A IMAGEM QUE FALTA, de Rithy Panh

“A Imagem que Falta”

Ou faltarão muitas mais?

Estávamos em 1975, mais concretamente no dia 17 de Abril, quando o Khmer Vermelho colocou em marcha um plano que roubou a vida a aproximadamente um terço da população do Cambodja. Rithy Pahn tinha apenas 13 anos de idade quando isto aconteceu. Ainda uma criança, viu grande parte da sua família ser dizimada e os sobreviventes a serem forçados a trabalhar em campos de escravatura. Durante anos Pahn procurou imagens ou fotografias que fossem suficientemente fortes para documentar os factos com a carga simbólica que lhes era devida. Como nunca encontrou registos que sentisse serem expressivos da dor e sentimento que se viveu durante o massacre, resolveu criá-los pelas próprias mãos. “A Imagem que Falta” (“L’image manquante”, 2013) do agora crescido Rithy Pahn é isso mesmo: o resultado de uma procura insaciável que nunca lhe devolveu respostas à altura da angústia que pautou a sua infância.

Impõe-se no imediato a questão: a infância, o que é isso? Memórias? Momentos passíveis de serem reproduzidos? Como é que relata o desespero experienciado através do olhar inocente de uma criança para um público adulto que não esteve lá? Partindo desta premissa parece-nos justo afirmar que o nome do filme poderia ter sido outro. Não se trata apenas de uma imagem que falta, mas de muitas, e talvez nem essas outras todas juntas fossem suficientes para reproduzir as lembranças guardadas de uma criança que se viu engolida por um cenário de assassínios, torturas, fome e angústias profundas.

A IMAGEM QUE FALTA, de Rithy Panh

Inspirado no livro “L’Emination”, de Christophe Bataille, o cineasta embarca num doloroso processo de resgate das suas próprias memórias, e se a matéria central é ele próprio, o espaço narrativo são todos quantos foram vítimas do regime de Pol Pot. Neste espaço, por si só inesgotável, o director inicia a construção de um apurado discurso político, com um tom muito próprio e que nunca se mescla com o género comum da denúncia pura, simples e factual. No grande ecrã surgem bonecos feitos de barro inseridos em maquetes cuidadosamente produzidas para recriar com precisão os cenários da época. O registo é um cruzamento entre o documentário e o universo da animação, elevando o papel da reconstrução da memória através da linguagem cinematográfica a um patamar totalmente novo. Os bonecos esculpidos vão recriando a história com a ajuda da narração de Randal Douc, e pelo meio vão surgindo outras fotografias e passagens de filmes que resistiram ao tempo e à censura. Alguns são registos oficiais do regime de Pol Pot, outros são retirados de filmes cambojanos e temos ainda passagens de outras histórias que em nada têm que ver com aquela que está a ser reconstruída, como é exemplo a chegada do homem à Lua. Um diálogo que entrecruza diversos aspectos reais com outros tantos ficcionais, com o claro objetivo de nos relembrar da omnipresença do horror, não só durante a revolução de Pol Pot, mas também (e ainda) em muito do que nos rodeia.

A IMAGEM QUE FALTA, de Rithy Panh

Isto porque se a grande maioria dos registos que sobreviveram da época nos falam de uma história que glorifica os revolucionários, a experiência de Pahn conta-nos que a realidade foi exactamente o oposto: foi uma época de horrores inqualificáveis, assassinatos e agressões inomináveis aos direitos humanos. Um documentário inteligente e estrategicamente pensado ao mais ínfimo pormenor que coloca diante dos nossos olhos, não só o peso da violência, como as esmagadoras consequências da omnipresença da opressão numa sociedade.

Impactante e profundamente comovente, este trabalho é muito mais do que um mero relato das memórias individuais de Pahn. Se inicialmente julgámos que o título do filme poderia bem estar no plural, ao cair do genérico percebemos que é muito mas do que isso. No ar fica a ecoar um alerta para uma espécie de estado de sofrimento que é universal, aparentemente infindável, e do qual ainda estão em falta tantas imagens, tantas vozes e  tanto de nós.

 

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