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The Dodos + doismileoito

Santiago Intimista. 15 de Dezembro de 2009.

Antes de começar fica já a ressalva. A expressão que usei para dar o título a esta reportagem não é da minha autoria. Ouvi-a da boca de alguém que estava no Alquimista para ver o regresso da banda de Meric Long a Portugal.

Estava uma noite fria e chuvosa, nada convidativa para uma ida ao Santiago Alquimista. Talvez por isso a sala tenha ficado um pouco aquém das expectativas, mas acreditem quando vos digo que isso foi o melhor que poderia acontecer.

A noite teve início ao som dos maiatos doismileoito, uma confirmação quase de última hora, para primeira parte de concerto, e que os próprios fizeram questão de agradecer. Cumpriram bem o seu papel, preparando o terreno para os Dodos. Já tinha tido oportunidade de os ver ao vivo, no início do ano, altura em que lançaram o seu álbum homónimo de estreia. Cresceram, sem sombra de dúvida. Mais maduros e confiantes em palco, continuam no entanto à procura da sua própria identidade. E sinceramente estou em crer que têm tudo para o conseguir. Entre os temas que apresentaram esteve também uma nova composição. São bons no que fazem e, por isso mesmo, são uma banda que merece continuar a ser acompanhada com atenção.

A necessidade de remover toda a parafernália de instrumentos dos doismileoito e de montar a dos Dodos, de uma natureza bem distinta com o Vibrafone a destacar-se de imediato, na zona central do palco, conduziu a um atraso no início de concerto. Durante a espera, os poucos espaços livres no balcão que rodeia todo o palco foram ocupados (um deles pela minha pessoa). Estaminé montado e, sem perdas de tempo, eis que Meric Long, Logan Kroeber e Joe Haener tomam os seus lugares e se lançam ao som de «Paint the Rust».

Infelizmente o som não esteve sempre à altura. Porém, a forma como a banda se entregava à interpretação de cada tema compensava. Finda a terceira música, os Dodos lançaram a cartada que, para quem tivesse qualquer dúvida, lhes permitiu ganhar a noite. Simplesmente convidaram o pessoal a subir ao palco e rodeá-los. Instantaneamente criou-se um ambiente único, com público e banda a partilharem o mesmo espaço e assegurarem a maior concentração de sorrisos por metro quadrado daquela noite, na cidade de Lisboa.

A música dos Dodos ganha força ao vivo, é mais “corpulenta”, muito por culpa da percussão, que nalguns momentos surgia demasiado alta e acabava por abafar os restantes instrumentos. A jam session no Vibrafone, entre Haener e Long, trouxe-me de imediato à mente os Sigur Rós (saudades de os rever ao vivo…). Ao contrário de muitos outros concertos este soou puro. Puro no sentido em que não estava pensado ao detalhe. Houve sempre espaço para o imprevisto, para o improviso, para a surpresa. Nem sempre saiu perfeito, é certo, mas como diz o povo: “quem não arrisca não petisca”.  Os Dodos saíram a ganhar.

Sempre que uma banda actua pela primeira vez no Santiago Alquimista fica admirada com a sala. É um espaço acolhedor. Tem uma vista sensacional sobre o Tejo logo à entrada. Mas o que é sempre destacado pelas bandas que passam por ali é o facto de terem público a ver o concerto por trás deles, no piso superior. Os concertos ali ganham uma aura especial. Isto e o palco “ocupado” pelo público tornaram o concerto único e, para muitos dos presentes, memorável, tal a proximidade e a comunhão entre público e banda.

O mais recente “Time to Die” («Fables» é uma grande, grande música) dividiu uniformemente a setlist com aquela obra-prima que dá pelo nome de “Visiter” (cujo vinil me acompanhou no regresso a casa). «Jodi». Escrevi o título e fiquei com um sorriso estampado no rosto. “Jodi, my dear, I’m sorry but I must disappear / I leave you with a song and a tear / Just please don’t wash away”. «God?», já no encore, foi uma agradável surpresa. Foi com muita pena minha que não ouvi tocar a «Winter». Resta a esperança de que o façam quando cá voltarem.

Foi daqueles concertos em que era fácil perder a noção do tempo. Agradável. Já tentei ter ideia de quanto durou ao certo mas acabei desistindo. Também não importa. O segundo regresso ao palco – como devem compreender, era quase impossível satisfazer toda aquela gente em redor da banda com um único encore – teve um toque especial. Às escuras, somente com umas pequenas luzes de diferentes cores, que permitiam ter o mínimo de noção do que estavam ali a fazer. Ah… e o que fizeram foi tocar a «Red and Purple» e a «Eyelids».



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