“Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno” | Ricardo Araújo Pereira

“Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno” | Ricardo Araújo Pereira

A opinião pública é uma arte

No mundo do futebol, não é raro ouvirem-se coisas como “a selecção sueca é o Ibrahimovic e mais 10 louros”, oferecendo a um único jogador a responsabilidade de levar a equipa sobre os ombros. Os Gato Fedorento, o fenómeno animal que em 2003 começou a dar cartas no universo humorístico nacional, tinham também o seu Ibrahimovic, ainda que menos louro e aparentando um ar mais franzino.

Ricardo Araújo Pereira (RAP), rapaz dos seus 39 anos, tem já um currículo simpático. Licenciado em Comunicação Social, começou a sua carreira como jornalista do Jornal de Letras, exercendo a nobre missão de guionista desde 1998. Tem uma crónica semanal na revista Visão e é um dos membros do programa da TSF Governo Sombra, depois de há um ano ter assinado a rubrica Mixórdia de Temáticas na Rádio Comercial que, em verdade, muito cimentou o seu estatuto de Ibrahimovic da comédia cá do burgo (ok, vamos parar por aqui com as piadas louras). Recebeu também o Grande Prémio da Crónica APE em 2012 por ajudar a transformar o humor nacional num produto de excelência, propenso a uma exportação capaz de aumentar o PIB do felicidário nacional e tirar-nos deste buraco negro.

Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno” (Tinta da China, 2013), livro que reúne os melhores textos de RAP publicados entre 2010 e 2013, é um exemplo tremendo de um sobredotado da comédia, que consegue aliar uma apurada observação do quotidiano a uma escrita de primeira água, fazendo uma crítica social e dos costumes através do humor e da sátira.

Nestes três anos muito aconteceu: Obama recebeu o Prémio Nobel, Portugal assumiu-se como a cauda eterna do bicho chamado Europa, a corrupção tornou-se lugar-comum, Sócrates saltou de escândalo em escândalo como o Tarzan de liana em liana, Cavaco Silva baldou-se ao funeral de Saramago, Paulo Portas comprou submarinos imaginários, as séries policiais tornaram-se amaricadas, Ricardo Araújo Pereira foi capa da Playboy e Miguel Relvas, finalmente, demitiu-se.

RAP fala de tudo isto e de muito mais, numa viagem a este Inferno à beira-mar onde os jornais já não demitem políticos, se começa a preferir o sequestro ao resgate e o respeitinho é muito bonito – pelo menos em relação à Sra. Merkel. Comédia social de primeira água, servida com ilustrações de João Fazenda.



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