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Sean Riley & The Slowriders

Only Time Will Tell.

Sean Riley and The Slowriders é um colectivo que se divide entre Coimbra e Leiria. Sean Riley é Afonso e dá a voz, depois existem mais uns sons dispersos, uma guitarra acústica, mais três amigos que a ele se juntam para brindar as raízes da música. A RDB esteve com eles para uma agradável conversa, um dia depois do concerto de abertura no palco dois do Festival Paredes De Coura. Falaram, entre outros assuntos, da recepção do público, desde a apresentação do single no Lux, em Lisboa, até ao concerto de abertura em PDC, dos convidados do disco e do sonho americano que esteve quase a tornar-se realidade.

Não é relevante ao que soam a sinceridade e entrega ou, nalguns, o que se conserva suavemente na memória. “As pessoas têm de encontrar sempre pontos de referência para se sentirem enquadradas. Acho, de facto, que há um universo musical que deriva de tudo aquilo que gostamos, desde a música, ao cinema  ou literatura. Toca numa série de criadores e situações que surgiram e viveram no contexto norte-americano numa determinada altura”, refere Afonso (Sean Riley) a respeito da apelidação folk ou às parecenças que alguns detectam com Bob Dylan ou Tom Waits. “Passo a presunção, acho que 80% dos jornalistas que escrevem essas coisas, não devem conhecer tão bem Bob Dylan como eu e se eles me conseguirem demonstrar onde é que estão as grandes influências de Bob Dylan eu ficava extremamente agradecido“, acrescenta. “Por acaso é algo que não compreendo, mas respeito. No primeiro disco, que era um pouco mais acústico, talvez fizesse algum sentido, mas agora, sinceramente, acho que não” refere Bruno Simões. Afonso afirma, “nunca vou deixar de gostar de Bob Dylan. O Dylan foi de facto um grande songwriter e eu nunca vou negá-lo como inspiração. Acho-o um génio e adoro a música dele, mas em relação a estarmos à procura de algo semelhante a ele considero que seria já um pouco forçado”.

“São analogias, umas fazem mais sentido que outras, mas confesso que acho um pouco estranho, porque embora tenhamos influências distintas e no caso de Tom Waits seja algo que todos ouvimos, não acho de forma alguma que nos tentemos sequer assemelhar a essas sonoridades“ reforça Filipe Costa. E, de facto, atentando o percurso destes rapazes, há como que uma fidelidade consciente naquilo que fazem.

Se o movimento folk, a que alguns os associam, patenteou num período concreto uma onda de contestação algo fundamentalista que quase não permitia o desvio à imaculada tradição acústica da América do Norte e que chegou a vaiar o, então, mentor do movimento Dylan por se ter apresentado com uma guitarra eléctrica num Festival em 65, o rock que estes jovens idealizam e nos mostram potencia ímpetos bem diferentes, mas complementares, que vão do frémito contagiante de «Buffalo Turnpike» à introspecção de «Moving On» ou até de «Houses and Wives».

Brindam-nos com um propósito e honestidade invulgarmente trepidantes. Sean Riley, com a voz e guitarra, glosa os outros três que o acompanham. Os Slowriders são agora três, com a recente entrada de Filipe Rocha (contrabaixo, bateria) na tribo rock, Bruno Simões (oscila entre o baixo e os acordes mais sintetizados) e Filipe Costa, exímio multi-instrumentista (que vai variando, ora entre teclas variadas, ora num bombo, tarola, pratos de choque e, até, harmónica). Afonso brinca quando lhe falamos dessa curiosidade que praticamente todos têm no que concerne a tocar vários instrumentos. “Neste momento acho que o Filipe [Costa] gravou quase todos os instrumentos, o Filipe Rocha toca-os todos, eu toco mal uma data de instrumentos [risos]“, atira. E continua: “Acho que é uma coisa que também nos dá algum prazer, o facto de ir rodando. Sabes que é uma coisa positiva quando pegas num instrumento e o manuseias e exploras de uma forma diferente; tens uma abordagem e arranjos diferentes que não aconteceriam se estivesses com o teu instrumento habitual. E isso é positivo e enriquecedor”, esclarece.

Falo-lhes do sonho americano, que afinal não terá sido bem um sonho, pois esteve quase a concretizar-se e só não surtiria as vontades iniciais devido, mais uma vez, à reflexão consciente de todos. Afonso explica: “a nível da produção, quando gravámos o primeiro álbum, tínhamos tido um contacto com o Nélson Carvalho. Gravámos o «Moving on» e o «Lights Out» com ele e gostámos bastante da experiência. Quando começámos a ponderar produtores para o segundo álbum, vários nomes vieram à baila, inclusivamente chegámos a ter contactos lá fora, mas concluímos, à posteriori, que indo para os E.U.A. não tínhamos hipótese de fazer o disco que queríamos, já que envolvia custos… Os recursos que teríamos para gravar nos E.U.A. não iam ser os mesmos que tivemos aqui. Seria um orçamento gigantesco que se tornaria incomportável e, então, a segunda hipótese lógica foi o Nélson que, para além de ser uma pessoa que já conhecíamos, sabíamos que poderia engrandecer o som da forma que ambicionávamos para este álbum”.

Filipe Rocha é o novo Slowrider da banda e junta-se a nós perto do fim da tertúlia. Para além de novo baterista, toca também contrabaixo e já conta no seu trajecto musical com vários projectos de tendências, todas elas variadas. Talvez por isso, quando questionado acerca das suas influências, diga que “é uma pergunta complicada“. FR começou a tocar muito novo e a variação de instrumentos que tocou, bem como dos diversos estilos musicais inseridos em projectos que abraçou, trouxeram-lhe essa polivalência instrumental que, coincidentemente, veio encontrar nos actuais colegas de grupo.

O músico que é parte da banda de João Afonso já se envolveu em projectos de derivas diferenciadas que vão da música cabo verdiana ao drum´n ´bass, sem esquecer, logicamente, o rock. Diz estar muito satisfeito por ter entrado neste último disco e de encontrar essa multiplicidade coincidente nos companheiros. “Como só entrei neste disco e os papéis de alguma maneira já estavam um bocado definidos, o Afonso ia-nos dizendo as músicas e nós tocando naturalmente da forma que achássemos conveniente pois, apesar de tocarmos vários instrumentos, não tocamos os mesmos instrumentos. Eu, por exemplo, sou o único a tocar contrabaixo. O próprio Afonso por vezes sente necessidade dum instrumento ou outro e vai perguntando o que é que achamos. E vamos contribuindo, exactamente deste modo, para a música específica”.

As letras de Sean Riley são singulares e pessoais, mas assumem o papel de todos os que nelas se encaixam e no dia um do Festival de Paredes de Coura deste ano foi essa apropriação colectiva que veio à tona. Os que assistiam aplaudiam e entoavam. “Estávamos particularmente bem uns com os outros, muito também pelo que estava a acontecer fora do palco, bem ali à nossa frente, pois parecia-me que as pessoas estavam a divertir-se“, refere Filipe Costa satisfeito.

Deste novo trabalho fazem ainda parte convidados “que vieram dar cor”, segundo Filipe Rocha,”às músicas em que participam”. É o caso de Paulo Furtado (Wraygunn e Legendary Tigerman), Filipa Cortesão (outrora violinista de Belle Chase Hotel) e Pedro Vidal (Jorge Palma e Blind Zero).

“É um prazer tê-los como convidados” diz Filipe Rocha. Já para Afonso “foi tudo um bocado lógico, como tu sabes são pessoas nossas amigas que acompanharam o processo da banda e com quem fomos desenvolvendo e estabelecendo relações cada vez mais próximas. Repara o Paulo Furtado, por exemplo. Está connosco desde o primeiro concerto que demos e teve para ser produtor do nosso primeiro disco. O Vidal foi uma pessoa que conhecemos através de uma banda sonora que eu e o Bruno [Simões] gravámos para um filme do Rodrigo Areias, portanto são tudo pessoas que nos são muito próximas, ao contrário do primeiro disco em que optámos por não ter convidados, porque não queríamos a intromissão de ninguém no nosso espaço. No início era importante fazermos as coisas sozinhos, de modo a podermos estar os três [na altura o Filipe Rocha ainda não tinha entrado para o grupo] na estrada a tocar. Agora com este álbum pudemo-nos dar ao luxo de convidar alguns amigos para preencher alguns espaços, onde tínhamos uma vaga ideia daquilo que queríamos e acho que isso é uma experiência óptima”.

E as experiências optimizam-se a cada disco e a cada novo passo. A pé ou no carro que os conduz em «Houses and Wives» as ideias e palavras podem levá-los numa viagem para onde eles mesmos quiserem.



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