Silêncio | Ricardo Ben-Oliel

Silêncio | Ricardo Ben-Oliel

O peso do que não pode ser dito

Curiosa editora escolhida para dar a conhecer ao mundo este pequeno livro de Ricardo Ben-Oliel: Abysmo publica Silêncio. Será coincidência ou, de alguma maneira, ambas as palavras se completam e se fundem, para o leitor, numa misteriosa e possível combinação?

A verdade é que as palavras não dizem tudo. Que o confirme o autor, que dedica o livro ao pai que tanto fez, mas sempre silenciosamente. Este “Silêncio” (Abysmo, 2013) é o resultado de uma compilação de histórias, mais ou menos reais – depende daquilo em que quiser acreditar -, que guiam o leitor por Israel – mas não só, há contos noutros lugares do mundo -, com toda a sua beleza árida de país muito vivido e sofrido, entre personagens de carne e osso que não são heróis ou pessoas-modelo mas simplesmente pessoas.

Ao longo das 12 histórias – todas elas marcadas com um símbolo relacionado com a cultura judaica, uma marca gravada a azul que tanto ódio e fascínio despoletou ao longo dos séculos -, o peso da injustiça, do sofrimento e da velhice, sempre julgados em silêncio, estão em cima dos ombros das personagens que os carregam desde sempre.

Não podemos nunca deixar de ter em mente que esta é uma cultura misteriosa, que não é para turistas, não é para estrangeiros curiosos: tem de se sentir e nascer dentro dela para poder apreciar a sua beleza e o seu mistério. Apesar da recente história mundial nos ter tentado ensinar a não julgar as culturas pela sua aparência o homem, naturalmente preconceituoso e morbidamente curioso, adora pôr o dedo na ferida e continuar para perceber até onde faz sangue, principalmente se for a ferida de outra pessoa…

Que discreta sensação de abismo as histórias nos transmitem: as palavras de Ricardo Ben-Oliel são duras, desenvolvem-se quase como numa poesia tão leve como o ar, tão leve como o silêncio de quem tem muito mais para mostrar do que dizer. Afinal de contas, o que são as nossas palavras ditas mais do que sons efémeros, que se esfumam no céu assim que saídas da nossa boca? Com os gestos, as coisas são diferentes. Virar cada página, apreciar cada sílaba gravada, o som faz eco dentro da nossa cabeça e lá fica. O objectivo do autor é cumprido: o silêncio acarta o enorme peso daquilo que não pode ser dito, e é isso que as palavras, felizmente, ainda nos podem transmitir.



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