“Pensamentos do Dalai Lima” | Jorge Lima

“Pensamentos do Dalai Lima” | Jorge Lima

A filosofia moderna e a sabedoria popular moram aqui

Já não se vêem por aí muitos prefácios que cheguem de peito aberto e pelo na venta, mas ainda assim tão encolhidos que se têm de revelar na contracapa para não gastarem umas das preciosas páginas de interior. “Pensamentos do Dalai Lima” (Abysmo, 2013) – é mesmo assim, não é gralha – é um desses casos, um livro de máximas saídas da imaginação de Jorge Lima que tanto poderiam figurar em T-Shirts e azulejos como em paredes de cidade tomadas por grafitters ou contestatários.

O livro, com um arranjo gráfico – a cargo de Elisabete Gomes/Silva Designers – a viver dentro de um triângulo cromático – branco, preto e verde – que merece distinção, reúne, segundo João Paulo Cotrim – o homem ao leme da editora Abysmo -, «cada livro de todos os géneros num só volume», para além de ter a vantagem dupla de ser «portátil e grandioso».

“Pensamentos do Dalai Lima” | Jorge Lima

De facto, está lá um pouco de tudo: iluminações que parecem saídas de revistas cor de pantera, versículos de inspiração bíblica, propostas e testemunhos de vida, dietas e orações. Mas, também – e sobretudo -, máximas e reflexões sobre um país moribundo, que corre o risco de entrar num coma induzido se não se levantar depressa. Como se lê a certa altura, numa máxima que de certa forma impele ao espírito exportador de cada um, «este país só ainda não foi ao fundo por causa da cortiça.»

Há também máximas sobre empreendedorismo – «quem quer fazer carreira tem de saber vender-se» -, compadres partidários – «há que chamar os boys pelos nomes» -, habitação jovem – «o problema da habitação jovem não é de hoje. Já Jesus viveu até aos 30 anos em casa dos pais» – ou aquecimento global – «os adeptos do aquecimento global pecam por vezes por excesso de gelo» -, tratando sempre de olhar o futuro com a positividade gravada nos olhos e no pensamento: «A vantagem de viver à beira do abismo é que a vista é óptima».

“Pensamentos do Dalai Lima” | Jorge Lima

«Uma palavra basta para mudar o mundo, pelo menos o da banalidade». Esta máxima, que tanto poderia ter saído da boca do Dalai Lama como da caneta de Dalai Lima – por acaso foi a segunda hipótese -, acaba por ser a grande lição a tirar de um livro que, através de frases curtas, faz um retrato do país, do mundo e de nós próprios com um humor embebido em líquido corrosivo.

A filosofia moderna e a sabedoria popular moram aqui. Entre e ponha à prova o seu sentido de humor.



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