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“Operação Outono”

Era preciso um americano?

“Operação Outono”, de Bruno Almeida, é mais um thriller político português. Um documento que vem novamente pôr o dedo na ferida sobre o que foi o Estado Novo. Estreia em Portugal a 22 de Novembro e conta no elenco com actores como John Ventimiglia, Nuno Lopes, Marcello Urgeghe, Ana Padrão, Renata Batista, João d`Ávila, Carlos Santos, Pedro Efe e Camané.

Este filme fundamenta-se em documentos verídicos, mais propriamente no livro “Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo” de Frederico Delgado Rosa, neto do General.

A acção desenrola-se entre 1964 e 1981, desde a preparação da operação, levada a cabo pela PIDE, no assassinato do General Humberto Delgado, até ao caso do Tribunal em que se dão os depoimentos dos integrantes. Esta operação tinha por nome de código: Operação Outono.

Além de apresentar alguma reflexão sobre a forma como a PIDE actuou na neutralização da oposição ao Estado Novo, inclui também um pouco da história individual do General Humberto Delgado, homem que lutou pela liberdade contra a ditadura de Salazar. Neste filme, a sua morte parece ter sido algo mais que um homicídio em legítima defesa, apresentando-se como um assassinato brutal, abafado durante anos.

A época em foco inclui a Revolução dos Cravos, através de imagens revivalistas, que surgem ao som da música «Depois do Adeus» de Paulo Carvalho, uma escolha diferente, para fugir à já tão ouvida «Grândola Vila Morena». A banda portuguesa Dead Combo participa na banda sonora, o que acaba por dar um envolvimento especial a este filme.

Uma dúvida que surge é a escolha do actor americano John Ventimiglia, que se tornou célebre com a série televisiva “Sopranos”, para reencarnar o general Humberto Delgado. Uma decisão intrigante, porque não a escolha de um actor português para representar um português tão importante e mediático? Talvez não tivesse sido a opção mais feliz. Não estão em questão as capacidades representativas do actor americano, o que está realmente em questão é este nunca ter tido qualquer contacto com a língua e cultura portuguesa e apenas falar Inglês. Desenrola-se assim um estranho playback, originado pela dobragem das falas do Ventimiglia, facto que acaba por distrair ligeiramente o espectador do enredo principal.

Um bom exemplo para retratar o conflito existente na diferença de idiomas é o “Fahrenheit 451”, o único filme em Inglês, do realizador francês François Truffaut. Um filme que acabou por deixá-lo decepcionado com a versão original do mesmo, pois não gostou dos diálogos em Inglês. Truffaut não dominava a língua em questão, por consequência não conseguia avaliar a representação e a interacção dos personagens como pretendia, perdendo o controlo da essência do filme. Assim, acabou por supervisionar a dobragem do filme, de modo a atenuar a insatisfação já estabelecida. Este caso específico é diferente da situação em análise, contudo o que se quer salientar é a importância que os idiomas atingem no caminho para a genialidade de um filme.

Passando à frente na escolha do Ventimiglia como protagonista, embora tenha como pano de fundo Portugal, Espanha, Algéria, Marrocos, França e Itália, este é de facto um filme muito português, que vem recordar que o cinema português está vivo.

O argumento acompanha um despertar político actual. São tempos conturbados, em que todos têm uma opinião ou algo a dizer. É necessário um entendimento do passado, desenvolver uma prática para que o pensamento novo e de renovação política e social sejam esclarecidos e não apenas feitos de actos irreflectidos. É premente voltar atrás para perceber a história dos últimos anos, para finalmente se chegar às melhores conclusões.



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