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Primavera Sound 2025 | Dia 2 (13.06.2025)

A noite que passamos com Deftones e Beach House

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A segunda noite do Primavera Sound foi feita de estreias esperadas, nomes consagrados e regressos bem acolhidos. 

No que diz respeito à indumentária – e embora um dos cabeças de cartaz voltasse a ser britânico – deixamos de lado o néon e voltamos ao lado “negro” da força. 

Ainda de dia, comecemos por analisar um desses regressos hiperbólicos. Waxahatchee ou, melhor dizendo, Katie Crutchfield, pode não ter sido o motivo que levou a maioria até ao Parque da Cidade nesta sexta-feira 13, mas acabou por conseguir conquistar alguns dos festivaleiros mais matutinos. 

Já não há grunge para ninguém, no entanto. Crutchfield continua com o mesmo magnetismo de outrora, mas agora o que a faz vibrar é o country… ou o folk… ou ambos. Não impressiona e não é suposto. É suposto saber bem e escorregar melhor, com pontuados momentos de euforia campestre em forma de conto, como «Evil Spawn» ou «Right Back to It». Os ouvidos agradecem o embalo e aproveitam o verão americano que se instalou neste Primavera. 

Hora de rumar a outras paragens, mas não a outro continente. Ali no palco Vodafone vimos outro regresso diretamente dos EUA, desta feita dos TV on the Radio. Nem o facto de não lançarem nada de novo há imenso tempo os impede de serem adorados por estas bandas e esse efeito nota-se logo. Continuam a ser os meninos bonitos do indie? Talvez não, mas… Anfiteatro natural composto e temas orelhudos, como «Young Liars», «Wolf Like Me» ou «Province», e está dado o mote para a festa, que teve direito, arriscamo-nos a dizer, à primeira enchente deste segundo dia. Não, não vamos mencionar os discursos políticos anti-Trump desta vez, que já chegou o dia de ontem. Deixamo-nos antes pelos parabéns dados em português ao baterista – que fazia anos – e usamos «Happy Idiot» como destaque antes de sairmos dali, «Staring at the Sun». 

Querem outro continente? Que tal um Michael Kiwanuka à hora de jantar? Também temos – e muito bem acompanhado. O artista até pode ser britânico, mas corre-lhe no sangue o Uganda…e soul. Muito soul. Provavelmente quem o foi espreitar queria ouvir «Cold Little Heart» – a música do genérico de Big Little Lies – mas o magnetismo de Kiwanuka voltou a fazer das suas a norte depois de ter feito magia a sul, no Alive do ano passado. Com a guitarra a vibrar como só ele sabe fazer (recordamos que começou a carreira por aí), o cantor chamou a palco um coro de vozes que transformou o recinto numa espécie de celebração gospel a céu aberto durante um curto set de dez canções. Houve espaço para «Place I Belong», «Father’s Child», «Black Man in a White World» e, sim, «Cold Little Heart», a fechar. E se mais gente não assistiu… «You Ain’t the Problem», Michael. 

Não satisfeitos com esta viagem? Tentemos outro continente e outro “mood” e espreitemos, desta feita, Liniker. Aqui também há soul, mas de samba no pé e língua afiada, que a revolução faz-se com luta, mas também a dançar. Se dúvidas havia quanto à “vibe” que se instalou no Parque da Cidade – e com o quão apropriada seria num festival chamado Primavera Sound – deixamos só aqui o nome do álbum que mais fez vibrar: “Índigo Borboleta Anil”. “Caju”, no entanto, também não se fez de rogado e serviu de alter-ego da artista que tem estado nas bocas do mundo, especialmente entre quem mais aprecia MPB: estamos a falar de uma das figuras mais influentes da música brasileira da contemporaneidade e a primeira artista trans brasileira a levar para casa um Grammy latino. 

“Quando eu alçar o voo mais bonito da minha vida… Quem vai me esperar em casa?”, questiona. O público responde e nós também: soube a pouco, mas haverá nova dose dupla – e a solo – em Lisboa e Porto já em outubro. Não viram? Então está na hora de comprar bilhete. 

Quem não ouviu foi mesmo quem estava a prestar atenção a outro palco ali ao lado… e com razão. Meter Beach House e Liniker quase ao mesmo tempo devia ser proibido. É que é quase impossível ignorar o poder hipnótico de Victoria Legrand e álbuns como “Teen Dream”. As cores do Primavera deram lugar a um escuro confortável, povoado de sonhos dream pop, mas o sonho demorou pouco e não convenceu todos os presentes. Beach House – já bem conhecidos do público português – continuam a sofrer de “problemas de crescimento” e, arriscamos dizer, mereciam um palco mais intimista do tamanho dos seus sonhos. Valha-nos a “Space Song” … 

Mas voltemos a terras de Sua Majestade. O título de cabeça-de-cartaz assim nos obriga, mas confessamos que Central Cee não será bem a nossa praia… Já o tínhamos visto por estas bandas há dois anos, salvo erro, mas desta feita o rapper britânico veio consagrado e rotulado de líder musical. Deixemos, talvez, as grandes dissertações sobre este concerto para quem aprecia o estilo, mas adiantamos que o sucesso tiktokiano de «Doja» continua vivo e é replicado em «Can’t Rush Greatness», que também já soma bastantes êxitos entre os mais jovens. Veremos, certamente, esta cara mais vezes por estas paragens, a julgar pela receção juvenil. 

Nós? Nós preferimos ir, de Super Bock na mão, para o palco do mesmo nome e apreciar Chat Pile. Perdoem-nos, mas gostamos mais de noise rock e, nessas lides, a terra do Tio Sam costuma dar mil a zero a outras geografias. E por falar em Tio Sam e noise… deixamos para último o melhor, claro está. Dez minutos depois de Central Cee ter abandonado o palco Porto, metade deste mundo finalmente ouvia os primeiros acordes da banda que os levou até ao Parque da Cidade: Deftones. 

O curioso é que a banda continua, décadas depois, a reunir novos e velhos fãs. É bonito de se ver. Entre quem conheça as músicas de «White Pony», por exemplo, de cor desde miúdo, há quem ainda há pouco tempo as tenha descoberto, também ainda miúdo. Já passa – e bem! – da meia noite? Não há problema. Amanhã é sábado e as energias repõem-se depois. Agora, é hora de «Be Quiet and Drive (Far Away)». Abrimos logo com essa e seguimos em direção a «My Own Summer (Shove It)», para ninguém ir ao engano. Aguentam uma hora disto? A resposta é sim, sempre sim: se Chino Moreno, do alto dos seus cinquentas consegue, quem somos nós para não acompanhar a loucura frenética? Foi para isto que inventaram o Voltaren! Um mar multi-geracional de tshirts pretas unido a cantar «Change (In the House of Flies)» será, certamente, uma imagem que ficará colada nas retinas de muita gente e nem «Diamond Eyes» escapou a um apuramento sonoro ao vivo. “Ohms”, o álbum mais recente, também não se porta nada mal. Apesar disso, claro que a eterna «Minerva» ou «7 Words», já ambas no encore, mereceram mais entusiasmo… Afinal de contas, o tempo passa – e os anos 90 já vão longe – mas os Deftones perduram, com ou sem êxitos no TikTok.

Leiam aqui as reportagens do primeiro e terceiro dia do festival.



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