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Road to Nowhere – Sem Destino

Ponto de chegada.

Num ecrã de um computador portátil, aparecem as primeiras imagens de “Road to Nowhere“, de Mitchell Haven: uma mulher bonita, sozinha num quarto, seca o cabelo. A câmara aproxima-se mais e mais, mais e mais, da mulher e do ecrã de computador até que se enfia nele. Penetra dentro do filme. Desde logo, estabelece-se a confusão entre “Road to Nowhere – Sem Destino”, o filme de Monte Hellman, e de “Road to Nowhere”, o filme dentro do filme de Mitchell Haven.

Confusão, essa, que começa com os actores do filme dentro do filme e as personagens que interpretam dentro e fora dele e salta para fora do ecrã: Mitchell Haven não tem idade para ter sido amigo de Warren Oates (de quem cita a frase “beauty is only skin-deep, but ugly goes clean to the bone”, que poderá ser uma das chaves para entender o filme), quem o conheceu e foi seu grande amigo foi Monte Hellman. As semelhanças entre o realizador-real e o realizador-personagem continuam noutros pormenores: ambos não filmavam há muito tempo (Hellman desde “Iguana” de 1988), têm gostos e formas de filmar parecidos.

“Road to Nowhere”, este e o outro, trata de um casal que terá roubado não-sei-quantos dólares e fingido a própria morte, uma história de polícia e de seguros que é difícil de seguir e pouco importa, no fulcro está a actriz por quem o realizador se obceca, uma actriz que é e não é a sua personagem, a tal que morreu e não morreu, Shannyn Sossamon é absolutamente radiante no duplo papel de Laurel Graham (a actriz) e Vilma Duran (a vigarista), moldável (“don’t act”) e manipuladora, uma femme fatale morena para os tempos que correm, e, como tal, a perdição do protagonista. É complicado não dar razão aos que vêem pontos de contacto com a Judy/Madeleine/Carlotta Valdés de “A Mulher que Viveu Duas Vezes” de Alfred Hitchcock. Se bem que aqui não haja mudança de visual, é tudo mais subterrâneo (“beauty is only skin-deep, but ugly goes clean to the bone”).

É tudo mais subterrâneo. Se a história lembra a que se conseguia apanhar de “Mulholland Dr.”, de David Lynch — os filmes, Hollywood, o realizador, a actriz, uma Máfia que tenta controlar o filme—, “Road to Nowhere” aparenta uma linearidade que acaba por ser mais perversa do que a “estranheza” de Lynch, pois esconde negrumes que o outro expunha e expandia, é, nessa ordem, mais asfixiante e mais críptico.

Faltam-me referir o agente de seguros e a jornalista sulistas e dengosos, que andam atrás da história que interessa menos, as filmagens que tomam a maior parte do tempo de “Road to Nowhere” — repetem-se takes, o realizador e o argumentista zangam-se, o actor principal enfastia-se e os magníficos olhos da (não-)actriz Laurel Graham conquistam quem os vê —, a ideia da câmara de filmar como arma e o esquecimento de uma personagem da sua actriz (ou vice-versa).

“Road to Nowhere” é daqueles filmes que reflexivamente parecem melhores. Saí da sala de cinema pouco convencido, mas sempre que penso nele (e mais ainda, quando escrevo sobre ele) gosto mais um bocadinho do filme. Ia escrever que apreciava sobretudo as primeiras imagens, quando ainda nada se sabe, nem quem são aquelas pessoas, e em que. por isso, as acções são inexplicáveis, e a sofisticação de Hellman (que odeia explicações desnecessárias) é exemplificada e tudo (os cortes, os planos) é límpido e perfeito. No entanto, o final, perfeitamente cinematográfico, faz adivinhar que se está perante um filme dentro de um filme dentro de um filme, numa mise en abyme cada vez mais vertiginosa. E entre o princípio e o fim fica a perturbação.

(Esta crítica está, ela mesma, uma confusão. O que não foi propositado, saiu assim.)



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