Ólafur Arnalds

Ólafur Arnalds @ Coliseu dos Recreios (13.03.2019)

Uma noite para re:member.

Quando nos encaminharam para a cadeira que nos estava destinada na plateia do Coliseu, já a música ambiente estava a ser debitada pelos pianos programados pelo Stratus, a nova coqueluche de Ólafur Arnalds, num projecto desenvolvido a meias com o seu amigo das matemáticas Halldór Eldjárn. Pareceu-nos uma agradável forma de rentabilizar o esforço despendido durante dois anos para conseguir dar vida a estes instrumentos fantasma (como o próprio se referiu aos mesmos).

O compositor entrou em palco sozinho, secundado pouco depois pelo quarteto de cordas que convocou para a tour actual, formado por três violinos e um violoncelo, e rapidamente demonstrou ser um óptimo comunicador, fomentando inclusivamente a participação do público ao gravar uma entoação geral para ser usada na interpretação de “Only the Winds”. A plateia de Lisboa portou-se tão bem que teve direito a executar duas vozes, algo que segundo Ólafur poucas salas logram. Às referidas cordas juntou-se esporadicamente um baterista/percussionista, coincidindo quase sempre com os momentos mais progressivos do concerto.

Ainda na fase inicial do recital, foi o protagonista secundário da noite a pregar uma partida a todos. Justamente quando o pianista islandês partilhava com a audiência a história que levou ao seu desenvolvimento, o programa Stratus foi abaixo. Ólafur Arnalds revelou nervos de aço ao não entrar em pânico, tendo em conta que a disfunção do software se prolongou por um bom quarto de hora. Para queimar tempo entre reiniciar os programas e o computador que manobra o Stratus, houve tempo para Ólafur responder a uma mini-entrevista feita pelo público, que o inquiriu acerca da sua iniciação no universo da música. E foi aí que tomámos conhecimento dos Fighting Shit, a banda punk-hardcore onde o islandês pontificava como baterista antes de dedicar-se aos pianos e cordas.

E Ólafur Arnalds tornou-se mesmo num compositor em toda a acepção da palavra, dado que nas suas peças actuais nem sempre é o piano quem brilha, permitindo que o quarteto de cordas tome a dianteira da melodia em diversas ocasiões. Tal demonstra que o cérebro do compositor funciona cada vez mais de forma mais global, não apenas com olhos para as teclas do piano. E, se o mais recente «re:member» ser de pista, podemos imaginar que mais elementos poderão tornar-se costumeiros nas composições de Ólafur, dado o maior papel desempenhado pelos sintetizadores e berloques electrónicos. Momentos houve em que o islandês se moveu em terrenos normalmente mais percorridos pelos seus Kiasmos ou pelo maior experimentalismo do seu amigo Nils Frahm.

O anfitrião vindo da Islândia contou-nos ainda sobre o bloqueio criativo com que se deparou ao fechar-se no estúdio para escrever o que viria a ser «re:member». Não deixa de ser curioso que tenha sido do silêncio, providenciado pela ilha indonésia onde se refugiou durante o bloqueio, que tenha brotado tanta e tão boa melodia. Desde logo «Nyepi», a primeira e muito provavelmente a faixa maior deste último álbum.

Destaque também para a faceta luminosa do espectáculo que foi absolutamente espantosa, com diferentes efeitos programados fielmente de acordo com o esqueleto de cada um dos temas que era apresentado em palco. Desde a sensação de trovoada, até à neblina que chegou a ser reproduzida na boca do palco, ou até um verdadeiro sol que a certa altura se gerou por cima das cabeças da plateia, bem no centro do Coliseu. Tudo produzido com uma cadência e sensibilidade fora do comum.

Ólafur encerrou a etapa complementar do alinhamento com o tema que criou como homenagem para a sua avó, uma das pessoas responsáveis pela mudança de espectro musical do compositor por meio de panquecas e horas seguidas de Chopin, dado que não apreciava muito a sua carreira nas fileiras do punk-hardcore. «Lag Fyrir Ömmu» (que significa precisamente “Canção Para a Avó”) fechou a noite no Coliseu com chave delicada, Ólafur Arnalds ficou sozinho em palco, mas com o delicioso pormenor de ouvirmos o quarteto de cordas a tocar para lá das cortinas do palco na recta final do tema, quase como se estivéssemos a espreitar às escondidas o ensaio de um ensemble qualquer.

Uma noite bem iluminada (literal e figurativamente) num Coliseu que recebeu um público ávido pela música do islandês e que, felizmente, respeitou de modo exemplar o silêncio. Uma parte sempre importante da música, tal como as histórias de Ólafur Arnalds permitiam confirmar, ainda que seja muitas vezes esquecida ou atropelada.  



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