Short-Stories @ RDB #2

Uma malha na meia.

Ouvia o som abafado do chuveiro que vinha da casa-de-banho. Olhou para o cenário: roupa espalhada pelo chão, um sapato para cada canto do quarto. “Digno de um filme”, pensou. Apesar de já ter estado naquele quarto inúmeras vezes, nunca o tinha visto com outro aspecto. Já sabia o caminho de cor, desde que entrava na recepção até à porta do 127. Quando chegava ao quarto já ia imerso no corpo dela.

Ainda sentia o corpo a pulsar e o cabelo colado à testa por causa da transpiração. O seu corpo ainda recuperava, mas ela não. Já estava a tomar duche. “Sempre em movimento”, pensou e sorriu ao lembrar-se dos últimos minutos.
– Anda! – a voz dela, abafada pela porta encostada, despertou-o.

Ao entrar na casa-de-banho encontrou-a em frente ao espelho a secar-se. Ficou a observá-la encostado à porta. Percorreu o seu corpo com os olhos e algo chamou-lhe atenção.

– O que é isto? – perguntou-lhe ao passar-lhe a mão pelo o fundo das costas.
– O quê? – perguntou ela, enquanto se virou de costas para o espelho para o ver o que tinha. – Ah! É uma nódoa negra.
– Pois, eu sei!
– Foste tu, quando me agarraste no elevador. Apertaste o botão da saia contra as minhas costas. Pensavas que tinha sido o Luís? – soltou uma gargalhada, e continuou a falar, sempre a olhar para ele através do reflexo do espelho. – Coitado, ainda a semana passada, tive que o convencer que as marcas de dentes que tinha nos ombros eram dele.
– E como é que eu sei que não estás também a convencer-me.
– Eu não preciso de te convencer de nada, querido. – disse com um sorriso nos lábios. Vá, agora despacha-te.

Quando saiu da casa-de-banho ela ainda não estava vestida, apenas tinha a lingerie. Estava sentada na poltrona, junto à janela, a fumar.
– Tanta pressa era para fumar?
– Tu também? Já me basta o outro que tenho lá em casa a dar-me cabo da cabeça. – disse aborrecida com a observação. Levantou-se e começou a apanhar a sua roupa.
Ele sorriu, adorava espicaçá-la. Ao olhar para ela, reparou como o atraía. Quis continuar a irritá-la.
– Estás a precisar de um silicone, querida! – disse-lhe, apalpando-lhe  um dos seios. “Um-Zero”, pensou.
A resposta, foi imediata e no mesmo tom:
– E tu de uma “lipo”, meu querido.
– Não, estás enganada. Uma pequena barriguinha tem sempre o seu charme. – “Dois-Um”, pensou.
Começou também a recolher a sua roupa. Era sempre uma tarefa difícil: as calças de um lado, a camisa do outro, um sapato junto à porta, outro debaixo da cama. Enquanto fazia a sua busca interminável pelas peúgas, reparou que ela se olhava ao espelho e empurrava os seios ligeiramente para cima. Aproximou-se, fingindo que não tinha visto nada, e abraçou-a por trás.
– Sabes que és a minha amante preferida?!
– Obrigada pelo título, querido. Vá, deixa-me vestir.
Ela pôs o pé na poltrona e começou a endireitar os collant para os vestir. Ele, depois de descobrir as peúgas, junto da cómoda, começou também a vestir-se.
– Amanhã não sei se posso, a Júlia quer…
– Merda!
– O que foi?
– Tenho uma malha na meia.
– Ah! Veste outras.
– Não tenho outras. Que porcaria. Já é a terceira vez esta semana. Não prestam para nada. As pessoas até vão começar a reparar.
A conversa começava a entrar no universo feminino, totalmente desconhecido mas com o qual ele adorava brincar.
– Sim. De certeza, que as mulheres devem reparar nisso. – disse sem conseguir evitar o riso.
– Tu nem imaginas, as mulheres reparam em tudo.
– Sim. E quase que aposto que vão pensar que foi o teu amante no calor da paixão.
– Não sejas, parvo. Mas estavas a dizer o quê? Amanhã não podes porquê?
– Não posso porque a Júlia quer que eu vá com ela a uma consulta da Inês. – pela cara, sabia que ela não estava a gostar da conversa.
– Ah, estou a ver! Pois, eu para a semana também não sei se posso. Se calhar é melhor combinares com outra.
– Ok. Vou ver se preencho a vaga.
Já estava vestida. Pegou na mala e no casaco. Hoje era ela que saía primeiro.
– Pois, vê lá. Se não conseguires, não telefones em cima da hora. Posso estar ocupada. – disse dirigindo-se para a porta. Ele acompanhou-a e respondeu:
– Mas és sempre tu que telefonas, querida.
Pararam os dois à frente da porta, a despedida não ia ser como as outras. Ela fintou-o, procurava uma resposta à altura.
– Sabes como diz a outra? “Vai à merda”!
O silêncio entre os dois durou segundos, mas pareceu uma eternidade. Até que ele abriu a porta e esticou o braço.
– Primeiro as senhoras! – “Três-Dois”, pensou.
Ela não teve reacção por momentos, mas depois assumiu a derrota com uma gargalhada. Passou a mão pelo braço dele e saiu.

*

A carruagem não ia cheia. Apesar de quase vazia, sentia-se no ar os odores de quem passava. As janelas estavam embaciadas. Poucos eram os que falavam, e os que faziam-no quase sussurravam. Sentado, observava-a, uns lugares mais à frente. Estava imersa no livro que lia, ou pelo menos fingia que não sabia que ele a observava. Um toque familiar no braço, desviou-lhe a atenção.
– Coitada, já não é a primeira vez que traz uma malha na meia. É preciso azar! – sussurrou-lhe Júlia ao ouvido.
– O quê? Quem?
– Aquela mulher de casaco cinzento. Três vezes na mesma semana.
– Deve ter um amante. No calor da paixão, sabes como é!
– Jorge, as coisas que tu imaginas.
– Tens razão. Estava a brincar.



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