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Ursula Rucker

Santiago Alquimista. 15 de Maio de 2009.

Pessoal mais entradote esta noite no Alquimista. Prevê-se uma noite morna. Chillout ecoa em fundo enquanto a bola de espelhos balança docemente ao seu ritmo. Há pessoas borrifadas por aqui e ali. No palco, um banco alto sentado atrás do mic. Do seu lado direito, um teclado e uma mesa com um laptop, um leitor de cd com scratch e uma mesa de mistura. Do outro, uma guitarra acústica com vários processadores de efeitos e loops. Ao seu lado, em cima de uma mesa de madeira com uma toalha preta, com um daqueles indicadores de “Reservado” escrito em holandês, um fio de banheira, uma caixinha de música e um arco de violoncelo, feito de crina de cavalo. À medida que se aproxima a hora do concerto, começa-se a ouvir o burburinho das pessoas que vão chegando. O barman paga um shot aos amigos. As cortinas pretas do palco eram ainda suavizadas por uma luz verde e azul quando, em poucos minutos, o espaço se encheu de gente. Ficou provado que afinal o Alquimista não se deixou dormir no que toca a espalhar a mensagem.

Os músicos entram em palco, seguidos da estrela da noite, de óculos vermelhos, vestido de matrona negra, brincos de coração negros e os habituais totós, presos com ganchos e lenço. Inicia as hostilidades invocando os ancestrais com «Call to Axiom», passando sem cerimónias a «Ever Heard of It», sempre carregando no refrão “…politics and bullshit”. Batida clássica, groove de eriçar o pêlo. Tira os óculos como quem arregaça as mangas e ameaça THIS IS A TAKEOVER! Contra os meninos com os bolsos cheios de cds de pop. Soa a cauda da cascavel e a língua viperina já exala veneno, enquanto os seus acrobatas musicais a acompanham, como encantadores de serpente. «Read Between The Lines». Espectacular. Flow simples mas perfeito. Oiçam para lá das batidas, diz. Isto dá trabalho a ouvir. Fujam dos efeitos sonoros e foquem-se na mensagem. O alinhamento musical foi igual ao do concerto de Berlim. Seguem-se «She», «Statik», «I Am» e «What A Woman Must Do». Termina o concerto com «Tron», faixa que analisa em paralelo duas velocidades distintas de evolução. A tecnológica e a humana. Deixa-se filosofar sobre isso um pedaço e sai do palco. O público pede mais e Ursula Rucker volta para fechar a loja com «Supa Sista». Tendo dado quase todo o seu tempo de antena ao último álbum, ai dela que se fosse embora sem soltar aquele som que todos queriam ouvir mais uma vez.

Animal de palco. Honesta, sem pose. Sem bling bling. Esta mulher faz lembrar um híbrido moderno de Angela Davis e Simone de Beauvoir. OK, com umas reminiscências de Malcolm X. Feroz defensora dos direitos das “minorias”, usa a ironia como ferramenta fundamental de construção de muitas das suas letras. Diz-se que é uma forma de humor pouco compreendida mas, esta mãe de quatro filhos, inquestionável voz da viragem do milénio, vinda do planeta América, está em tour de promoção do último álbum, “Ruckus Soundsysdom”, desde 28 de Abril. Já vendeu todos os cds que transportava consigo. Porque será?

Algures pelo meio do concerto ocorreu-me a dúvida: Onde está a comunidade artística? Prefere guardar memória de concertos anteriores, na época áugica? Talvez. Em casa sem dinheiro? Muito provavelmente. Ao público em geral não passa pela cabeça a quantidade de bandas que anda por aí a dar concertos sem receber um tusto. Em tempo de vacas magras, o argumento crise serve para tudo, mas em tempos de vacas gordas as casas puxam da criatividade para tecer e esgrimir argumentos alternativos. Enfim, é assim que as coisas estão.

A noite foi longe de morna. Sou sempre suspeito para criticar um concerto destes. Aprecio quem tem coragem de subir a um palco e deixar falar a alma, com alma. E estilo. Para quem deixa a alma em cima do palco, uma tour de dez ou doze concertos, quase noite sim, noite sim, torna-se uma maratona emocional. Ursula Rucker acusou de facto algum cansaço mas demonstrou óptima forma. Continua a ter algo a dizer. Keep on keepin’ on, supa soul sista.



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