“Que horas ela volta?”  ANNA MUYLAERT

Que horas ela volta?

o Brasil segregacionista e a suposta ideia de união nacional

“Que horas ela volta?” é a pergunta que surge logo nos momentos iniciais do filme, pela boca do pequeno Fabinho (Michel Joelsas). Dita à beira de uma piscina, é dirigida à doméstica Val (Regina Casé) e se é uma frase que se aparenta vaga perante o nosso desconhecimento acerca do filme que estamos prestes a assistir,  é na verdade uma frase que encerra desde os primeiros segundos algumas das premissas sérias da narrativa.

Desde já, se a pergunta existe por parte de uma criança para a empregada, está, assim, a dar-nos a conhecer a ausência da mãe, que trabalha fora e deixa o seu pequeno aos cuidados de outra… mãe. Já esta mãe, para estar a cuidar dos filhos de outros, não estará certamente a tratar dos seus próprios. Uma polaridade que se inicia neste momento da narrativa mas que passará a ser uma constante ao longo do filme e que não só está presente nesta perversidade dos laços entre mães e filhos, como também nos laços entre patrões e domésticas, os ricos e os pobres, o Brasil segregacionista e a suposta ideia de união nacional.

Isto porque se inicialmente os laços que unem Val à família pela qual é responsável parecem ser, de facto, familiares, em momento algum vemos esbater-se a barreira da “quase da família”. Val, que apesar de criar dos filhos dos seus patrões como se fossem seus próprios, não deixa por isso de fazer as suas refeições numa mesa separada, dormir no quartos dos fundos e à piscina não mais lhe é permitido chegar do que à beirinha para ouvir o filho da patroa questionar… quando “ela volta”.

O statuos quo desta dinâmica familiar é seriamente abalada com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, que chega do interior de Pernambuco trazendo consigo o sonho de terminar o curso numa região rica do país. São muitos os anos que separaram mãe e filha que quase não mantiveram contacto durante o tempo volvido. Questionadora, esperta e cheia de vida, ela vem desafiar toda a situação pré-estabelecida e acordar questões onde estas nunca haviam visto o nascer do sol.

Com traços claramente caricaturais, Anna Muylaert vai pintando uma série de situações algo burlescas por entre a “patroa” que estabelece as regras e comanda as tropas, a superficialidade da sua relação com o filho – na qual chegamos a observar semelhanças com aquela que tem para com os seus empregados – e o típico chefe de família que, apesar de todas as boas condições financeiras de que se vê rodeado, não deixa por isso de atestar uma trementa debilidade e fragilidade sentimentais. Uma dinâmica entre as personagens que se vê enaltecida, não só pelos ácidos textos de Moylaert, mas também pelo próprio elenco, que demonstra uma tremenda habilidade face a todos os recursos narrativos para contar aquela que tinha tudo para ser uma história aparentemente comum mas que, aos poucos, e através da autenticidade com que nos é relatada, começa a ganhar contornos universais e esmagadores.

Isto porque a entrada de Jéssica na história vem provocar não só um choque de classes e uma densificação da história, como também uma desestabilização da aparente estabilidade da mãe e, sobretudo… da nossa. Se inicialmente nos sentíamos incomodados com os episódios de segregação existente na casa, com a entrada de Jéssica esses elementos começam apenas a tornar-se repetitivos e começa, agora, a enraizar-se em nós um sentimento de pronfunda estranheza face à coragem – que por vezes vamos confundir com insolência – de Jéssica. Mas se esta representa, afinal, a faceta que desafia a arrogância da segregação social, porque a consideramos nós arrogante, a ela?

Enquanto pensam nisto, vão ver o filme. Ao menos disso não se arrependerão.



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