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Pedro Benvindo

Agora os piratas e princesas, passarinhos com coroas, raposas, lobos e foguetões chegaram em força com Eat You Alive, um projecto que nos traz o imaginário até a realidade sem barreiras de gerações, sem formatos pré-definidos, sem restrições. Dá mais força ao imaginário dos mais novos e mostra aos mais velhos que ainda podem continuar a querer no quarto uma parede com uma paisagem espacial. E a culpa disto é do Pedro, um miúdo que divide a sua vida entre a animação, a ilustração e aventuras na sua Bedford de 88

Aos 11 anos começou por explorar as paredes lá de casa, anos mais tarde estava na Faculdade de Belas Artes a tirar Arte e Multimédia, hoje em dia divide o seu horário de trabalho entre animações para a Watermelon e para a nova série de desenhos animados infantis “Nutri Ventures”. Agora quer comer-nos vivos com a recriação do seu projecto “Eat You Alive”. Diz ele que tem como objectivo “espalhar alguma cor, tentar inspirar alguém e divertir-me”.

Nós divertimo-nos de certeza! Uma mistura de histórias fantásticas, cores, aventura e aquele cheiro a brincadeira que nos deixa sempre com saudades de controlar o tempo. Enquanto o coração do Pedro Benvindo se divide entre animação e ilustração, o nosso divide-se entre o trabalho dele. Um trabalho que até agora foi muito pessoal e só o via quem tivesse a sorte de passar nas mesmas ruas onde antes tinham passado as suas “benvindas” latas.

Entretanto, o Pedro veio até à Rua onde ficámos a saber na primeira pessoa detalhes sobre o seu trabalho e depois disso podemos ir à 3ª edição da Feira da Almas, dia 27 de Outubro (Sábado) das 11h00 às 19h00, onde vai expor novamente.

O que é exactamente o projecto “Eat You Alive”? De onde surgiu esse nome?

A Eat You Alive é um projecto que mostra os meus trabalhos de ilustração nos mais variados formatos. Acaba por ser uma extensão do meu trabalho, quer street art, quer do meu trabalho como animador/ilustrador a full time.

É um projecto relaxado com várias vertentes, como a ilustração de quartos de crianças, jardins, empresas, animação de festas de aniversário dos mais novos, postais, t-shirts, ilustrações de pequeno e grande formato! No fundo trata-se de tentar expor o meu trabalho de ilustração, inspirar quem quiser ser inspirado e espalhar alguma cor, que os dias que correm estão cada vez mais cinzentos!

Em relação ao nome, acaba também ele por ser uma extensão do meu trabalho nas ruas.

 

Achas que o facto de teres “começado” pelas paredes lá de casa de alguma forma incentiva aquilo que fazes hoje em dia ou o teu projecto pessoal?

O graffiti ou o gosto pelo graffiti afectou completamente o rumo que a minha vida seguiu. Parece uma perspectiva romântica, eu sei, mas é verdade. Principalmente porque entrou na minha vida quando era muito novo. Quando ainda não tinha autorização sequer para sair de casa à noite, ou não tinha qualquer dinheiro para comprar latas! Mas foi um vício desde o primeiro momento. Comecei por pintar as minhas varandas, depois as arrecadações de familiares, depois os terraços, depois repintar as varandas uma e outra e outra vez! Desta forma conseguia os restos das latas para pintar na rua. À luz do dia claro, nos intervalos dos almoços, ou logo de manhã a caminho da escola.

Penso que quando algo assim entra tão cedo na tua vida, pode acabar por ter consequências a longo-prazo, sejam elas boas ou más. O problema é que quando és tão novo, simplesmente não sabes muito bem o que andas a fazer, acabas por andar a pintar paredes a torto e a direito, sejam casas particulares, monumentos, carrinhas, etc, e facilmente ganhas um cadastro para o resto da vida, ou um vício que mais cedo ou mais tarde te vai trazer problemas de certeza. No meu caso influenciou completamente o meu rumo académico. Fui ganhando o gosto pelo desenho como consequência dos sketchs constantes para os meus “ataques”. Fez com que as minhas notas dentro da área fossem melhores, em muito por causa de um professor de educação visual que me incentivou sempre e nunca desvalorizou a “arte do graffiti”, e isso deu-me uma motivação extra. Do 7º ano até à faculdade de Belas Artes nunca mais vacilei na área em que queria trabalhar. Ajudou sem dúvida a definir a minha área profisisonal e a desenvolver o gosto pela arte em geral e portanto, sim, passados 13 anos, incentivou também a Eat You Alive sem dúvida!

Aos 15 anos foste detido por andares a pintar as ruas. Foi o “susto” que te fez fazer aquele intervalo no graffitti? Conta-nos como foi e o que é que sentiste

No seguimento do que disse, quando se é tão novo e não se pensa o suficiente no assunto, há muitas hipóteses de a coisa não correr bem. Para mim era só uma parede como as outras, mas a verdade é que era a parede de uma esquadra da policia inaugurada há cerca de 2 semanas na nova (na altura) estação do Monte Abraão. Resumindo, bati um tag na parede da esquadra com cerca de quatro policias a olhar para mim através de um vidro fumado. Escusado será dizer que quando passei pela porta da esquadra tinha companhia à minha espera e correr mostrou-se completamente inútil pois apanharam-me num instante. Foi uma experiência no mínimo interessante. Passei de um puto arrogante a um miudinho humilde em 2 segundos. Acabei por ter sorte. Fui identificado, obrigado a limpar o tag e passadas 4 horas segui o meu caminho.

Não foi o motivo pelo qual deixei de pintar, mas foi sem dúvida aí que me comecei a afastar progressivamente do graffiti até deixar definitivamente de pintar. Nessa altura começaram a aparecer outras coisas igualmente entusiasmantes na minha vida como a música, o que ajudou ao processo.

O que é que fez voltar a pintar depois disso?

Uma ou duas semanas antes de ir estudar animação para a Suíça, um amigo de longa data desafiou-me a pintar uma parede. Uma coisa tranquila, numa fábrica abandonada ou assim, só para matarmos saudades. Ele também não pintava há uns bons anos. Acho que pintámos umas quatro vezes nesse tempo até ir para a Suíça. E a vontade desde então só aumentou. Quando regressei as coisas escalaram progressivamente de forma natural. Das fábricas à IC19 não demorou nada.

Já deixaste o teu tag noutras cidades fora de Portugal? Há alguma em que gostasses de deixar a tua marca?

Na Suíça, precisamente. Não resisti e continuei a alimentar o bichinho enquanto lá estive. De resto sinceramente não tenho especial interesse em pintar fora de Portugal ou em algum sítio especifico. Dá-me mais gozo passar por cerca de 30 peças minhas a caminho do trabalho do que propriamente ter uma ou duas em Londres ou Nova Iorque.

O que é que te inspira?

Quase tudo te inspira, quer queiras quer não. A música inspira-te, outros artistas inspiram-te, a animação, livros infantis, a família, a namorada, os amigos, o surf, a crise, sei lá.

Ainda assim houve dois momentos especiais que me inspiraram particularmente: uma vez num restaurante no centro de Lisboa ver uma das folhas de mesa exposta na parede, com um desenho feito por uma criança a imitar as minhas peças e quando vi um miúdo na praia de Carcavelos super entretido a desenhar por cima de uma das minhas peças com uma cana. Os miúdos inspiram-me, I guess….

Há algum ilustrador com quem gostasses de desenvolver um projecto? Porquê?

João Mil-Homens. É um excelente ilustrador e é daquelas pessoas com quem quero definitivamente trabalhar no futuro.

Dentro do nosso panorama da street art, com o Dalaiama possivelmente. Apesar de termos estilos completamente diferentes penso que uma peça conjunta poderia ser bastante interessante.

 

 

Talvez o teu trabalho como ilustrador tenha sido um pouco “reservado”, tanto que nunca o tinhas exposto como na Feira das Almas. O que te fez querer participar? Incentivou-te a continuar a explorar e a divulgar cada vez mais o teu projecto pessoal?

Sim, eu sempre vi a ilustração como algo pessoal, algo que fazia para mim e para mim apenas, pelo menos até dar inicio à Eat You Alive. A partir daí começou a haver a necessidade de expor e divulgar o projecto e foi aí que entrou a feira das almas.

A verdade é que foi algo inconsciente mas ao expor a Eat You Alive estava-me a expor a mim e a grande parte do trabalho que estava em casa a ganhar pó há anos. É engraçado pensar que de certa forma até perdi algum do controlo. Criei a Eat You Alive e as necessidades desse projecto estão a criar um Pedro muito mais virado para a ilustração. Neste momento estou a produzir vinte vezes mais ilustração do que produzia antes.

Neste momento é a Eat You Alive que está a puxar por mim e a fazer com que ilustre de forma regular, coisa que nunca aconteceu. Esta postura mais activa começou principalmente após a minha primeira participação na feira das almas e está de facto a incentivar-me a continuar e a explorar mais este projecto, principalmente porque o feedback também está a ser bastante positivo.

Das 9h às 18h és animador e pode-se dizer que o resto do tempo és ilustrador. Alguma vez de sentiste farto de “bonecada”?

É verdade (risos), eu sou capaz de passar bem mais tempo em contacto com “bonecos” do que a maior parte das crianças.

Antes da Eat You Alive não tinha tanto esse problema, pois só ilustrava mesmo quando tinha vontade (às vezes de seis em seis meses). Agora estou numa fase de adaptação, em que tenho que ilustrar muito mais. Ainda assim quando estou mesmo farto, nem sequer vale a pena pegar nos pincéis, pois nada de bom vai acontecer de certeza. Por isso não, não estou farto da bonecada até porque tenho muitas outras coisas que me equilibram como o surf e a música. Ainda assim não é tão fácil como parece. Os bonecos podem ser tão ou mais desgastantes como outro emprego qualquer.

 

 

Se tivesses de escolher entre a animação e a ilustração, o que escolhias? Porquê?

Bom, as duas coisas não podem ser dissociadas. Para fazer um segundo de animação tradicional tenho de fazer entre 12 a 25 ilustrações. Por isso são dois mundos que andam de mãos dadas.

A animação é sem dúvida mais trabalhoso. Sentes-te um pequeno Deus quando dás vida a uma personagem.

A grande vantagem da ilustração é que não é um processo tão demorado. É algo que podes fazer depois de um dia de trabalho, num par de horas ou num par de dias.

Se me fizessem essa pergunta há seis meses responderia animação sem dúvida, agora é-me muito dificil escolher.

Já tiveste uma curta a passar num Festival da Suíça. Que Festival foi esse e como surgiu tudo isso?

Foi o resultado da minha época de estudos na Suíça. Um dos meus filmes foi seleccionado e passou no Solothurn Film Festival. Quando passou já estava em Portugal, mas deu bastante gozo ver fotos do meu trabalho no “grande ecrã”.

Como classificas o teu estilo?

Penso que o meu trabalho tem uma forte componente infantil, mas gosto de acreditar que não se resume a isso.

Até onde te queres levar profissionalmente?

Essencialmente gostava de ter total controlo e liberdade criativa. De preferência num projecto criado por mim. É dificil ter isso quando se trabalha por conta de outrém. Por isso o principal objectivo por agora é conseguir elevar a qualidade do meu trabalho, não ficar estanque e procurar sempre evoluir em novas direcções e ver até onde isso me leva.



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