Vanessa Fidalgo

Vanessa Fidalgo

«O medo é das poucas emoções que já trazemos desde o ventre materno.» Entrevista com a autora de “101 lugares para ter medo em Portugal”.

Do escuro. De alturas. Do mar. De aranhas. De ficar sozinho em casa. De fantasmas. Qualquer que seja, há um medo – ou vários – que assenta em nós como uma luva, e que nos faz pensar duas vezes antes de o enfrentar olhos nos olhos. Depois de “Histórias de um Portugal Assombrado”, onde entrava em casas assombradas, avistava fantasmas misteriosos e se sentava à volta de uma fogueira a escutar lendas encantadas, Vanessa Fidalgo decidiu traçou um «mapa do medo», compondo uma geografia de testemunhos de morte e superstição ao revelar os “101 Lugares para ter Medo em Portugal” (A Esfera dos Livros, 2013).

Conversámos com a autora sobre o seu novo livro, e de uma coisa temos a certeza: nem tão cedo colocaremos a hipótese de meter os pés na estrada de Sintra depois de o sol se pôr.

Vanessa Fidalgo

Em Portugal, ainda se ensina – tanto em casa como nas escolas – recorrendo ao medo e a figuras amedrontadas?

Eu penso que sim. Os papões, os homens do saco, ainda são figuras recorrentes em determinados meios e dependendo das famílias, claro. Já o medo está sempre presente na educação: o medo do castigo, da consequência. O medo é, tanto na infância como na idade adulta, um instrumento de repressão social e comportamental.

Qual é o teu maior medo?

Da morte. De perder os que amo, de que aqueles que me amam e a quem faço falta me percam a mim.

De onde surgiu esta tua paixão pelo oculto?

Tinha na adolescência uma curiosidade mais exacerbada por este tipo de temas, acho que fruto da própria idade, pois noto que muitos dos meus leitores são também bastante jovens. No fundo, penso que é uma curiosidade muito ligada à exploração do desconhecido e do proibido e ao facto da adolescência ser uma altura em que, inevitavelmente, começamos a reflectir mais sobre o que está para lá daquilo que conhecemos e que nos é apresentado socialmente como regra. Por outro lado era – e ainda sou – apaixonada por literatura fantástica – Tolkien, J.K. Rolling, Marion Zimmer Bradley. Na idade adulta essa paixão ficou um pouco mais esquecida, ou melhor, teve de dar espaço a outras paixões, mas não desapareceu de todo. Posso dizer que com estes livros e esta pesquisa a paixão aumentou, porque me permitiu descobrir que a nossa cultura é extremamente rica neste tipo de temas.

Será o medo uma das pedras fundadoras da religião ou é, acima de tudo – e em termos mais genéricos –, uma questão de sobrevivência?

Acho que é acima de tudo uma questão de sobrevivência. O medo protege-nos de condutas que podem pôr-nos em perigo. É das poucas emoções que já trazemos desde o ventre materno. Num recém-nascido, os sinais de que este tem medo do barulho e de cair, por exemplo, revelam que ele é saudável. E, no fundo, é assim durante toda a nossa vida.

O medo dá-se melhor no campo do que na cidade?

O medo dá-se bem melhor do campo, fruto de meios onde, por serem pequenos, as histórias medonhas se propagam com maior facilidade. Por outro lado, o medo sempre foi amigo da fragilidade e da ignorância…

O que tem Sintra de tão especial para fazer arrepiar tanta gente?

O facto da literatura, a história, a arquitectura, a paisagem e até a meteorologia terem conspirado para lhe dar aquela atmosfera densa e fantástica. Nenhum outro lugar em Portugal consegue conciliar de forma tão marcante e tão presente todos estes factores que, obviamente, com uma boa história e um bom narrador, a podem tornar até fantasmagórica…

Já viste algum fantasma?

Não! Mas já tive medo de os encontrar!

«Quem não tem medo não tem fé», disse em tempos Pitágoras (lemo-lo a certa altura no livro). És uma pessoa religiosa?

Nasci no seio de uma família católica não praticante e de certa forma fui mantendo essa tradição! Fui baptizada, andei na catequese em criança por vontade própria (e porque queria cantar no coro da igreja!), fiz a primeira comunhão e a um dado momento entendi que, por um lado, a religião não dava resposta a todas as questões que eu tinha sobre a vida, a morte, a existência. Por outro, concluí que a fé é algo íntimo e pessoal e que não precisa de ser praticado no seio de uma comunidade, de um ritual, de uma igreja. Qualquer um de nós pode conversar com Deus, em qualquer lugar, a qualquer hora. Por isso, hoje, tenho a minha fé, acredito que esta é capaz de mover montanhas e de nos segurar quando estamos à beira do precipício, seja qual for o rito, a cultura, a forma em que é praticada. Não sou é praticante de nenhum rito e estou aberta a aprender com todas as formas de religião que se coloquem no meu caminho.

A arquitectura foi uma ferramenta do medo em alguns períodos da nossa história?

Claro que sim. Temos, por exemplo, a arquitectura do Estado Novo a comprová-lo, com a sua austeridade.

Destes 101 lugares houve algum – ou alguns – em particular que te provocasse um arrepio na espinha ou fizesse cócegas na barriga?

Sintra. À noite. A chover pedra. Um frio de rachar. E eu sozinha na estrada, com uma pessoa que me garantia que, ali a dois metros, apareciam fantasmas!

Depois de “Histórias de um Portugal Assombrado” e “101 Lugares para ter medo em Portugal” o que se seguirá? E devemos esperá-lo com medo?

Ainda não sei bem o que se seguirá, mas há ideias para desenvolver em livro. Não sei se medo será a palavra certa… talvez devêssemos mais falar em magia no futuro.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This