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Os Tornados

O ié-ié está de volta à cidade.

Aqui há uns tempos, escrevi numa página da concorrência, que não vou dizer o nome mas que se chama Mescla Sonora, que a compilação “Portuguese Nuggets” foi a coisa mais importante que aconteceu à música portuguesa neste início de século. Mais do que os Buraka Som Sistema ou os Deolinda, esses três discos que compilam o que se fez nos anos 50 e 60 na música rock-pop portuguesa é fundamental.

E por vários motivos: primeiro, porque não obedece a requisitos de qualquer ordem, limitando-se a compilar tudo o que é rock feito nesse período de tempo, seja ele bom ou mau, o que nos permite ter uma visão geral sobre o todo. E depois porque tornou acessível a todos nomes como os de Victor Gomes, Daniel Bacelar, o Conjunto Académico João Paulo ou os Tártaros, verdadeiros progenitores do rock português, muito antes do Rui Veloso e do boom do novo rock e, consciente ou inconscientemente, antecessores da família Flor Caveira/Amor Fúria.

E agora, cinquenta anos depois, eis que surgem Os Tornados, banda rock da actualidade, mas que podia muito bem ter surgido nos anos 60, numa qualquer matiné do cinema Império, a tocar em bailes algumas versões surf de temas populares ou covers da british invasion, que assim escapavam à censura. A diferença é que, agora, a plateia já não são senhoras conservadoras de saia rodada e senhores de bigode ansiosos por ganharem um beijinho dessas mesmas senhoras. Agora, a plateia tem novas regras a cada dia que passa, dos hipsters aos mods, passando pelos emos e restantes tribos urbanas que nem sequer sei catalogar.

Os Tornados recuperam essa tradição do verdadeiro rock português, o ié-ié dos salões de baile, com reminiscências da fúria rebelde e adolescente do Victor Gomes e dos seus Gatos Negros (vide o single «Catraia», com um belíssismo teledisco), a pop das canções ligeiras do Conjunto Académico João Paulo, ou as guitarras surf de Os Ekos. No entanto, tudo aquilo soa extremamente actual, com um pouco mais de distorção, um theremin que dá um toque cinemático à coisa e a linguagem mais desavergonhada. “Twist do contrabando”, disco de estreia, é uma dos mais luminosos e brilhantes álbuns que este Verão vai ver.

Os Tornados deram-se a conhecer nos Novos Talentos, da Fnac, com uma espécie de música do antigamente. Que música é esta que fazem?

Acima de tudo, fazemos canções contemporâneas, com sonoridades e arranjos inspirados na música que marcou os anos 50 e 60, em Portugal. Como acontece na maioria das bandas, as nossas influências foram-se definindo ao mesmo tempo que íamos compondo novos temas. A descoberta do rock’n’roll português, o ié-ié, bastante rico em termos de arranjos, com a indentidade cultural que a diferenciava da anglo-saxónica e de certa forma esquecida, fez-nos orgulhar de um passado dourado que merecia ser renovado e recriado aos tempos modernos.

Quando se olha para trás, na nossa música, fala-se muito do novo rock português, mas muito pouco do que houve antes disso, nos anos 60. Porque é que isso acontece?

Pensamos que a razão do rock português na década de 60 não ser suficientemente valorizado prende-se com o facto de estar associado ao antigo regime. Dá-se mais ênfase à música que teve um papel interventivo, que inspirou a mudança e depois a todos os grupos que tiveram liberdade criativa e apoio dos media no pós-25 de Abril.

Em Portugal, nos anos 60, os conjuntos aproximavam-se bastante dos Shadows, The Beatles… A maioria dos temas em português eram censurados e as bandas limitavam-se a tocar em bailes e festas académicas, para sobreviverem, com repertório maioritariamente composto por versões de temas em inglês. Os equipamentos eram fracos, as condições de gravação não eram as melhores e os gravadores tinham apenas dois canais à disposição. Os discos eram gravados em sessões de escassas horas, tocados ao vivo, sem direito a novos takes, por motivos orçamentais.

Também pelo facto de o país estar nesse tempo envolvido numa guerra colonial, as carreiras das bandas não eram duradouras, pela emigração constante de vários músicos.

Apesar de tudo isto, para nós, é nesta época que vive a verdadeira criatividade e inovação. Os poucos registos em vinil, recentemente reeditados em compilações, são para nós autênticos tesouros de rock’n’roll vintage com portugalidade vincada.

Se o Rui Veloso é o pai do novo rock português, quem é o pai do rock português?

Pessoas como o Daniel Bacelar, Zeca do Rock e o Joaquim Costa são os pais do rock português.

Actualmente, vive-se também uma espécie de boom do rock cantado em português. Como vêem esta “espécie” de fenómeno?

Nós  vemos isso como algo positivo. É um novo folêgo na música portuguesa. Assume-se sem medo que somos portugueses e que temos uma língua própria. Esperamos que não seja um hype. No futuro, as novas gerações terão mais referências. Existirão diversos exemplos do que é cantar em português. Isso faz com que a nossa música evolua.

Os Tornados nunca pensaram em cantar em inglês?

Já  nos passou pela cabeça. Mas não para já. Talvez no futuro saia um disco d’Os Tornados cantado em inglês, francês, espanhol e italiano!

Como surgiu a banda?

A banda surge em Setembro de 2004, depois de quatro de nós terem combinado um ensaio para criar uma banda de bares. Como todos nós éramos já amigos ou conhecidos, acabámos por nos juntar os seis nesse ensaio. No final do dia, desistimos da ideia de fazer uma banda de bares e decidimos continuar os ensaios e fazer música original. Nasciam assim os CONTRAbANDO que, pouco tempo depois, gravariam a primeira maquete. Uma gravação de cinco temas distintos uns dos outros, mas que incluía já o tema «Dança aí», que está hoje no nosso disco. Foi esse tema que nos fez encontrar o rumo.

Pouco tempo depois e devido a problemas com o registo do nome, passámos a Conjunto Contrabando. Era uma forma cool de resolvermos esse problema e ainda exprimir aquilo que estávamos a fazer na altura. Entre 2005 e 2007 gravámos mais três maquetes até que, em inícios de 2008, já com o “Twist do Contrabando” gravado, o Henrique Amaro convida-nos a integrar os Novos Talentos Fnac 2008, com o tema «Veludo Azul». Como não conseguimos registar Conjunto Contrabando, decidimos então procurar um novo nome. Nascem Os Tornados.

Twist, ié-ié, surf… como surgiu o gosto por este género de música, a tal do “antigamente”?

Este gosto surge devido a um interesse natural pela música que se fez no passado. O cinema e, particularmente, realizadores da nossa geração, como Quentin Tarantino, David Lynch e os irmãos Coen, revitalizaram essa música do “antigamente”. Ao reciclar determinados valores culturais, eles trouxeram de volta artistas que estavam esquecidos. Quem conhecia o Dick Dale antes do Pulp Fiction? Alguns certamente mas, a partir desse momento, o reconhecimento do Dick Dale globalizou-se.

Estão ainda a compor a banda-sonora da longa-metragem de Paulo Rebelo, “Efeitos Secundários”. Que podem adiantar deste projecto?

Já  compusemos, gravámos, misturámos e masterizámos em Janeiro deste ano. Primeiro fomos surpreendidos com um telefonema da produtora da longa-metragem, depois do realizador Paulo Rebelo ter encontrado o grupo que procurava, ao ouvir o «Veludo Azul», na Radar, enquanto conduzia em Lisboa. Uns dias depois, reunimos no Porto, vimos o filme e gostámos imenso! Abraçámos o desafio. Sentimos que Os Tornados poderiam acrescentar algo.

Com algumas indicações do Paulo sobre ambientes, intenções e necessidades, encontrámos o ponto de partida para darmos início a um trabalho árduo e rápido. Em apenas um mês e meio tínhamos dezanove temas compostos. Foi uma experiência da qual podemos sentir orgulho. Por um lado, devido ao escasso tempo que tivemos para fazer tudo e, por outro, porque sentimos que a missão foi cumprida: o filme ainda se tornou “maior”. Deu-nos ainda a hipótese de explorar novos caminhos e abrir portas para composições futuras.

Neste momento, estamos ansiosos por ver o resultado final de um filme que acreditamos que irá marcar positivamente o cinema em Portugal. Estamos convictos de que poderá ser uma banda-sonora que motive muitos realizadores a dirigirem mais convites a músicos e bandas portuguesas.



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