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Sexta-Feira 13

Jason está de volta. Outra vez...

Existe uma teoria que diz que, quantas mais sequelas um filme tiver, pior é a qualidade das mesmas. A excepção são os filmes pornográficos, em que trinta e seis sequelas é sinal de respeito, orgulho e muito crédito. No entanto, como qualquer teoria, também esta não é cem por cento correcta. Ou será que é?

“Sexta-Feira 13” é um franchise do cinema de terror norte-americano. Apesar de nunca ter recebido o aplauso da crítica, a série deu azo a onze filmes, uma série de televisão, vários livros, bandas-desenhadas, jogos de computador e, claro, merchandise variado para todos os gostos. E agora, em 2009, dará direito a mais um filme, desta vez um remake, seguindo uma tendência recente que afectou Hollywood em refazer os grandes clássicos de terror.

Recentemente, Rob Zombie refez “Halloween” plano a plano. Antes, o francês Alexandre Aja já havia realizado o remake de “Terror nas montanhas”. E ainda houve nova versão de “Massacre no Texas”, por Marcus Nispel, ou “A Casa de cera”, por Jaume Collet-Serra. E, com este remake de “Sexta-Feira 13”, também a cargo de Nispel, a tendência parece estar para durar, porque já estão anunciados outros títulos como “The last house on the left”. Que raio se passa com o cinema de terror nos Estados Unidos da América? Crise de imaginação ou um regresso às origens, depois do esgotamento da fórmula com os slasher teen movies feitos a metro?

É certo que a maioria destes remakes não tem conseguido recuperar uma certa estética de violência que os filmes originais (especialmente os da década de 70) conseguiam de certa forma exprimir, perdendo-se em subterfúgios de paranóia terrorista, incontornável neste pós-11 de Setembro. No entanto, não deixa de haver em nós, espectadores de cinema de terror, um desejo íntimo e irresistível de assistir a todas estas readaptações, um pouco como nos acidentes de viação: apesar de não querermos, é impossível resistirmos a abrandar ao passar por um.

Contudo, a situação com “Sexta-Feira 13” acaba por ser um pouco distinta, porque este não é um simples filme de terror, nem tão pouco um filme de culto. É uma verdadeira instituição do cinema de horror, com direito a 11 (onze!) sequelas; um número suficiente para experimentar tudo e mais alguma coisa, o possível e o impossível. Em onze filmes realizados, o serial-killer Jason Voorhees já morreu vezes sem conta, já foi ressuscitado outras tantas, já combateu adolescentes normais e adolescentes com poderes especiais, já lutou contra o FBI, já invadiu Manhattan e até já foi ao espaço. Já só lhe falta ter um filho para rivalizar com o boneco assassino, Chuckie.

Mas afinal quem é Jason Voorhees? Começou por ser interpretado por Ari Lehman mas, ao longo das sequelas, os actores foram mudando (Kane Hodder interpretou-o por quatro vezes, detendo o recorde até à data), ao contrário do que acontece com Freddie Krueger, por exemplo, a estrela do outro franchise do terror norte-americano, “Pesadelo em Elm Street”, desde sempre encarnado pelo mítico Robert Englund. Filho da cozinheira do campo de férias de Verão de Crystal Lake, Jason morreu quando era um rapazinho, devido à negligência de dois monitores, distraídos em enrolarem-se um com o outro. Desde aí, Jason ficou traumatizado e, sempre que dois jovens têm a mínima possibilidade de terem sexo no campo de Crystal Lake, aparece para os assassinar da forma mais cruel possível. Um verdadeiro empata…

Mas Jason Voorhees nem começou por ser o mau da fita. No primeiro filme da série, Jason nem aparece, a não ser em flashbacks e aparições, uma vez que o verdadeiro culpado dos assassinatos é… a sua mãe, sedenta de vingança. No entanto, o sucesso da personagem foi tão grande, que os produtores não hesitaram em dar-lhe uma segunda vida. Assim, utilizando uma artimanha antiga – conhecida no meio como retconn – a morte de Jason enquanto criança é esquecida (afinal a mãe tinha uns problemas com drogas e estava só convencida que ele tinha morrido) e ele volta para se vingar de quem assassinou a sua progenitora, de quem guarda a cabeça religiosamente num altar.

Contudo, é só na parte três que Jason Voorhees utiliza aquela que se tornou na sua imagem de marca: a máscara de guarda-redes de hóquei no gelo. É um dos mais reconhecidos ícones da sétima arte e no universo do cinema de terror apenas encontra comparação na máscara da série “Gritos”, de Wes Craven. Contudo, tem a vantagem de primar pela simplicidade. A máscara de hóquei é quase uma expressão do ready-made, a transformação de um objecto comum num verdadeiro símbolo iconográfico da cultura pop.

Ao longo dos onze filmes, Jason Voorhees mudou bastante, consoante foi sendo conveniente. Começou por ser uma personagem pela qual o espectador acabava por sentir alguma compaixão, primeiro por ter morrido devido à vergonhosa distração dos monitores, e depois por querer vingar-se da morte da sua mãe. No entanto, com o passar das sequelas, tornou-se cada vez mais desumano e as razões das suas mortes em massa passaram a ser cada vez mais imorais. Também o interesse dos filmes passou a ser cada vez mais reduzido. Mera coindicência? O que é certo é que o ponto de viragem definitivo aconteceu no sexto filme, quando Jason adquire poderes sobre-humanos e praticamente invulneráveis.

No filme seguinte, Jason enfrente uma jovem Lar Park Lincoln, com poderes telepáticos, tentando aproveitar o sucesso de um filme que também se aproveitava de uma adolescente com poderes semelhantes, “Carrie”. Aliás, ao longo dos anos, os produtores sempre foram sabendo aproveitar ao máximo o nome de Jason Voorhees, com um olho para o negócio notável e um oportunismo brilhante. Começou logo pelo primeiro filme, que procurou acompanhar o nicho de mercado que havia sido aberto por John Carpenter, com o seu “Halloween”, aconteceu neste sétimo filme com o sucesso de “Carrie” e aconteceu, por exemplo, na versão futurista do décimo filme, à boleia do regressado “Exterminador Implacável”.

Um dos grandes momentos da série aconteceu em 2003, quando Ronny Yu assinou o crossover “Freddy vs Jason”, em que Jason Voorhees defronta, mano-a-mano, Freddie Krueger. O filme pode não ser genial mas, para qualquer aficcionado do terror em geral, é delicioso assistir a um filme destes, um verdadeiro guilty pleasure. Além disso, Ronny Yu tem coragem para não ser politicamente correcto e não termina o encontro com um empate. É que o vencedor é mesmo Jason, que encerra o filme com a cabeça de Freddy Krueger nas mãos.

Mas claro que Jason Voorhees e a série “Sexta-Feira 13” não são apenas raparigas bonitas a fugirem, adolescentes trucidados das mais variadas formas e um tipo grandalhão armado com um facalhão a persegui-los de forma muito cool. No fundo, como a maioria dos slashers, “Sexta-Feira 13” também aparecia de forma disfarçada e subversiva, um cinema politizado no início dos anos 80, década decisiva para o cinema de acção de direita que fez as delícias de Ronald Reagan e década em que a violência tornou-se tema de realizadores como Martin Scorcese ou Oliver Stone.

A pertinência de “Sexta-Feira 13” também não se esgota na estrutura do slasher e na personagem do serial killer de Jason Voorhees. E isso ficou provado com a série televisiva que durou três temporadas, entre 1987 e 1990, dedicada ao tema das maldições e da má sorte, que, no fundo, é o que a série sempre simbolizou. Por isso, enquanto houver sextas-feiras 13, gatos pretos, espelhos partidos e gente a evitar passar debaixo de escadotes, Jason Voorhees estará sempre disponível para voltar. Outra vez…



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