X-Wife

Side Effects em discurso directo.

Descolar uma etiqueta pode ser uma tarefa difícil, às vezes ficam pedaços de papel agarrados porque a cola é muito boa ou porque o papel é muito mau. Esta analogia funciona bem para a realidade musical porque, se há passatempo de crítica predilecto, é a colocação de rótulos.

Às vezes uma banda arranca com uma auspiciosa estreia, para pouco depois ser inventariada e armazenada por uns bons anos, outras vezes consegue livrar-se do peso do primeiro impacto e evoluir.

O segundo albúm dos portuenses X-Wife é um exemplo de sucesso evolutivo. Ao longo de uns curtos 40 minutos desenrolam argumentos que afirmam uma maior maturidade e segurança.

Emergir do pesadelo electroclash é uma tarefa complicada para muitos projectos que viram a luz do dia nos anos coincidentes com o movimento. No entanto, o renascer do rock para pistas de dança deu novo fôlego a muitas produções nos últimos dois anos.

As opções tomadas em ‘Side Effects’ acabam por simbolizar a transição entre a electrónica e a acústica numa troca de uma batida mais seca mas também mais orgânica.  Ao primeiro single «Ping Pong», com bastante rodagem nas rádios nacionais, junta-se um conjunto de faixas coesas em termos estilísticos onde uma interacção entre bateria-teclas-baixo-voz faz com que o registo actue como um bloco bem definido.

O aumento das BPMs (batidas por minuto) nas faixas «Realize», «When the lights turn off» ou «turn it up» contrasta com a acalmia em «Hot shot» ou «Over», deixando para «one too close to a million» (a faixa que encerra o albúm) um devaneio próximo de rockabilly. A inclusão de mais bateria e distorção acaba por criar bons momentos ao longo de todo o registo, sendo também audível um maior cuidado com a escrita.

As influências de correntes mais underground internacionais do momento são uma realidade (nunca foram sonegadas), mas o trabalho acaba por representar uma identidade mais universal, uma dificuldade que parece ser o principal entrave à expansão do som produzido em Portugal.

A auto-definição como ‘Post-punk electronic rock power trio’ está bem representada no reflexo de um trabalho que estará em digressão por alguns dos mais importantes festivais deste verão.

«Side Effects» e os X-Wife através de João Vieira.

RDB: Enquanto banda, qual a diferença entre os X-Wife de 2004 e de 2006?

João Vieira: A grande diferença foi  a inclusão da bateria.

O primeiro álbum – “Feeding the Machine” – era marcadamente mais electrónico que “Side Effects”. De onde surgiu a vontade de mudança?

Quisemos fazer um albúm diferente do primeiro, penso que o Rui não quis repetir o que fez no “Feeding the machine”. Tudo depende também do que andas a ouvir na altura em que estás a escrever o albúm, penso que talvez andássemos a ouvir menos música electrónica e mais rock com guitarras.

Quais as principais inovações no método de concepção do albúm?

A intenção era fazer um albúm mais maduro, mais pensado e com um maior cuidado na produção final. O primeiro foi muito imediato, começámos a ensaiar os três e passados seis meses já tinhamos oito ou nove músicas para podermos dar os primeiros concertos, músicas essas que viriam a ser incluídas no albúm.

Queriamos que o “Feeding the Machine” fosse um albúm cru e abrasivo que captasse a energia da sala de ensaios e dos concertos ao vivo. No “Side Effects” fizemos uma pré-produção em estúdio caseiro de todos os temas e mais outros que ficaram de fora. Analisámos as músicas e tentámos ver o que funcionava e  como poderiamos melhorá-las antes de ir para estúdio. Decidimos utilizar a bateria em mais de metade do albúm pois achámos que a caixa de ritmos não trazia grande novidade em termos de som e poderia até ser cansativa. Achámos que a bateria iria dar mais força, mais dinâmica e uma sonoridade mais limpa. Além disso, tentámos fazer um albúm diferente do primeiro, queriamos surpreender o público e para nós tambem foi importante pois ganhámos mais entusiasmo a trabalhar com algo novo.

Encaram Side Effects como um ponto de chegada ou de partida? Existe um rumo definido?

Não há rumo, para mim é tentar fazer um trabalho melhor do que o anterior, fazer aquilo que nós achamos que está correcto e aquilo que nos agrada. Como disse antes, é importante o entusiasmo numa banda e para isso é necessário irmo-nos reinventando de forma a que ir ensaiar e ir para estúdio seja sempre uma experiência estimulante.

Qual pensam ser o enquadramento dos X-Wife no panorama musical português da actualidade?

Sinceramente não sei. Penso que somos uma boa banda de rock tanto em disco como ao vivo.

Tendo em conta que têm tido uma agenda internacional bastante preenchida, sentem que podem fazer a transição para o mercado fora de Portugal?

Fazer uma transição para fora de Portugal é muito complicado, principalmente agora que é tão dificil vender discos. As editoras estão ainda mais com o pé atrás e muito dificilmente apostam numa banda vinda de um país que praticamente não exporta rock. Só países como a França, Estados Unidos, Suécia e Inglaterra é que ainda vão exportando algumas coisas. Estou a falar de bandas que penso que se incluem na nossa categoria: rock/pop/electrónica. Portugal não tem muita visibilidade lá fora no campo da música rock, só bandas como os Wraygunn, que têm algum sucesso em França, e os Moonspell, noutra categoria, na Alemanha e outros países é que realmente conseguiram alguma projeção.

Nós sentimos que temos qualidade suficiente para estar a tocar lá fora ao lado de bandas conhecidas do público em geral que se inserem no nosso “genre” musical.

Como tem sido a reacção do público no estrangeiro?

Tem sido óptima, ganhámos imensos fãs, vendemos muitos discos nos concertos. As pessoas vêm sempre falar comnosco no final com bastante entusiasmo. Tudo começou com alguns blogs Americanos e extendeu-se para rádios, djs, promotores, etc… Foi aí que tudo começou….

Sendo o Verão uma época privilegiada em termos de promoção e concertos, quais são as vossas expectativas para o período estival?

Muito boas. Este vai ser o Verão em que vamos dar mais concertos e actuar em mais festivais por Portugal fora.

O SBSR foi na verdade a vossa primeira grande actuação do Verão. A adesão do público parece ter sido total, deixando muitos com pena que não tenham terminado como desejariam. Correspondeu às vossas expectativas?

Foi uma surpresa. Ouvir o público a gritar X-Wife e a assobiar indignado por não nos deixarem tocar a última música do set foi algo realmente incrivel para nós, principalmente porque tocávamos numa noite de bandas mais pesadas. Pensava que poderíamos destoar um pouco mas estava enganado, o apoio do público foi fenomenal e apesar de saírmos antes de terminarmos o set, saímos com um grande sorriso.



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