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Paco Hunter, isto é uma América

Metidos separadamente em vários projectos da Meifumado, os irmãos Pimenta finalmente criaram laços de sangue musicalmente, Paco Hunter, e sangue derramado foi o resultado. Um disco, “No 1 in Acapulco”, que promete dar que falar nos tempos vindouros. Falam-nos nesta entrevista do disco e muito mais.

Ele há dias assim. Um gajo recebe em casa uma fornada de discos, por entre um embaraçado pavimento de destroços musicais, que mais se parecem com uma amalgama sonora saída de um acidentado lagar onde se pisa chão sem uva. E por entre essa vindima um sinistrado entra pelo leitor de cd’s e tudo começa a fazer sentido. Os vidros estilhaçados são os vidros estilhaçados, o ferro retorcido à laia de peneiras art-deco, é apenas ferro retorcido e os Paco Hunter são apenas os Paco Hunter.

 Embaixadores da boa vontade e de uma sublime paródia a uma cultura americana importada, para desintoxicar a atmosfera, de uma certa fuligem repetitiva que vai aos poucos poluindo a música portuguesa.

O disco em questão é “No 1 in Acapulco”, primeiro trabalho em conjunto para os irmãos pimenta, músicos rodados em diversos projectos da Meifumado. Descrevê-lo é um tiro no escuro, ouvi-lo é um tiro certeiro!

 “No 1 in Acapulco” é um atalho da música contemporânea portuguesa de que todos ouviram falar, mas que apenas os irmãos pimenta tiveram coragem de tomar.

É uma baforada na cigarrilha do negro que canta a os Blues molhados do Delta do Mississípi, uma golada da promiscuidade do sorriso de Jobim com músicas a caírem da sonolência de uns harpejos de uns Led Zeppelin finalmente iluminados pela simplicidade da composição musical.

 Falaram-nos disto tudo, explicaram-nos que tomam banho e que preferem esta sopa de influências a uma sopa de nabos, por entre uma correcção ortográfica. Os Paco Hunter vieram para ficar.

O que é que vocês estavam a fazer quando foram apanhados na foto que faz capa do disco?

Paulo Zé Pimenta (PZP): Eu  estava a tomar banho quando, de repente, o Zé Nando entra de rompante no quarto-de-banho, abre a porta do chuveiro e diz: “vamos tirar uma fotografia para o Pepelectro!”. E sem que eu pudesse fazer nada ele tirou a fotografia. Isto foi em 2003 ou assim, estávamos a fazer umas músicas electrónicas em conjunto e ele lembrou-se desse nome (Pepelectro) que eu depois viria a usar mais tarde num disco que editei em 2004: “Pplectro – Running Themes”. Mas acho que esse momento representou a primeira ameaça a um disco que iríamos fazer em conjunto mais tarde, por isso, quando começamos a desenvolver o Paco hunter lembrei-me logo de usar essa fotografia como parte da capa. E assim foi, pedimos a um grande amigo nosso, o Dieter Wiechman, para fazer a capa. Mandei-lhe a foto e o resultado está à vista…

Acham que a capa transcreve de alguma forma o conteúdo do disco?

PZP – É uma grande capa! Adorámos o resultado. Pensámos logo que representava fielmente o “feeling” do disco. Sem complexos, no limite do irrisório, simples, mas com muitos pormenores por descobrir. Acho que a mensagem da capa é apenas entendida totalmente quando se ouve o disco que está lá dentro.

As críticas ao disco têm sido muito boas, como têm reagido a isso? Estavam à espera?

PZP – Acho que quando alguém faz um disco e no final está contente com o resultado, espera sempre que o feedback seja positivo, quer por parte dos amigos ou por parte da imprensa. Claro que nunca se sabe, estando alguém envolvido num projecto, como vai ser a reacção do “ouvinte” do exterior. Mas acho que a maioria das pessoas percebeu o sentido do disco e gostou do que ouviu. E é claro que ficamos contentes por isso.

Antes do primeiro tema que compuseram, “Boca raton”, já pensavam num projecto como este?

PZP – Já pensávamos em fazer um projecto juntos, já tínhamos feito algumas músicas juntos, e ambos participamos na Zany Dislexic Band. Mas sim, tínhamos em mente fazer uma coisa mais “popish”, com letras e guitarradas. Mas nunca imaginamos fazer algo como o Paco Hunter. Acho que era impossível planear um disco destes em que as músicas vão dando forma a algo que está preso no subconsciente.

Desde a capa até  á composição das músicas que deixam transparecer uma certa despreocupação, até que ponto isso é propositado?

PZP – Se algo é feito despreocupadamente nunca pode ser propositado. Mas podemos dizer que a atitude despreocupada tomou conta dos processos musicais. As músicas eram feitas na base da improvisação e da inspiração do momento. Mesmo as músicas que já tinham uma base construída, letras que eu tinha na cabeça ou grooves construídos pelo Zé Nando, elas foram complementadas através de overdubs feitos na hora e no final do dia já tínhamos meia dúzia de músicas concluídas.

Existe uma sopa de influências nas vossas músicas, com qual delas se identificam mais?

PZP – Acho que nos identificamos mais com o conjunto das músicas e não com esta ou aquela. Gostamos mais de comer exactamente uma sopa de influências, com vários ingredientes à mistura, do que uma sopa de nabos.

Vocês conseguem ter mais diversidade cultural em 20 temas, que a Reader Digest em 20 edições, estão a fazer-lhes concorrência?

PZP – Essa é das tais interpretações que nos levam a crer que as pessoas perceberam a nossa mensagem. A música dá essa possibilidade de pensar a cultura como algo que não é estático e definido à partida.

Como é cantarem sobre lugares que nunca visitaram?

PZP – Na minha opinião é bastante libertador.

Como têm funcionado o vosso som em palco, difere muito do trabalho de estúdio?

PZP – O propósito de formar uma banda Paco Hunter era de reproduzir o que está no disco, por isso, temos 3 guitarras em palco, por exemplo. Mas nunca é possível igualar exactamente o que se passou em estúdio. Torna-se uma coisa diferente, com outro tipo de energia. O bailarico toma forma e as interpretações musicais diferem de ambiente para ambiente. Mas sim, o elemento agregador dos ensaios e das performances ao vivo são as músicas que estão no disco.

Os Paco Hunter são um projecto que veio para ficar, ou é apenas uma folga dos outros projectos que têm para a editora Meifumado?

PZP – a editora chama-se Meifumado e não Meiofumado. Infelizmente a maior parte das pessoas acha que se escreve com o “o” no meio. O nome não tem a ver com o facto de um gajo estar meio-fumado, mas sim com um conceito de inferno presente na cultura japonesa que o Zé Nando descobriu através da leitura de uma banda desenhada Manga (Lone Wolf and Cub) em que o herói da saga percorre o caminho de Meifumado num estado de espírito meio humano, meio demónio.

Passando à frente, Paco Hunter é um projecto que veio para ficar. Já temos outras músicas feitas, e mais virão, para dar forma a um segundo álbum. Nunca vimos isto como uma folga dos outros projectos em que estamos envolvidos, apenas gostamos de experimentar coisas novas na música. É esse espírito que define muito do que fazemos na Meifumado.



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