The Doors @ Coliseu

Celebração consensual.

A penúltima data da tourneé europeia dos The Doors, aka Riders On The Storm, ficou marcada por um clima de permanente celebração, de um mito que teima em não morrer.

Faltavam 15 minutos para a hora marcada do espectáculo e já se ouviam cânticos: “Break on through to the other side !”, passando pelas habituais saudações aos The Doors, onde não faltaram alguns aficionados empunhando placares de Morrison.

Mas, e pese embora uma confortável maioria jovem, o concerto do Coliseu dos Recreios não deixou de incluir uma elevada componente de fãs da primeira hora, que também se mostravam entusiasmados com a perspectiva que se avizinhava.

Seria ao som de «Carmina Burana», de Carl Orff, que os artistas entrariam em cena. Pouco depois, a cerimónia começaria com um «Roadhouse Blues» convincente e no qual o vocalista Ian Astbury, vestido de cabedal, com óculos escuros e barba por fazer, lembrava fortemente o grande ausente desta noite lisboeta.

A sequência de temas: «Break On Through», «Love Me Two Times» e «When The Music´s Over», revelou-se acertada, possibilitando uma comunhão total entre banda e público, que raramente seria atenuada.

O segredo desta encarnação dos The Doors reside na capacidade instrumental e interpretativa, bem como numa noção exacta dos limites de cada um.

O colectivo Riders On The Storm também não foge da lenda que o precede mas acrescenta-lhe uma pitada de humor, na pessoa do teclista Ray Manzarek, vide o pé em cima do teclado ou algumas tiradas humorísticas que funcionaram bem.

No lado dos sobreviventes, temos ainda um Robbie Krieger que não desaprendeu os solos clássicos de guitarra. O cantor Ian Astbury, embora mantendo-se fiel ao seu estilo, não deixou de se aproximar do de Jim Morrison, quando vociferava frases chave, como por exemplo: “We want the world and we want it now”. 

Na introdução a «Five To One», Daniel Ray Manzarek profere a frase da noite: “Esta canção é para o nosso presidente Bush e para aqueles loucos em Washington que mandam mais tropas para o Iraque”. A reacção foi imediata e espontânea: vaia monumental do público lisboeta.

Com «Spanish Caravan» evidenciam-se os dotes acústicos de Robbie Krieger e a célebre estrofe, “Take me to Portugal take me to Spain”, provoca uma rápida identificação com o público que aproveita para se deixar embalar ao som da guitarra espanhola.

A piscadela de olho ao recentemente falecido James Brown, acontece com «Touch Me». Esta canção, pelo seu ritmo funky, dá a possibilidade ao baterista Ty Dennis de mostrar a sua competência, aliada a uma condução discreta, mas segura, no baixo, de Phil Chen.

O carismático Jim Morrison é homenageado em «L.A.Woman». E a guitarra de Robbie Krieger parece transportar-nos para a freeway de Los Angeles, onde uma estrofe épica, “Mr mojo risin´”, é entoada por todos.

O primeiro encore traz-nos o single de maior sucesso da banda: «Light My Fire». Nesta fase, canta-se a plenos pulmões nas bancadas e no recinto do Coliseu. Os telemóveis e as câmeras fotográficas não param de disparar. É o grande momento da noite.

Para encerrar o concerto, a escolha recai em «Soul Kitchen». De fora ficaram a dançante «Peace Frog», a canção que deu o nome à banda e à tourneé, «Riders On The Storm», ou a edipiana «The End».

Um espectáculo com estas características tem todas as probabilidades de se tornar um verdadeiro exercício de nostalgia. Mas não será isso que fazem os Rolling Stones, Pink Floyd ou Paul McCartney ? Sim, e tal como os Riders On The Storm, fazem-no bem.



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