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Tristeza e alegria na vida das Girafas

Onde está Pedro Passos Coelho?

Alguma coisa me deliciava ao ver as pessoas procurarem o seu lugar, sentarem-se, conversarem, enquanto havia pessoas que estavam em cima do palco a olhá-las, e a mexerem-se naturalmente sem ninguém reparar nelas.

O espectáculo só começa quando as luzes da plateia se apagam?

As luzes apagaram-se e o silêncio instalou-se. Carla Galvão surpreendeu desde o início, o tom certo, no momento certo, e jamais falhou até ao fim da peça. Na personagem de menina “Girafa”, de nove anos, consegue o equilíbrio perfeito entre a imaginação de uma criança e a cabeça de um adulto. Carla brinca com a dramaturgia como se fosse um brinquedo de uma criança, consegue uma naturalidade e uma verdade fabulosa. As pausas, as tensões do corpo, a contra-cena, a energia necessária, tudo pareceu perfeito.

Foi a mãe que deu à menina a alcunha de Girafa; no início da peça a mãe aparece em fotografia, quando tinha nove anos também. Mais à frente, este fantasma surpreende ao entrar em palco e tocar violino com uma doçura que só as crianças conseguem ter.

Girafa tem que fazer um trabalho para a escola sobre girafas e para isso precisa do Discovery Channel. O problema é que o pai não tem dinheiro para pagar a televisão. Então ela vai fazer tudo, mas mesmo tudo, para conseguir este canal de televisão. Até vai tentar falar com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, para lhe pedir ajuda; é que disseram-lhe que era o único que a podia ajudar.

O pai de Girafa, Miguel Borges, dá-nos o que mais gostamos, a capacidade de mudança de foco extraordinariamente fantástica, que faz arrepiar tanto pela rapidez como pela precisão perfeita que consegue. Faz jogos de representação entre a sua personagem e a da mãe que já não está viva. Consegue transmitir com o corpo o prazer de brincar com o teatro e isso sabe bem ao público. Miguel Borges fez-me ter noção que a amplificação do som às vezes compensa, (apesar do desagradável que é estar a ver a pessoa num sítio e sentir o som a vir num outro sentido, quase como se fosse playback), tanto pelo controlo da respiração, como pelo som da energia que consegue explodir, fazendo lembrar um dragão, por tanta força que tem aquele som pequenino e super rápido, que dá sonoridade à cena, colorindo-a.

Tónan Quito consegue passar a peça inteira (2h15) com um fato de urso de peluche. Um urso especial, não só pelo nome, “Judy Garland”, nem porque, na peça, apenas a Girafa o ouve, nem porque quer morrer e não consegue, mas também porque diz tantas mas tantas mas mesmo tantas asneiras e sempre no registo certo. Não leva à exaustão ao ponto de perder a piada, nem deixa cair na saturação e enjar. E por isso mesmo, durante a peça, o público não aguentava não reagir, rindo à gargalhada muitas vezes. Por vezes o assunto era tão idêntico ao real que compreendia-se que o público ficasse sem saber como reagir. Judy Garland é muito sincero e directo. E se por um lado tem piada em palco, a verdade é que na vida real tem outro peso.

Pedro Gil, como todos os outros actores, sentia-se que brincava e se divertia enquanto representava, rodando entre personagens. É um gozo para o espectador, quando pensa em algo que lhe apetece ouvir ou ver em palco, mas que duvida da coragem do actor ou do dramaturgo, e no momento logo a seguir, isso acontece. O conseguir espantar o espectador, e não só a nível da dramaturgia mas também do corpo e da intenção.

A peça é acompanhada por dois músicos que estão sempre em palco, até eles no registo certo. A sonoridade da peça é bastante engraçada porque há jogos de som entre o Miguel e o Pedro; um representa, enquanto o outro dá som e vice-versa. Perto dos músicos está um ecrã pequeno onde acontecem vários jogos com imagens, do percurso que a Girafa faz, com o seu urso de peluche preferido, pelas ruas de Lisboa, antes e depois de se perder.

Sente-se que o método de trabalho não é o básico, o normal. Enquanto via os actores, quase que conseguia visualizar os ensaios, as improvisações que provavelmente fizeram até chegar ali. Como se sentisse que realmente cada palavra e cada movimento fossem puros dentro deles, como deveria ser em todos os actores profissionais. E isso fez-me sentir uma espectadora especial, como se estes actores me dessem realmente tudo o que podiam.

Provavelmente este sentimento deve-se à encenação, que mantém os actores sempre em cima de palco. E os torna mais sinceros. Eles assumem quando estão a representar e quando não estão também. É um teatro verdadeiro, com uma dramaturgia que agrada, é mais divertida, mais autêntica. Acredito que é este género, seja ele qual for, de teatro que vai atrair mais público a ir ao teatro. Tem uma capacidade de comunicação muito mais directa, limpa, simples, mas eficaz. É uma peça que comunica, provoca sensações, boas e más. Que compensa a ida ao teatro, mesmo a pé em dia de greve. Tiago Rodrigues, o criador do texto e da encenação, está completamente de parabéns, por tudo, mas principalmente pela escolha do elenco.

Em cena na Culturgest, até 26 de Novembro.



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