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Re-Made in Portugal 2009

A Um Passo do Sonho.

“A Um Passo do Sonho” é o mote da terceira edição do Re-Made in Portugal, evento que reúne artistas e criadores nacionais à volta de um debate sobre ecologia e sustentabilidade. Patente no Museu da Electricidade em Lisboa até dia 13 de Setembro, a exposição deste ano divide-se em seis grandes momentos que se ligam entre si formando uma unidade lógica conceptual. Esta distribuição é marcada pela presença dos artistas plásticos Xana, Nuno Cera, Pedro Valdez Cardoso e Joana Vasconcelos, que se juntam nesta edição aos habituais designers e arquitectos e aos vencedores do Concuso “Novos Talentos” da Caixa Geral de Depósitos.

A cerca de três dezenas de artistas portugueses foi pedido que pensassem obras constituídas por, pelo menos, 50% de material reciclado. Este aspecto prático alia-se ao propósito de criar momentos de reflexão crítica sobre uma sociedade em processo de imersão na sua própria sede de consumo.

Arte x 6

Numa ode ao desperdício alimentar do nosso tempo e à produção massificada e estandardizada, o artista plástico Xana introduz-nos ao certame, ainda no exterior do Museu, com o seu “Arco do Triunfo” (na foto). Uma crítica à vitória do capitalismo selvagem que se desenha por mais de um milhar de caixas de transporte de fruta com cores provocantes como a própria ideia fundadora.

Já no interior do recinto, num LCD de 46 polegadas, Nuno Cera lança-nos o seu “Alerta” onde, durante cerca de 2 minutos, é apresentada uma sucessão de imagens chocantes pela sua veracidade – recicladas, entre outras fontes, dos arquivos da RTP. Sem balizas temporais definidas, este loop de momentos dramáticos e algo poéticos confronta-nos com uma realidade catastrófica, sendo a conjugação do som e da imagem o veículo perfeito para captar os nossos sentidos e conduzir-nos à reflexão.

Roberto Cremascoli, director artístico da iniciativa, pensou o espaço seguinte da exposição, o “Labirinto Re-Made”, como “um percurso onde crianças se pudessem perder e tentar encontrar de novo as portas de entrada para os diversos espaços”. Entre telas suspensas a cerca de meio-metro do chão são apresentados os vários objectos desenhados pelos designers, arquitectos e estilistas presentes no certame deste ano.

Para Rui Grazina, arquitecto e designer, foi particularmente estimulante “poder reutilizar e valorizar – conferir uma nova vida – a materiais que tinham chegado ao final do seu ciclo”. Em “RG03”, o criador desenvolveu uma caixa para uma jóia “particularmente preciosa”, baseada nas caixas de abertura secreta japonesas do século XIX e concebida através de restos de madeiras nobres.

Entre os estilistas presentes, Ana Salazar criou “3 into 1”, uma sobreposição de três vestidos desenhados e apresentados em anteriores colecções da mesma. Numa descontextualização e reconstrução conduz-nos a um jogo de descoberta do começo e fim de cada parte da peça.

Cremascoli elege “Cork House” (gaiola redonda) e a “Portuguese House” (gaiola quadrada), da Simpleformsdesign, como peças de eleição. Duas casas para pássaros em cortiça escura, que utilizam na sua construção um material português, realçando assim o carácter identitário desta mostra.

O Espaço Caixa constitui mais uma das áreas da exposição. Durante os últimos dois anos, a Caixa Geral de Depósitos promoveu, junto de estudantes de Arquitectura, Design e Design de Equipamento, o concurso “Design de Imobiliário com Materiais Reciclados”. Neste espaço estão expostos os trabalhos finalistas de ambos os anos do concurso. Ana Feijão venceu em 2009 com “Rapunzel”, um pequeno banco entrançado, inspirado na conhecida história de encantar, que utiliza aço inoxidável, feltro e cintos reciclados.

A ironia e desconstrução de um objecto e do seu significado histórico, a guilhotina, surge pela mão de Pedro Valdez Cardoso, que nos apresenta “The order of today is the disorder of tomorrow” (“A ordem de hoje é a desordem de amanhã”). Na estrutura de uma cama excessivamente dourada, coberta por têxteis desajeitadamente trabalhados, surge à cabeceira uma guilhotina cuja lâmina assume a forma de um tecido suspenso. Ilustrando a obra podemos ler: “Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, de Lavoisier. A ideia de reciclagem ou de desperdício provocada pela morte e por revoluções é então colocada em causa e proposta a exercício crítico pelo autor.

Finalmente, desaguamos no “Jardim do Éden”, de Joana Vasconcelos, que a própria descreveu à RDB como sendo “a criação de uma outra dimensão”. Através da utilização de materiais pobres, como flores de plástico normalmente utilizadas na decoração de restaurantes chineses ou restos de tubos de canalização, a autora criou um jardim colorido em fundo completamente negro que recria “uma perfeição aparente, em que tudo é mecânico, falso. Um jardim à noite, eléctrico, completamente oposto a um jardim natural”.

Desenhando um motivo minhoto ao longo de 400 m2 e 600 vasos electrificados, Joana Vasconcelos utiliza matéria de baixo custo, chamando a atenção para o grave estado do mundo em geral e do mundo da arte em particular. A artista consegue transportar quem visita este espaço, relativamente isolado do resto da exposição, para uma atmosfera particular, vagueando “entre o espanto da quantidade e o espanto da delicadeza”, como diz João Pinharanda (Curador da exposição para as artes plásticas).

A “Re-Made” começou por acontecer em Itália e neste momento já tem uma forte presença, para além de Portugal, na Argentina, Chile, Brasil, França e Espanha, alargando em breve os seus horizontes a outras nacionalidades.

No próximo ano está prevista a realização de uma exposição em Portugal denominada “Re-Made Int.” que congrega os objectos dos países que neste momento realizam o evento.



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