PARADIES: “LOVE”, “FAITH” and “HOPE”

“Paradies”: “Love”, “Faith” and “Hope”

Cruel fanatismo ao amor-próprio

Todos os cinéfilos que têm acompanhado o trabalho do realizador austríaco Ulrich Siedl sabem a reputação que o persegue no que toca a retratar o desagradável lado da humanidade na sua falta de amor-próprio. Como tal, estarão à espera que cada um dos seus filmes seja mais uma desconfortável viagem. Aos sessenta anos de idade, Ulrich Seidl completa a sua trilogia de filmes inspirados no texto dramático de Odon Von Horvath’s “Faith”, “Hope” and “Charity”.

Recorrendo ao seu habitual método de minimalistas movimentos de câmara, imagens enquadradas de forma precisa, o resultado é inigualável. Grande parte deste trabalho é conseguido graças ao excelente trabalho dos cinematógrafos Wolfgang Thaler e Ed Lachman. Um lado bastante curioso do trabalho do realizador é a insistência em manter um ponto de vista documental nas cenas fictícias que instiga.

Os filmes têm actores e não actores improvisando cenas sem um argumento exacto, enquanto que a filmagem é feita em espaços reais e por ordem cronológica. O resultado é uma experiência verdadeiramente autêntica. Aqui, quando tudo for dito e feito, apesar de algumas situações ridículas e extravagantes, o público irá deparar-se com interpretações milagrosamente desinibidas.

Algumas cenas são fisicamente difíceis, com questões de valores a serem colocadas. Estes longos momentos tornam-se hilariantes e fascinantes, ainda que se consiga sentir o perigo real. É bastante surpreendente como o cineasta consegue levar não actores a deixarem o seu corpo e alma expostos daquela forma.

A trilogia começa com “Paradies: Love”, uma ambiciosa desconstrução da imagem da ideia de fuga exótica, retirando-lhe toda a pretensão e glamour. A forma como o realizador decide abordar este tema é tudo menos subtil ou concisa. Há aqui uma exploração dos actos e o arrastamento das consequências. É preciso tempo para que a acção se desenrole e atinja o cerne da questão.

A dinâmica de pobreza, da alienação e as diferentes psicologias e modos de exploração tornam-se gradualmente aparentes. Ainda assim, não é clara a definição do que está a ser explorado. É desconcertante pensar que o exótico para uns é a flacidez e a obesidade mórbida de outros. As mulheres que surgem no filme nunca conseguiram nada do que queriam e, agora que têm a oportunidade de o fazer, não sabem como fazê-lo graciosamente ou com simpatia. Não há dúvida de que o filme se submerge na humilhação em vez de a insinuar.

Em “Paradies: Faith”, o realizador parece voltar a empurrar as convenções, tornando este filme numa absurda comédia, ainda que consiga deixar muitos espectadores com um nó no estômago. Maria Hofstatter derrete-se completamente no papel, fornecendo uma consistente base para toda a acção. O mesmo se poderá dizer dos secundários Nabil Saleh que, não sendo paraplégico, consegue ser convincente, Rene Rupnik no papel do obsesso órfão e Natalija Baranova, uma prostituta bêbada e sem remorsos.

PARADIES:“FAITH”

Escusado será dizer que nenhumas destas personagens encontra o “Paraíso”. Assim como a imagem pervertida do primeiro filme desta trilogia, este segundo oferece um profundo e complexo panorama face à condição humana que a sátira de Siedl nem ousa explorar.

“Paradies: Hope” é uma dura e desconfortável viagem que, de forma constante, aprisiona os espectadores no seu sufocante enquadramento. O filme combina a composição claustrofóbica de um noir escandinavo com o drollness minimalista de uma qualquer comédia do Leste Europeu.

O realizador consegue ser consistente no caminho que quer dar à sua história, independentemente da natureza extrema do ambiente e ignorando as normas sociais que poderiam levantar problemas. Exemplo disso é o facto de o médico nunca ser demonizado ou a questão da idade nunca ser abordada.

PARADIES:“HOPE”

Ulrich Siedl atacou a indústria do sexo com o primeiro filme, tentou colocar a olho nu o fanatismo religioso no segundo e quis combater a obesidade juvenil no último. Trazendo a cada segmento da trilogia a atenção ao detalhe de um documentarista, o realizador desenvolveu três anátemas à sociedade moderna, enquanto lhes dá um murro no estômago.



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