Short Stories @ RDB #6

Maria Café.

Sempre me chamaram assim: Maria Café. Não acredito que o façam pela paixão que nutrem pelos meus quadros pintados a café, que insistem em chamar de outro qualquer engenho que não arte. Na verdade, todos me dizem que me pareço mais com uma maria-café do que com uma pessoa humana. Igual a mim mesma, sempre me diferenciei dos outros.

Os cabelos escuros que vejo ao espelho formam uma cabeleira farta que faz lembrar uma mistura de palha-de-aço com água encardida. O Tomé sempre me disse que a minha cabeleira era a perfeita antítese entre uma juba de leão malfadado e um rosto miúdo, em forma de castanha e boca de veludo, lambuzada de café. Todos os dias que usava aquele vestido púrpura, piscava-me o olho e gesticulava na minha língua mãe, senhora do silêncio, que eu era a mais bonita de todas.

Nas manhãs de Inverno, lembro-me da minha tia me enfiar sempre o vestido cabeça abaixo, que escorregava a pouco e pouco, assentando como uma luva. Depois sentia um esticão, da laçada que me dava na cintura, atrás das costas, e os olhos rasgados do Tomé vinham-me ao pensamento. Até que houve um dia que o vestido deixou de me servir. Quem me dera que todos as manhãs fossem Inverno e que não tivesse crescido! Entre a minha cabeleira farta e o facto das minhas palavras se fazerem de gestos, perguntei-me por muito tempo quem era a Maria Café. Um dia fiz-me mulher e não voltei a pensar nisso. A pintura fora o ofício que escolhi para ganha-pão quando a minha tia me deixou, entregue a sós com a vida.

Corria uma aragem fresca da janela que batia levemente nas folhas das árvores, estremunhadas. O jardim abria-se no meu horizonte defronte da cadeira em que me sentei. Senti o pêlo da Quinta-Feira, que rodeava o meu lugar. Peguei nela e abraçei-a, até me escapar das mãos e decidir-se por outro trono da sala. O toucador era o seu mais fiel desafio, por nunca ter conseguido conquistar aí o seu lugar por mais de uns momentos. O entardecer dos verões pede sempre um agasalho. Limitei-me a abraçar, arrepiada, os joelhos ao peito enquanto me balançava na cadeira.

Acordo de sobressalto. No bairro só há uma pessoa capaz de entrar casa adentro dos vizinhos sem ser convidada: a mulher do merceeiro. Chama-se Dona Benvinda, cuja graça que Deus lhe deu já é, por si só, uma daquelas trapaças que só o destino pode guardar. É mulher para uns cinquenta anos, inconfundível graças às suas rosáceas que lhe enchem o rosto e se confundem com a cor da sua bata, dividida aritmeticamente em cinco bolsos, de forma oval. Quando olho para ela imagino um vaso de flores desconcertadas, umas acima, outras abaixo, excêntricas à sua maneira. Esbraceja dramaticamente dizendo que a porta estava entreaberta e que precisava da minha ajuda para entregar uma encomenda a uma pessoa idosa. De tez avermelhada, mirava-me à espera de resposta ou apenas de uma reacção da minha parte, como um humano vê à lupa um bicho feio e assustado. Aceitei o seu pedido em troca de fruta para uma semana: de figos, como a estação do ano manda.

Do outro lado da rua vive a senhora que encomendou a caixa de hortaliças à Dona Benvinda. Uma velha que sempre vi, do meu alpendre, através das janelas da frente que dão para a sua varanda. Pelo vidro, dá para vê-la num zanzar de um lado para o outro. Nunca me cruzei com ela na rua, apenas com a sua neta Celeste. A rapariga tem os cabelos ruivos, religiosamente apanhados em trança, e olhos castanho-mel que contrastam com o seu olhar pouco inocente. Quando se põe ao sol, conseguem-se ver vários fios de cabelo fora do lugar, desalinhados, em tons laranja cor-de-fogo.

Aqui entre nós, existe um lugar que pertence ao universo do imaginário e é o centro do mundo, onde as pessoas se fazem e eu não me fiz: o outro lado, a Cidade. Nunca a tinha pisado. Porém, sabia bem que o antídoto ideal para os meus medos era deixar os meus desenhos de café e partir da minha rua, deixando para trás o Tomé, a Dona Benvinda, a Celeste e a sua avó, guardiã de um provável mistério. Mas não devo pensar na Cidade, como sempre faço desde miúda. Espera-me uma missão importante: ir à mercearia de Dona Benvinda.

Duas caixas aguardavam-me à entrada da porta: os meus figos, cuja extremidade de cada um era encimada meticulosamente por um pingo de mel, verdes e recheados, prontos a comer, e a caixa de hortaliça para a avó da Celeste. Corri da loja para a minha casa, com as caixas na mão, de braços levantados. Deixei junto ao meu alpendre a oferta de Dona Benvinda e peguei na encomenda da velhota. Todos a acusavam de ser feia, talvez uma feiticeira. Contava-se que se saísse à rua, os seus cabelos compridos e cinzentos transformavam-se em sete tentáculos de um polvo e os seus olhos choravam lágrimas de sangue, com cheiro às hortaliças que a Dona Benvinda lhe vendia. Nunca acreditei nos rumores que corriam, porque as mesmas pessoas contavam a história de uma menina que, quando entrava em casa, se transformava numa maria-café, preta, cilíndrica e achatada, de patas minúsculas e viscosas.

Atravessei a estrada sem medos. Senti um puxão nas calças de bombazina que vestia e ouvi um ronronar. Era Quinta-Feira que me puxava para casa, obrigando-me a sacudi-la e mandá-la embora. Quando cheguei à entrada da porta, toquei à campainha mas ninguém respondia. Insisti durante algum tempo e, não ouvindo viva alma, abri a porta. As paredes eram todas forradas de cor púrpura, semelhante à do meu vestido que o Tomé gostava, com um papel estampado, de cornucópias. O pó sentia-se no ar e um cheiro intenso a bafio povoava a casa. As aranhas protagonizavam Quinta-Feira na minha casa, imperatrizes, amontoando-se nas suas teias nos quatro cantos da sala. Diante de mim, via uma mesa de jantar servida para uma pessoa, o que estranhei por não ver a mesa posta para Celeste. Aliás, a disposição das mobílias, um sofá, um canapé, um só cabide, pareciam convencer-me que naquela casa só havia lugar para uma pessoa.

Celeste não podia morar ali. A caixa pesava-me e pu-la no chão. Em frente, havia uma porta que dava para a cozinha e abria-a. Tudo estava em ordem, arrumado ao pormenor. Corri e vi as duas casas de banho que se encaixavam no corredor. Do lado direito, via-se a entrada para o quarto e espreitei para dentro, sendo o último lugar onde a mulher poderia estar, mas caio no chão, de espanto!

Uma cidade afigura-se diante de mim. Vejo o Tomé, a Dona Benvinda e o merceeiro num mercado gigante e imponente, mas ninguém me vê. Olho na direcção de um coxo e um cego que se acotovelam por uma malga de vinho e um pedaço de pão. Quinta-Feira está lá e não tem dono. Esgravata um peixe moribundo debaixo de uma banca nauseabunda. Olha-me de relance, mas não me reconhece. Há artistas com obras que não são pintadas a café. O sol esconde-se atrás da montanha que recai sobre a cidade, como sem a sua permissão, e todos fogem e recolhem a suas casas.

De repente, oiço uma porta bater. Saio do quarto, abandonando a Cidade e corro até ao corredor, terrificada. Escondo-me atrás de uma camilha decorada com castiçais, onde permaneço e espero a entrada do intruso. Era Celeste, que se dirige ao quarto e abre a mesma porta, para a Cidade. Antes de a fechar, vejo-a na sua forma humana a metamorfosear-se na velha que sempre viveu naquela casa. Ela fecha a porta e num ápice, fujo dali, vendo que Celeste ou a velha que vive dentro de si nem se apercebera da caixa da dona Benvinda, pousada à entrada da porta.

Afinal naquela tarde Maria Café fora à Cidade, onde vira os novos se tornarem velhos e os que são amados tornarem-se anónimos, vagabundos de rua. Pior. O amor ficara obsoleto. Ela não queria acreditar. Remexeu-se para poder ouvir o barulho das árvores novamente a mexer. Tentou gritar, mas o som das suas palavras não saíam. Esperneou no chão do alpendre, sufocada pela sua própria respiração ofegante. Até que sentiu o corpo dormente da posição em que esteve toda a noite, na cadeira de balançar, diante das mesmas árvores que mexiam estremunhadas no dia anterior, diante do jardim que se abria no seu horizonte. Foi aí que sentiu um alívio no peito e pensou: chegou o dia de ir sozinha à Cidade!
Nessa tarde, acordou com um sabor doce a caramelo na boca muito diferente do do café dos seus quadros. Saiu à rua e a velha mulher continuava lá, mas naquele dia estava à janela. Esboçou um sorriso na sua direcção, disfarçado, e foi para dentro. Naquele momento, tudo parecia ter mudado de lugar, na rua de Maria Café.



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