Uma Conspiração Permanente Contra O Mundo de Anselm Jappe

“Uma Conspiração Permanente Contra O Mundo”, de Anselm Jappe

Não trabalhem nunca

Se o Gui Debord tivesse uma groupie, de certeza que era Anselm Jappe. Para ele, Debord nunca deu ponto sem nó e mesmo quando, anos mais tarde, inverteu o seu discurso não foi por ter alinhado com o seu eterno alvo de crítica, mas por adaptar a sua posição á aglutinadora sociedade do espectáculo.

A verdade é que, é rara quando não mesmo inexistente, a retórica crítica ou elogiadora do sistema que não beba de Debord e dos Situacionistas, mesmo que não tenha disso conhecimento. Jappe não é só apenas (mais um) domesticador do situacionismo para leigos, preguiçosos e revolucionários de bolso, ele tem sido um percursor da Internacional Situacionista por direito próprio, algo facilmente constatado n’”As Aventuras da Mercadoria” e acima de tudo n’”As Conferências de Lisboa”. Depois duma biografia de Gui Debord, eis que Anselm Jappe surge agora a reclamar de volta o fundador da I.S., que nos últimos anos tem sido alvo, senão dum branqueamento pelo menos duma apologia por parte do espectáculo a que ele dedicou a sua vida a expor, desconstruir e sobretudo destruir.

No seu livro mais recente “Uma Conspiração Permanente Contra O Mundo”, o filósofo alemão recupera Debord do intelectualismo civilizado da cultura e da política e devolve-o à deriva, aos graffitis e às greves selvagens de onde nunca deveria ter saído. De entre as várias coisas pelas quais Debord é recordado, uma das mais características terá sido sobretudo a contaminação, via maio de 68, da frase “Ne Travaillez Jamais” pelos muros de Paris. Se o restante da sua vida não fosse o suficiente para o resgatar da cultura mercantil do pós-capitalismo, então esse seria o momento sintomático que o libertaria de qualquer possível associação, mas, tal como se tem assistido à mercantilização positiva da imagem de Salazar no nosso país, o mesmo tem vindo a acontecer com os bastiões do sistema neo-liberal, no qual, citando Vaneigem “a garantia de não morrer de fome é trocada pelo risco de morrer de tédio”.

Tal como tudo o que verdadeiramente diz respeito à IS, Jappe não é uma leitura fácil porque o assunto sobre o qual versa, os mecanismos sociais, económicos e culturais não são também eles de leitura e interpretação fácil, mas também como reacção, não só à infantilização dos espectadores, mas conjuntamente como forma de sacudir a letargia associada ao estatuto de espectador. Se a crítica social algum dia se aproximou da bestialidade da poesia, isso aconteceu em Debord e acontece também com Jappe, na luta pela possibilidade de cada um de nós construir no dia-a-dia a sua própria história ao invés de venerar os momentos extraordinários de personagens ordinárias.

Agora que os golpes de estado passaram de moda, todas as formas de contracultura foram há muito assimiladas pelos mecanismos de produção e devolvidas aos cidadãos na forma de produtos, e o amor está sob cerco, ainda estará a praia sob a calçada?



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