entregou, recentemente, às três horas de “A Desolação de Smaug”): nem carrega consigo a novidade de uma nova aventura nem a excitação do final que se desvenda. Juliet Marillier já não é, no entanto, uma novata no formato e soube compensar este “Voo do Corvo” (Planeta, 2013) com doses deliciosas de mistério e expectativa, a par de alguns desenlaces inesperados, que alteram o rumo da história de forma dramática.

Neste volume da coleção Shadowfell regressamos a Alban – mais uma nação do mundo fantástico de Marillier – onde a jovem Neryn está, já, perfeitamente integrada no bando de rebeldes que procura derrotar o tirânico rei Keldec e os seus exércitos de Subjugadores. Purga após purga, o rei eliminou todos os que lhe fizeram frente e escravizou os habitantes que demonstraram talentos particulares para a magia, a cura ou qualquer outro dom considerado fora do normal, procurando rodear-se de poderes que lhe garantam o domínio total sobre a terra e, se possível, os Boa Gente – toda uma panóplia de seres fantásticos, sobrenaturais, que, outrora, partilharam Alban com os humanos, mas que se retiraram para mundos invisíveis, fugindo da chacina.

Depois de muitos anos a esconder os seus talentos naturais, com receio da escravização e de sofrer o mesmo triste fim que a sua família e muitos amigos, Neryn percebe que é uma Voz (dom raro, que permite ao detentor comunicar e convocar os Boa Gente) e encontra-se, neste segundo livro, no centro da estratégia dos rebeldes. Com a sua intervenção, exércitos de seres míticos são persuadidos a apoiar a causa e, por toda a Alban, tem início um movimento de mudança. Entretanto, Neryn e a sua protetora Tali viajam pelos quatro cantos do reino, procurando os quatro guardiães que lhe proporcionarão a aprendizagem necessária para dominar os quatro elementos (ar, água, fogo e terra) e assumir-se, plenamente, como Voz. A viagem é perigosa, num mundo assombrado pelo medo e a violência, e onde a desconfiança e a traição são constantes. O romance iniciado no volume anterior com o espião Flint, homem de confiança do Rei mas, na verdade, um dos principais elementos rebeldes, consolida-se aqui, apesar das tarefas brutais que é, muita vez, obrigado a cumprir, para não levantar suspeitas – testes brutais a um amor que não sabe se terá futuro para florescer.

Membro da OBOD – Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, e divulgadora insaciável do folclore tradicional dos antigos povos do Reino Unido, dos pictos aos celtas, a neozelandesa Juliet Marillier continua a criar fábulas que evocam o melhor de nós, através de um mundo mitológico e simbólico que, facilmente, extrapolamos para a vida real. Mais uma vez – linha mestra da sua obra – expressa-se através de uma personagem feminina, que cresce de forma discreta até que um acontecimento marcante despoleta uma série de ensinamentos e ações, reveladores da sua verdadeira força e poder.

Sem as intrincadas árvores genealógicas, estratégias militares e mapas de clãs de outras trilogias, como “As Crónicas de Bridei” ou “Sevenwaters”, “Shadowfell” é, facilmente, aconselhável para o público juvenil mas, na profundidade das reflexões, agradará, certamente, a todos os fãs do género fantástico. Marillier esteve em Portugal em novembro, para novo encontro com uma das suas maiores bases de fãs, a nível mundial. A conclusão de “Shadowfell” tem como título original “The Caller” e deverá sair no primeiro semestre de 2014.



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