Winter Sleep

“Winter Sleep”

Sobre a fragilidade das relações humanas

Há tanto para dizer sobre “Winter Sleep” que o difícil é começar. Um drama profundamente intimista que abriu as hostes no LEFFEST no Cinema Monumental, em Lisboa, e que na bagagem trazia já a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Assinado por Nuri Bilge Ceylan, o filme tem a ambiciosa duração de 3h16 e é uma espécie de dissecação pessimista sobre a fragilidade das relações humanas. O protagonista principal é Aydin – brilhantemente interpretado por Haluk Bilginer – um homem solitário, um ator afastado dos palcos que dedica agora o seu tempo a um hotel que possui em Anatólia, na Capadócia.

Tendo como pano de fundo a árida e montanhosa região do interior da Turquia, que nos congela a respiração aos primeiros sinais do Inverno, Ceylan leva-nos a mergulhar no dia-a-dia deste personagem que vive com a sua mulher Nihal (Melisa Sözen) e a sua irmã Necla (Demet Akbağ), que acaba de superar uma situação de divórcio. É no desenrolar das relações entre estes personagens que vamos conhecendo com maior transparência a complexidade da personalidade de Aydan que inicialmente aparenta viver numa espécie de consciência confortável. Abrindo mão das tarefas da gerência da sua própria propriedade, dedica-se à escrita autoral para um jornal local enquanto planeia escrever um livro acerca do teatro turco, tema que surge como um sonho que. volta e meia. serve para pincelar de esperança alguns diálogos mais desconfortáveis.

Os diálogos, esses, são sempre emocionais, impactantes e nunca deixam nada por descortinar, ou não se justificassem as 3h16 de filme para os acolher. A aposta na densidade dos personagens vai aos poucos deixando espaço para que surjam situações mais tensas, nas quais começamos então a ser contaminados pelas frustrações do ex- escritor. Incapaz de lidar com as mulheres que o acompanham, o exercício da sua superioridade é ainda maior quando o personagem principal se vê confrontado com o problema de um dos seus inquilinos, Ismail (Nejat Isler), cuja família se encontra em dificuldades financeiras. Do outro lado da esfera, está Nihal que funciona como uma espécie de consciência crítica face à postura do marido. Uma amante da reflexão social mas que nem por isso sai impune da complexa teia que Ceylan desenhou para esta história. Também ela tropeçará no agridoce a que sabem as expectativas frustradas, também ela verá os seus vidros estilhaçados.

A fotografia tem a responsabilidade de Gokhan Tiryaki, não sendo a primeira vez que este faz dupla com o realizador, e cabe-lhe também a ele realçar a reflexão que nos propõe toda a narrativa. Alternando entre planos íntimos e imagens cénicas muito amplas, tudo parece meticulosamente articulado para combinar perfeitamente com o que o filme procura trazer à superfície: a venenosa impregnação do poder nas mais diferentes esferas em que se desenvolvem as relações humanas.

“Winter Sleep” é um filme que nos traz uma visão algo derrotista sobre as nossas fragilidades e só o aconselhamos para quem gosta de se deixar hipnotizar por longos e densos diálogos . Para quem não gosta, talvez seja melhor esperar o Inverno… passar.



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