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OFFF Oeiras 2009 – Neville Brody

Reportagem da OFFF Oeiras 2009. Dia 7 de Maio.

Sigo à letra o tema do OFFF 09 ao tropeçar na entrada do espaço proposto para o evento deste ano, a Fundição de Oeiras.

A lotação está esgotada e, de acordo com a organização, foram vendidos “mais bilhetes que nunca”. Comprovo este dado quando chego a entrada do pavilhão K7 e dou de caras com milhares de pessoas alinhadas, quase todas de óculos de sol , num burburinho que mistura o inglês, o espanhol e o português.

Apesar da bendita acreditação – a menina vem para um dos stands, é? – opto por permanecer na fila desformatada, por respeito ao amigo que me acompanha.

Passados cerca de 40 minutos de furiosa espera à torreira do sol, abrem-se finalmente as portas do muito esperado evento, que atravesso, aos empurrões, no meio de uma ansiosa e baralhada mob de criativos, geek, designers, e demais simpatizantes da cultura pós-digital.

Acelero o passo, pois está quase na hora de Neville Brody, o “cabeça de cartaz” do dia, e eu quero estar bem sentada.

A sala cavernosa (só existem duas singelas janelas) já está meio cheia. Apesar de já serem 11h da manhã o sono ainda brinca com os olhos. Dirijo-me a um quiosque onde duas meninas “oferecem” café. Para mim tanto me faz, desde que seja café. Depois de mais uma fila de espera, as meninas destroem o meu sonho de cafeína –afinal era preciso ir ali aquele balcão ao fundo buscar uma senha”. Argh! Não posso perder mais tempo com isto, tenho uma conferência para assistir.

Uns valentes minutos de espera e, finalmente, após um breve discurso dos organizadores e de Isaltino Morais (que promete renovar a parceria no ano que vem), Neville Brody.

Se Joshua Davis é a estrela de rock do OFFF, então Neville Brody só pode ser o punk. “Make trouble” é o que diz o primeiro slide de uma apresentação que incita sobretudo a pensar de forma radical e sobretudo a arriscar. “Arranjar confusão” neste caso é ter ideias perigosas, que façam pensar duas vezes e não nos deixem indiferentes.

Este slide resume bem o espirito Neville Brody que sempre foi conhecido como um rebelde do design, quebrando as regras, ignorando os limites, encontrando sempre inovação, criatividade e inspiração onde outros se limitam a falhar.

Os seus primeiros trabalhos como designer foram capas de discos de música na Al McDowell’s e para as editoras independentes Stiff Records e Fetish Records. Nesta última começou a experimentar e a tornar coerente a sua linguagem visual que hoje tão bem discernimos. Entre 1981 e 1986, foi art editor da revista “The Face”, para a qual desenhou a fonte geométrica Typeface Six (1986). Foi na Face que criou verdadeiros desafios ao que até então se fazia no design editorial. As suas criações, verdadeiramente inseridas no movimento Pós-modernista, criaram uma ponte para o universo ecléctico que se viveu no início dos anos 90 e até para um certo revivalismo geométrico e informático do final da década de 90.

Diz-se inspirado pelos Sex Pistols, o que não surpreende, mas não só. Dá-nos uma pequena lição de história de arte, diz que é para nos contextualizar dentro do universo das grandes ideias para que consigamos perceber de onde viemos e para onde podemos ir. Desfilam imagens de trabalhos de Man Ray, Damian Hirtst, Marcel Duchamps, todos eles revolucionários dentro do seu género. E percebemos onde quer chegar. Quer uma revolução no design, ou como ele diz, uma “guerra civil”, que provoque o pensamento, explorando o potencial da linguagem visual para mudar pontos de vista.

Aquele que sempre desafiou os limites da comunicação visual tem mais uma tirada que merece ser citada: “Free me from freedom”. Parece ser esta a sua última obsessão e aquela que partilha com o seu auditório. Mais uma mensagem política que não deixa ninguém indiferente. Questiona a premissa: como é que podemos intitular-nos livres quando na realidade somos monitorizados pela sociedade em que nos inserimos, desde a nossa identidade às nossas transacções e comunicações? Prova o seu ponto e ensina-nos mais um pouco, passando a pente fino alguns dos seus trabalhos mais mediáticos: Issey Miyake, Kenzo, o redesign do jornal The Times e o trabalho para a iniciativa ONE. Enfatiza o principal: são as pequenas mudanças que fazem a diferença e é o drama que torna uma história fantástica.

Neville Brody, tal como Paula Scher e Stefan Seigmeister, é, para além de um génio criativo, um excelente orador dotado de um carisma próprio de um guru religioso. A plateia, em transe, apesar das dificuldades técnicas de uma sala com uma acústica tão boa como um dia de trânsito em Lisboa, leva com mais uma granada de sabedoria que remete subliminarmente para o tema do festival: “We are graphic designers because we need restrictions. Or else we´d be fine artists.”



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