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J. G. Ballard

Ballard, Sexo, "Crash" e um vinil de Burial.

J. G. Ballard, figura maior da ficção científica mundial, foi uma das maiores perdas do ano 2009 (arriscamos a previsão, abusiva, quando o ano ainda vai a meio). O que se perdeu, o que os outros herdaram, porque se gosta do estilo, o que devemos aprender com ele, eis as questões  colocadas a cinco nomes com ligações diferentes (ou, nalguns casos, semelhantes) a Ballard. Directas ou indirectas.

Na capa, quase invisível, “Untrue”. Acima, em letras maiores, “Burial”, o artista, o projecto, o conceito. Pegamos nele, sentimos a textura, olhamos a figura a duas cores, quase rascunho, colocamo-lo a rodar e confirmámos aquilo que já nos tinham dito: as vozes fantasmagóricas, os ambientes soturnos, os ritmos sincopados e os sons marcadamente hipnóticos “podem ser a banda sonora ideal de qualquer livro de J. G. Ballard”. Anuímos, “Archangel”, “Near dark”, “Homeless”, “Raver”, “Etched Headplate”, os nossos preferidos, “Crash”, “Crash”, “Crash”, a mirar-nos da televisão acesa. Mérito de Cronenberg, agradecimento eterno.

Viajamos no tempo. A 1973, à data de lançamento do livro; chegamos ao hospital, depois de um grave acidente de automóvel que vitimou o marido de uma médica. Conhecemos Ballard, a personagem principal [escritor e protagonista podem/devem confundir-se?], que conhece a tal médica no local do acidente. Iniciam uma relação [social, sexual] que os leva a viajar pelas auto-estradas londrinas, procurando o acidente eminente, a colisão, o prazer que daí advém, o sexo desenfreado. Levamos companhia connosco, Gonçalo Freitas, admirador do universo ballardiano e alguém que gosta “muito de ler”:

– “É um óptimo livro para aqueles que têm ‘tesão’ pelos acidentes de automóvel. Vi primeiro o filme [Crash, 1993, David Cronenberg], mas foi bizarro para mim; quando li a obra vi que as coisas eram mais exploradas. O filme acaba por não retratar muito bem a ideia de replicar acidentes históricos, replicar o acidente que o James Dean teve, por exemplo”. Filme – 0, Livro -1.

– “No livro estão mais salientes alguns aspectos, como a parte sexual e a forma como eles têm que morrer, como deuses, imitando os outros”. Filme – 0, Livro – 2.

Crash, mutação sexual

Miguel Bonneville, performer:

– “A primeira vez que contactei com Ballard foi através do filme de Cronenberg, o “Crash”, quando tinha 15 anos. Foi o meu irmão que me aconselhou a ver o filme, ele estudava cinema, vi o filme e não fiquei muito convencido”. Filme – 0, Livro – 3?

– “Mas o meu irmão tanto insistiu que acabei por ver uma segunda vez e comecei a entranhar-me no ambiente do filme, até que, hoje, é um dos filmes que mais vi”. Filme – 1, Livro – 2!

– “O que me interessou no filme? Eu acho que tem muito a ver com o facto de haver um catalisador de uma ideia que não é bem aceite, há ali qualquer coisa para além da normalidade, que surge quando a personagem principal não está à espera que aconteça. É como se aquele acidente provocasse mais do que ferimentos e mude mesmo a vida daquela pessoa”, aponta Bonneville, acrescentando que “é esse lado menos óbvio que cativa, a capacidade de um acidente de automóvel nos levar para um universo diferente”.

Bonneville é conhecido pelas suas performances marcadamente sexuais, onde o corpo ocupa um lugar fundamental. “Acho que o que me marcou mais, no início, foram as questões da sexualidade e da mutação física. Acho que [os meus trabalhos] têm elementos dessa fragmentação, da mutação do corpo e de uma sexualidade alternativa. Acho que tem a ver com a ideia de metamorfose, de rapidamente nos podermos transformar numa outra coisa ou numa outra pessoa”. No seu trabalho, o exemplo mais aproximado “talvez seja o ‘Strip Me, Dress Me’, que vai muito directamente à questão da metamorfose e da troca de identidades”. Miguel pede ao público que o dispa, sem pudor. “Crash”.

Ballard na vida dos artistas

O imaginário de J. G. Ballard (nascido James Graham Ballard em 1930, filho de pais britânicos, infância passada no Japão, adolescência num campo de refugiados civis, passagem por Inglaterra, Canadá, gosto por carros e aviões) marca grandes nomes da cultura mundial.

“Ao longo do tempo fui descobrindo Michelle Lord [artista plástico, “Future Ruins”, 2007] ou [David] Cronenberg.” Hélia Saraiva, investigadora, diz que, “quanto à literatura, há influências de Ballard na forma como são criadas metáforas invulgares e híbridas. Essa hibridez está patente nas obras de Michel Houellebecq, do David Foster Wallace e em Paul Auster, mas com muitas reticências da minha parte em relação a este último”, revela.

No trabalho de Solveig Nordlund, a sueca mais portuguesa que conhecemos, as influências de Ballard são inequívocas. Gosta de “Crash”. Mas elege “Aparelho Voador a Baixa Altitude”, que levou ao cinema.

“É uma história sobre a diminuição da população humana. Uma mutação cinética que está a ocorrer, em que a humanidade não aceita a diferença e mata todos os bebés que vão nascer”. Há uma mulher que foge à polícia, que quer que o seu filho nasça, que sabe da sua diferença mas que a aceita. O filme estreou em 2002, mas a ligação a Ballard data do final dos anos 60, quando começou a ler os títulos de uma colecção [das muitas realizadas] de ficção científica.

“Saía um novo livro e comprava logo, gosto da supresa das histórias dele, aquele efeito ‘ah ahhhh!!’ que provoca”, vocaliza.

Chegou a entrevistar Ballard para a televisão sueca, antes de filmar. “Esperava um militar inglês ou uma coisa dessas, mas era uma pessoa muitissimo simpática, de fácil contacto, acho que ficámos amigos”. Recorda-o como “uma pessoa humilde, que vivia no anonimato, com três filhos pequenos para criar, depois da morte da sua primeira mulher num acidente de carro. Escrevia histórias curtas para depois poder ter mais tempo para tomar conta dos filhos à noite”. Sintetiza: “Era uma dona de casa muito modesta e discreta”.

“Crash” on the Trek

A obra de J. G. Ballard vai muito para além de “Crash”. Ao longo dos 78 anos de vida – faleceu a 19 de Abril -, destaque óbvio para “O Império do Sol”, publicado em 1984, um dos seus mais aclamados romances – venceu o Guardian Fiction Prize e o James Tait Black Memorial Prize, foi finalista do Booker Prize e adaptado ao cinema em 1987 por Steven Spielberg.

“Este é um filme que serve mais para contextualizar o aspecto biográfico de Ballard. O filme é interessante porque mostra que ele não foi um adolescente qualquer [a personagem principal, Jim Graham, pode ser entendida como a personificação do autor enquanto criança], ele tinha já a ambição de escrever, tinha a paranóia dos aviões, já conhecia todos os modelos que se utilizavam na Segunda Guerra Mundial “, destaca Vítor Ribeiro.

Em Maio, a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão apresentou uma mostra de filmes de ficção científica, intitulada “On The Trek”. Figura central: J.G. Ballard.

“Em 2008 [Julho a Novembro], o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona fez uma mega exposição de trabalhos à volta do imaginário do Ballard. Depois de vermos essa exposição, decidimos avançar com uma série de projecções para perceber a influência dele em Portugal”, revela Vítor Ribeiro, programador da mostra, “e a ideia seria convidar alguns artistas a explicar a influência de Ballard nas suas artes”.

Forma final: um ciclo de cinema dedicado a Ballard. Com “Videodrome”, de Cronenberg, “O Império do Sol”, de Spielberg, “Viagem a Orion”, de Nordlund. E “Crash”. Claro. E Solveig Nordlund como convidada principal.

Fase moderna de Ballard

“Eu acho que, no fundo, ele é ainda pouco conhecido, continuam a identificá-lo com a ficção científica e isso é falso; a parte mais interessante é esta última, de final de carreira, em que se virou para os problemas da classe média”, revela Vítor Ribeiro.

Por isso recomenda “Gentes do Milénio” como leitura obrigatória: “A história é basicamente a de um grupo de pessoas de classe média alta que vivem em Chelsea, nos arredores de Londres, que começa a colocar bombas em locais públicos porque sim, sem qualquer razão aparente. Com isto o Ballard quis mostrar que a humanidade está num beco sem saída.”

Gonçalo Freitas, por seu lado, lê “Noites de Cocaína”: “Trata de um indivíduo que escreve sobre viagens e, numa dessas viagens, vai até Gibraltar, onde há uma série de ingleses reformados e tudo parece perfeito. No entanto, nada é perfeito e há uma série de coisas estranhas a ocorrer, entre seitas e venda de droga”.

Há violência, há sexo, drogas, há conflitos na vida de Ballard. Há crítica social e consciência política no final da vida de Ballard – e há Burial a soar cada vez mais alto…



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