The xx | Night + Day @ Jardim Torre Belém (05.05.2013)

The xx | Night + Day @ Jardim Torre Belém (5.5.2013)

Arranjos e rearranjos: The xx na companhia de amigos

Os The xx apresentaram pela primeira vez o evento Night + Day, por eles curado, ontem no Jardim da Torre de Belém. Sendo a primeira de três cidades da Europa escolhidas para a ocasião (seguem-se, ainda este mês, Berlim e Londres), em Lisboa o local prometia ser o cenário ideal para receber o certame, com a imponente torre a ditar o limite entre terra e rio. Mas a localização foi imediatamente desperdiçada: se a costa se situava atrás dos opacos limites do recinto, não faltou muito até também a torre se fundir na escuridão da noite, desperdiçando as principais características locais que justificariam a escolha do lugar.

Assistiu-se à abertura da temporada de festivais – por um dia, já se respirava o pó levantado pela massa de movimentações da audiência e formavam-se filas de várias dezenas de metros para conseguir comida ou uma cerveja; no centro entre o palco principal, Night + Day, e o pequeno coreto que serviu para os DJ sets. O conceito, apesar de não ser novidade, acaba por resultar na medida em que a música nunca cessou. Falha na medida em que muitas vezes a música não foi mais do que a banda sonora para todo o tipo de actividades que não usufruíam dela – as pessoas movimentam-se pelo recinto visivelmente impacientes pela actuação dos The xx e o resto acaba por ser um bónus.

Curiosamente, o anúncio feito há vários meses do evento publicitava que seria um acontecimento que juntaria os The xx e amigos. Não poderia ser mais verdade – bastaria atentar nas performances de John Talabot e Chromatics para perceber que são bandas da mesma família. Não se poderá dizer que a diversidade sonora tenha sido o prato forte do dia – no coreto do DJ, as sonoridades rondaram o mesmo, com algumas variações pouco significativas no set de Jamie xx.

Não é que não haja interesse nisto – e notamos ainda a presença dos PAUS e o set de James Murphy, a tentar contornar essa monotonia de terrenos – e, a espaços, as bandas vão debitando singles orelhudos que, claro, sofrem por ser um conjunto de bandas sem particular maturação. Para percebermos isto, basta ver que os Chromatics, a única banda com mais de uma década ao serviço, viria a recorrer a reintrepetações sintetizadas mal esgalhadas recuperadas do repertório de Kate Bush e Neil Young.

Mas tudo isto tratar-se-ia de um compasso de espera para as estrelas da noite (e do dia). Acabando com a tradição do dia que insistia em sets de trinta a quarenta minutos por banda (que talvez implicassem outro tipo de energia), os The xx apresentaram-se durante pouco mais de uma hora, percorrendo os dois discos. Após uma primeira investida no material mais recente, atiram-se imediatamente ao disco de estreia, com a sequência «Heart Skipped a Beat» e «Crystalised»; e desde logo percebemos que algo mudou mesmo nestas músicas. Apresentadas num formato retalhado e colado para um público de “estádio”, perde-se alguma da simplicidade na tradução – e convém não esquecer que foi este minimalismo que catapultou a banda para onde está hoje.

Pelo meio, ficam êxitos como «Chained» ou «Reunion» (agora de “Coexist”), mas é claramente nas músicas mais antigas que os The xx recebem as maiores ovações. Um dos momentos mais altos, em «Night Time», tem direito a uma iluminação que cria nuvens sobre a audiência. Podia fazer-se uma metáfora bem bonita com a banda britânica e o céu, mas não estamos aqui para enganar ninguém – houve uma grande aposta neste tipo de efeitos para esta série de concertos, que lhes atribuem grande valor cénico. No entanto, segue-se uma transição ambígua para «Shelter», com improvisações que sugerem que a banda quer negar esse seu trunfo que é o de fazer nascer a sua música a partir do silêncio. Há muito medo do silêncio na música contemporânea, e parece que os The xx também o receiam às vezes.

Ironicamente, para o encore chega a primeira faixa de cada disco – «Intro» e «Angels», particularmente inspiradas (é relativo dizer isto neste contexto, já que o minimalismo sonoro da banda não dá aso a grandes invenções – e quando dá, torcemos um pouco o nariz) encerram a performance, mas não sem antes se debitarem vários agradecimentos às bandas e, claro, à audiência. A certa altura, Oliver Sim diz que andam há mais de um ano a tentar fazer isto acontecer: relembremo-nos que a banda apareceu há pouco mais de três anos.

Não nos arriscaríamos a dizer que cada regresso dos The xx a Portugal vale particularmente a pena – prova disso será a pobre performance com que nos presentearam há dois anos em Algés -, mas terá sido uma agradável tarde que teve mais de tempo recreativo primaveril do que surpresas musicais. Faltou nervo, claro; mas, a avaliar pela reacção do público, foram uma noite e um dia muito bem passados.

Fotografia por José Eduardo Real



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