Short Stories @ RDB #9

O Anjo.

Miguel nunca nasceu. Como todos os anjos, era um bocado do próprio tempo e viajava dentro dele, para a frente e para trás, à velocidade de um pensamento. Gostava das pessoas e perdia-se nas suas ideias. Gostava principalmente de falar com elas. Quando lhes falava ao ouvido, misturava-se nas vozes das suas cabeças e falava acerca do que elas sentiam. Era assim que conseguia que fossem completamente honestas, porque quando falamos connosco próprios, normalmente não mentimos.

Gostava particularmente dos mais velhos. Como não sabia o que era o tempo, achava o assunto interessante, e com os mais antigos podia conversar sem pressa, porque a idade parecia ensinar a não ter medo do tempo. Gostava de conversar com eles porque sabia que não tinham hora marcada com o pensamento.

Passava muitas vezes pelas terras quentes e lentas de África. Aqueles sítios onde as coisas raramente se fazem ou decidem, pareciam-lhe ideais para “perder” o seu tempo. Aquilo em que mais pensava era na guerra, fim extemporâneo da vida e do propósito, e costumava falar disso aos velhos pais da terra, sábios como bibliotecas. Os velhos não tinham ódio, e também já não tinham medo.

Certo dia, um desses velhos que anda indefeso, caminhava pelo lado de uma estrada desfeita, passando ao lado da velha carcaça de um tanque. Estava tão perdido nos seus pensamentos que nem reparou no grupo que estava escondido atrás dos destroços. Saltaram subitamente para o caminho, três crianças que empunhavam uma metralhadora suja cada uma.
– Não vos vou dar nada, moleques, disse o velho depois de estancar o passo sem surpresa. Deixem-me seguir com a minha vida.
– Cala-te, velho!, respondeu um deles, que parecia um pouco mais crescido que os outros. Tu deves ter diamantes escondidos! passa para cá, que eu sei que os tens.
– Os diamantes são o veneno desta terra, menino. Nem os quero para mim. Vai-te embora moleque, que hoje não te vou dar nada.
Os outros membros do bando de assaltantes, começaram a recuar perante a atitude temerária, ou apenas inconsciente, daquele velho. Mas o jovem líder do bando não estava disposto a abandonar a caça a uma presa tão inofensiva.
– Perdeste o amor à vida, velhote? Olha que isto pode-te aleijar, disse enquanto mostrava mais de perto o cano por onde saíam as balas na sua viagem de sentido único.
– Estava mesmo agora a pensar comigo mesmo, que esta vida é um instante. Hoje vou andar pelo meu caminho, rapaz… hoje quero andar por este caminho.
E avançou repentinamente para a criança armada, num sobressalto que a assustou.

Premiu instantaneamente o gatilho. Alexandre Vida era um fotógrafo profissional e a velocidade do dedo no gatilho da máquina foi o que sempre o distinguiu dos outros, desde os tempos de aluno em Lisboa. Já nessa altura lhe auguravam o bom futuro como repórter, não porque tivesse muito talento ou uma grande técnica, mas porque mantinha o sangue frio como ninguém, mesmo nas situações de aperto.

Agora, que estava ali escondido, da posição perfeita para apanhar aquele assalto à mão armada numa estrada de uma Angola convalescente, não ia deixar os seus créditos por mãos alheias. Havia semanas que seguia aquele bando de jovens assaltantes, três irmãos de 9, 10 e 13 anos, e esta era a ocasião por que tanto tinha esperado. As imagens do assassinato cruel de um pobre velho indefeso dariam a história de que precisava para que os jornais lhe dessem o dinheiro suficiente para ficar mais tempo e fazer uma verdadeira reportagem sobre o pós-guerra em Angola.

Mas no momento em que viu aquele velho precipitar-se para a morte, sentiu os pensamentos assaltados por uma urgência em saltar para o meio da estrada e travar os acontecimentos, o que não era normal nele.
– Porque não os paraste? Perguntou-se subitamente a si próprio. Sentiu-se invadido por uma raiva e uma mágoa que não esperava e tentava responder às suas próprias perguntas com o que sempre lhe parecera óbvio.
– Não podia fazer nada. Este país está de pernas para o ar, e não serve da nada armar-me em herói.
– Mas ele ia morrer, e tu deixaste-te ficar aí.
– De que é que tinha servido?, perguntava a si próprio enquanto tentava perceber se tinha sido detectado pelos três jovens. O que é que querias? Acabar como este velho?

Por alguns dias, Miguel seguiu os passos do fotógrafo. Queria falar com ele, queria saber o que é que o tinha trazido para longe de casa, o que ele procurava naquele sítio.
– Porque é que eu me meti neste buraco de mundo? Para o mostrar aos outros, que ficaram lá em casa. Para tirar-lhes um bocado do sono. Estas pessoas estão num inferno quotidiano, a viver do lixo que as outras fazem, sem sequer olharem para o lado, quanto mais cá para baixo.
Miguel reconhecia nessas palavras uma fidelidade justiceira, mas queria sentir até que ponto é que ela ia. Este homem, que não se escondeu a estas palavras, não tinha conseguido salvar uma pessoa a morrer à sua frente, culpada apenas de querer caminhar.
– Porque é que não interferi? Eu observo e mostro o que vejo… a resolução do problema não passa por mim. És neutro nesta guerra, lembras-te? Para além disso, não ganhas nada com heroísmos malucos… a não ser uma medalha de chumbo mesmo no meio do peito.
– Achas que és mais indispensável que um velho, que só serve para morrer à tua frente?
Alexandre deteve-se um pouco, inseguro da resposta.
– Não tenho culpa que se tenha atirado daquela maneira absurda para a morte. Esta guerra fez coisas à cabeça das pessoas.
– Deu um passo que era seu de dar e morreu porque preferiu não ter que viver aprisionado por um medo que não faz sentido nenhum. Aprendeu a viver sem grades e não ia deixar que lhe metessem uma dentro da cabeça.
– Morreu para nada, mas é! Já era velho e já não ia ver melhoras na sua terra. E se morreu para nada era porque já não tinha nada por que viver.
– E tu, Alexandre? Vives para quê?

Alexandre teve mais dificuldades em seguir o bando de crianças, agora assassinas. Depois da primeira vez que mataram, demoraram mais tempo a voltar ao seu esconderijo, no tanque destruído. Mas a fome e a necessidade acabaram por levá-las ao próximo ataque, que seria para Alexandre a próxima fotografia.

Naquela parte do Sul de Angola, o fim da guerra nunca mais trazia a paz. O negócio dos diamantes até tinha voltado a florescer, exactamente com as mesmas pessoas por trás. O próprio exército estava a mudar de farda, mas o controlo que fazia aos que tentavam fugir ao circuito dos diamantes também era o mesmo. Para quem tentasse desafiar esta máfia feita instituição do estado, o jogo era de vida ou execução sumária.

Mas estes meninos, estes três como tantos outros, não tinham outra hipótese. Um diamante vendido directamente a um estrangeiro podia dar para arranjar comida para bastante tempo, ou outros objectos  (rádios ou peças de automóvel) que trocassem por comida e favores.

Depois daquela espera longa, o bando comandado por aquele rapaz de apenas 13 anos, finalmente voltou ao local do crime. Alexandre mantinha a sua táctica paciente, abrigado pela folhagem do esconderijo escavado atrás das árvores. Tinha que chegar lá antes que fosse visto seja por quem for e sair horas depois das presas da sua máquina. Sentia-se como um estudioso da vida selvagem, e as diferenças não eram muitas.

Não era fácil ao líder do bando manter a disciplina em fileiras tão pouco mobilizadas para o que não fosse a brincadeira. Os seus irmãos ainda não tinham a noção verdadeira do risco que corriam se fossem descobertos e brincavam incessantemente, apesar das reprimendas superiores. Alexandre notava as brincadeiras infantis daquele grupo que uns dias antes havia atacado e morto uma vítima indefesa, e preparava-se para tirar uma fotografia para o seu dossier.

Só se apercebeu da chegada de uma patrulha de homens fardados quando o líder começou a empurrar os irmãos com toda a urgência para o silêncio do interior do tanque. Alexandre só agora percebia da distância os contornos de quatro homens armados e fardados das cores da nova autoridade governamental. Aproximaram-se do tanque onde tinham encontrado o corpo de um idoso sem família, pouco tempo antes. Desde essa altura que voltavam ao local diariamente para tentar perceber quem é que andava a causar aqueles assaltos. Um deles subiu para o tanque e espreitou lá para dentro. Depois de desviar o olhar de um lado para o outro da escuridão do interior, fixou-o num ponto por um tempo que pareceu demasiado longo a Alexandre. Depois ouviu-se uma gargalhada alta do soldado, e um comentário.
– Vejam só o que nós temos aqui! O bando de fantasmas afinal é só uns moleques. Saiam já cá para fora!

Alexandre fotografou todo o acontecimento, desde a ordem do soldado à marcha assustada e chorosa dos três irmãos, da entrega das armas aos insultos do rapaz mais velho, ao discurso paternal e cruel do soldado enquanto lhes explicava porque deveriam morrer. Desta vez a revolta que sentia por dentro era ainda maior. A muito custo, o fotógrafo manteve-se quieto e calado enquanto o soldado encaminhava as crianças para próximo do esconderijo, mesmo à frente da fileira de árvores.

Seria a testemunha em primeira fila daquela atrocidade… e não podia fazer mais nada. Aquele homem de voz meiga que tentava consolar as crianças, preparava-se para as executar a sangue frio… e aquela não era a sua guerra ou aquelas as suas crianças. Aquele crime sem apelo iria ser cometido à sua frente… e não iria fazer nada.
– Aquele crime não tem apelo e não pode acontecer à minha frente, disse Alexandre ao que pensava ser si próprio. Sem pensar, saltou do seu esconderijo e colocou o corpo entre o rapaz de 13 anos e o fogo que se lançava sobre ele.
Tudo parou momentaneamente, um instante antes da bala o poder penetrar e viu-a estancada no tempo à sua frente. Sentiu o peso do corpo desaparecer. Sentiu perder as costas, amparadas por um anjo que lhe falava ao ouvido.
– Não tenhas medo.



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