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Portugal Shake @ Colecção B-Évora

Portugal Shake, mais do que a reunião dessas atmosferas e tempos precisos, convida o espectador a uma viagem por esse país fora, sem descurar uma única facção dessa realidade múltipla.

Se Rui Lage ainda não há tanto tempo quanto isso nos situava no espectro de uma linha de entendimento musical acima de falsos pré-juízos no que à música nacional dizia e diz respeito, João Aguardela incutia-lhe um olhar de magnânima portugalidade que atravessou o registo da tradição oral e o fez conviver com traços de modernidade. Se Rui Lage levantava questões como “Quem ficará para escutar este país sitiado? E quem ficará para tocá-lo?” (escutadas e lidas aquando da homenagem ao músico) Tiago Pereira desenterra universos susceptíveis de gerar linhas de entendimento dispares e reúne-os num só.

Portugal Shake, apresentado dia 19 de Outubro em Évora, mais do que a reunião dessas atmosferas e tempos precisos, convida o espectador a uma viagem por esse país fora, sem descurar uma única facção dessa realidade múltipla.

Nas suas recolhas existe o fomento por uma experimentação que indicia a exploração de solos diferenciados: da tradição oral e imaterial, da pop, da electrónica, do rap. Uma unificação que cruza e celebra a atitude musical mais citadina com o amadorismo mais marginal. Que nos faz acreditar, em tempo real, que facilmente um responso pode dar as mãos com a blues, a paisagem mais sensitiva com o atropelo urbano, a tensão da dança de rua com o tom confessional duma balada, a electrificação de guitarra mais retesada com a viola da terra mais telúrica.

Se “Significado” acomete às saliências da paisagem natural dos espaços deste Portugal e nos faz reconhecer nela os sonidos de raiz, “Se a Música Portuguesa Gostasse Dela Própria” indicia a afeição de Tiago Pereira pela celebração sonora do seu país, elevando-o em auto-estima e “Equação” volta a abrigar-se sob premissas da tradição que orientam grosso modo a sua desenvoltura e meneio dessa informação musical de sementeira e Portugal Shake? É no fundo o aglutinar de todas as experiências do cineasta no velame dessa imensa embarcação nacional que nos oferece, quer nas recolhas do seu canal de arquivo (A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria) quer na sua manipulação e cruzamento em tempo real, uma rara capacidade de interpretação desse imenso molde sónico que o agita.

Se Rui Lage questionou quem ficará para tocá-lo, na referência a este país sitiado, eu respondo: Talvez um Tiago Pereira e os colectivos que se revêem nessa transversalidade e nela apostam gerando círculos de interesse geradores dessa procura e revelação de novas realidades artísticas, de um Escrita na Paisagem a um Colecção B.

Fotografia por Mário Pires



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