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“The Old King”

Erguer um palco no meio da tempestade.

Para uma muito curta série de espectáculos sobe ao palco do Teatro CamõesOLD KING”, a mais recente criação de Miguel MoreiraRomeu Runa. Uma produção do ÚTERO que começou a ser construída numa residência artística em Berlim, na Uferstudios, e contou com a colaboração de Alain Platel, director da Ballets de C. de la B.

As primeiras luzes no palco conduzem-nos até junto de um homem à boca de cena, sentado em cima de um estrado, com a cabeça para baixo. Ponto de partida que traça uma coincidência com a imagem que serviu de inspiração para este espectáculo: a fotografia de Daniel Blaufuks, Old King. A partir daí há o trajecto de um homem que enfrenta toda uma série de obstáculos e vicissitudes quando pretende criar um palanque para se expressar e dizer o que tem para dizer. E que tem necessidade de dizer mas não consegue, perde-se naquilo que quer dizer.

O corpo em permanente movimento de torção e de procura

Miguel Moreira e Romeu Runa, pretendem criar um percurso onde seja possível pensar a liberdade através da experiência do corpo. Uma experiência do corpo dominada pela ideia de torção. Esta ideia de torcer, de contorcer, evidencia a maturidade expressiva e criativa em que se encontra o performer, um bailarino que começou por jogar futebol, ingressou no Conservatório de Dança, dançou no Ballet Gulbenkian, onde trabalhou com alguns dos mais importantes coreógrafos portugueses, e actualmente está na Ballets de C. de la B, companhia belga fundada e dirigida por Alain Platel. Há nele uma composição expressiva verdadeiramente invulgar de uma corporalidade que pela sua plasticidade extrema consegue desorganizar a própria noção de corpo. Suspendendo o movimento e aí, estacando o juízo do que um corpo é. Anunciando o que um corpo pode ser.

O espectáculo aposta simultaneamente na descontinuidade, através de movimentos fragmentados (que se constituem num discurso comum por pertencerem todos à ideia de torcer, de contorcer) e na continuidade, através de um eixo narrativo muito simples, este movimento de um homem em devir, em procura num espaço quase vazio. Para além de um ou dois objectos, o microfone, o ramo de flores e as roupas, há apenas seis ou sete paletes que irão servir para montar o palanque. Não há uma linearidade dos movimentos. É como se no espaço vazio o homem fizesse do seu corpo um lugar que vai desconstruindo e reconstruindo enquanto possibilidade de se exprimir. Evoca Beckett mas, sobretudo, instala a ideia de percurso de Kaspar de Peter Handke. Ou a ideia de covil do Kafka. Não sendo um espectáculo de efeitos, estamos sempre na simplicidade de um corpo em trabalho de parto, há no modo como figura uma tempestade, um jacto de água que sai de uma mangueira, um momento de grande singularidade estética. A que não será estranho o trabalho que a luz faz sobre a água.

Na abstracção do movimento, a música

A música de Pedro Carneiro intensifica este espaço de experiência e ao mesmo tempo, na abstracção que tudo isto é, constrói diferentes momentos narrativos. E entre todos estes elementos o silêncio ganha também expressividade sonora. Começamos pela percussão criando um ambiente de ritual, um ritmo orgânico. Depois a reverberação dos metais criando ressonâncias com o inconsciente. Seguem-se as teclas, trazendo alguma tranquilidade e ao mesmo tempo profundidade a esta inquietação. E por fim as cordas, preparando o final, sinfónico, sublinhando o momento em que o homem atingiu o topo do palanque.

A residência artística em Berlim

Para criar este espectáculo começaram por uma residência artística de um mês no Uferstudios de Berlim, um local onde havia uma grande proximidade com outros criadores, alguns deles portugueses. Ao fim de quinze dias começaram a abrir os ensaios ao público. E dessa abertura houve um processo de discussão que os ajudou muito na evolução do trabalho. Durante o processo de pesquisa, uma novidade: para além de Romeu Runa, ensaiavam também o Miguel Moreira, a Catarina Félix (que assegura a assistência de direcção) e a Sandra Rosado (irmã de Miguel), mesmo sabendo-se que o espectáculo contaria apenas com a interpretação de Romeu que ia assim respondendo aos estímulos dos seus companheiros. Tudo isto reflecte uma grande cumplicidade construída já em vários espectáculos e nas próprias vidas. O profissional e o privado misturam-se no Útero. Miguel Moreira ironiza com o facto de terem cruzamentos familiares e de afecto entre eles, diz que têm uma relação um pouco circense.

Depois de Berlim voltaram para Lisboa, onde os encontrei e conversei com eles, numa curta série de ensaios antes de partirem para Gent, na Bélgica, onde foram trabalhar durante uma semana com Alain Platel, que habitualmente dirige Romeu Runa. É Miguel Moreira que explica as diferenças de trabalho entre ambos: “- Eu tento chegar a uma questão estrutural enquanto por exemplo, segundo o que diz o Romeu, o Alain está muito mais num vazio qualquer”. Romeu brinca com a ideia de que Miguel lhes dá muitas coisas para ler. Handke, Kafka, Beckett, entre muitos autores. Ou por vezes músicas. Ou imagens. Por exemplo a de um homem numa paisagem foi decisiva. Neste trabalho socorreram-se muito da gravação em vídeo dos ensaios, do visionamento dos materiais. A forma como o Miguel Moreira cria os seus espectáculos tem muito a ver com este tipo de materiais que se trazem de fora e se experimentam em cena.

Representar, simular, construir

E se no trabalho de criação em cima do palco o que talvez exceda, como evidência performativa, seja a forma como Romeu Runa desenvolve corporalmente até à exaustão o tema da torção, há, no processo de criação do espectáculo algo que dá conta do percurso de Miguel Moreira desde que em 1997 criou o Útero :

“ – Eu acho que já não existe representação. Comecei a achar que era simulação. Mas depois desisti disso. O que acontece é que construímos coisas. E depois as pessoas ficam à espera e percebem ou não, ficam ou não frustradas face à expectativa que possam ter. Os meus últimos trabalhos jogam muito com o tempo, o tempo de estar. Comecei a abdicar de ensaios para melhorar. Agora há sessões de trabalho para dar tudo, para criar. Acho que isso é uma forma de trabalhar o espaço de teatro como um lugar especial, quase sagrado, contra a banalização da presença e da linguagem”.

Ele, que partiu de uma ligação muito forte à palavra e ao texto (Duras, Pedro Paixão, Jaime Rocha, José Maria Vieira Mendes, Virgílio Martinho, entre outros), recusa hoje muito claramente um trabalho de encenação que se possa aproximar da ideia de ilustração do texto. Diz: “É por isso que cada vez menos me assumo como encenador. Não recuso trabalhar com um dramaturgo mas só se for um despique criativo.” O seu trabalho sempre esteve muito virado para o corpo, para a sexualidade, para a casa. Diz-nos que desde que começaram a fazer espectáculos na casa, o Espaço Land, simultaneamente um espaço de espectáculos e um lugar de habitação, e principalmente com “68”, houve uma cisão na sua forma de pensar as artes performativas.

Tem consciência que no seu caminho de criador teve de interromper muitas vezes o seu processo de pesquisa para ser aceite, para ter condições para trabalhar, para poder fazer uma co-produção: “E é nessas alturas que um tipo cede naquilo que é essencial.” Reconhece-se numa geração que está a sentir necessidade de voltar ao envolvimento, à procura estética, mesmo que assinale que a situação das companhias as atire um pouco para o isolamento. Essa ideia faz-nos regressar ao tema do espectáculo. Desabafa:

“Nesta sociedade o mais importante é essa ideia de construirmos palanques para falarmos das coisas que sentimos. Aqui é um homem que tenta, diante de uma tempestade, construir, erguer uma coisa para conseguir-se expressar e falar daquilo que acredita. Só lhe resta isso. E que é o que nos acontece a nós também. Se calhar isto é a nossa vida. Fazermos um palanque e falarmos mesmo que seja para ninguém. É a nossa vida.”

9, 11 Junho 21h e 12 de Junho, às 16h | Teatro Camões

Criação Miguel Moreira, a partir de uma fotografia de Daniel Blaufuks • Interpretação e co-criação Romeu Runa Música Pedro Carneiro• Figurinos Dino Alves • Desenho de luz João Garcia Miguel• Ensaios especiais Alain Platel • Assistência de direcção Catarina Félix • Colaboração Sandra Rosado e Jorge Moreira

Co-produção Teatro Camões, Teatro Torres Vedras, Teatro Cartaxo, Centro Cultural Vila Flor, Teatro das Figuras e Útero Associação Cultural • Apoio Uferstudios em Berlim

Residência artística Uferstudios em Berlim e Teatro Camões



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