Yellow

Yellow

Yellow será conhecida pelo público mais atento à pista de dança mas é com o seu primeiro álbum "Wings", disponível gratuitamente, que nos abre as asas: um conjunto de canções com produção original e de qualidade. A RDB falou com ela a tempo do concerto no Musicbox sexta-feira, dia 8 de Fevereiro

Não será de todo incomum encontrar hoje em dia mulheres ligadas às máquinas, usando-as sem pudor. O estereótipo do Man Machine há muito que deixou de ser realidade. Yellow trata as máquinas por tu e utiliza a sua voz como um instrumento possante, construindo melodias que brincam em todos os géneros da música electrónica.

Yellow está desde sempre ligada à música, como nos revelou em discurso directo: “Aos três anos fui para um colégio e os meus pais perguntaram-me se queria ir para o ballet ou essas coisas que as meninas na altura gostavam e eu pedi antes para ir para a música”. Entre aulas particulares, ingressa em Ciências Musicais e depois no curso livre de canto do Hot Club. É nessa altura que aparece a Yellow.

“(…) quanto eu tinha uns 19 ou 20 anos tinha um projecto de jazz com amigos meus, grandes músicos. Na primeira parte dos concertos tocávamos standards de Jazz, coisas mais swingadas. Na segunda parte eu quase não cantava e, como já tinha as primeiras máquinas, era assim uma espécie de desconstrução do Jazz e foi aí que eu criei este pseudónimo Yellow e nunca mais mudei: fiquei Yellow para sempre.”

Essa paixão pelas máquinas, pela electrónica, aparece quando descobre os primeiros discos da Warp Records. “Houve qualquer coisa de estranho que se passou cá dentro.” Descobrir a música electrónica impulsionou a ideia de começar a brincar com sintetizadores, mas é mais tarde que se inicia na aventura da electrónica.

Closest Friend by Yellow from Yellow on Vimeo.

Em 2006 tira o curso de produção musical e começa a colaborar com o DJ Nelson Flip, que tinha a “selecção musical que eu queria abordar em termos vocais e durante cinco anos toquei com ele como vocalista, tudo baseado em improvisação”.

Naturalmente, após esses anos de clubbing, as primeiras faixas a sério de Yellow são assumidamente mais ritmadas: “Na altura comecei a tocar o meu live a solo, um live de techno bastante musculado e durante um ano e meio actuei ao vivo. Esse tipo de som não se prestava tanto a um formato canção ou a uma voz, tem mais a ver com vocalizações ou outras mensagens mais misteriosas.”

É depois desta aventura pela electrónica mais física que surge esta Yellow de canções. “Resolvi dar um tempo à música de dança como produtora (mas sempre a dançar na linha da frente) e quanto voltei a sentar-me para produzir sabia que não me apetecia perguntar qual era o BPM, ou que o kick iria entrar ali ou que teria que ter uma quebra e deixar um espaço no fim para a mistura…”

Quando retoma a composição, estava decidida a acabar com as formas rígidas da electrónica de pista de dança e começou a compor música “sem regras, sem me preocupar se estava a obedecer a alguma estética, a algum cânone ou se alguém iria gostar daquilo”. Essa rebeldia é parte intrínseca do universo Yellow, como se pode observar em “Wings”, uma paleta de cores que viajam por diversos estilos da electrónica sem nunca se fixarem num contexto rígido.

“Quando comecei a compor apercebi-me que a minha tendência estava a fluir naturalmente para dar destaque à voz e embora as minhas músicas não sejam num formato pop rock, músicas de três minutos, a estrutura acaba por ser canção e deixei que a voz fosse o elemento unificador”.

A voz é utilizada em “Wings” como um instrumento. Há kicks feitos pela voz, snares, hi-hats, sintetizadores, texturas. Quando tinha composto cerca de cinco músicas, Yellow começa a aperceber-se que cada música tinha umas asas diferentes e não “as quis prender”. Surge o conceito “Wings” que transpôs ao vivo com um projecto multimédia com o atelier Dub Video Connection.

YELLOW – Live | Musicbox 8 Fev 2013 – SPOT from Yellow on Vimeo.

Ao vivo, “Wings” materializa-se sobre a forma de duas asas volumétricas com projecção video mapping e vídeo reactivo ao som. Yellow diz que foi “contaminada pelo vírus dos visuais e das artes multimédia”. As músicas de Wings estão carregadas de delicadas texturas que serão com certeza hipnóticas ao vivo com esta combinação de visuais. No disco, “Wings” tem uma produção e masterização exemplares que foram conseguidas graças à colaboração com Beat Laden: “Ele é meu sidekick há muitos anos e ajudou-me a levar as músicas ao expoente onde eu as queria levar.” Yellow assume a produção e songwriting e Beat Laden faz a gravação, mistura e equalização dos temas, polindo-os até brilhar. “Tive a sorte de trabalhar exactamente com quem eu queria e acho que foi uma conjugação muito feliz”.

Wings começa com «Wind Song», curiosamente a primeira música que ouvi sem saber que se ia materializar em álbum. Lembro-me da intrincada atmosfera e de ficar impressionado com aquela delicada e complexa energia que depois se propagaria no resto do álbum. «Closest Friend» segue-se e é uma canção madura, pop com um twist (de amarelo?) que será certamente um dos momentos altos do concerto esta sexta-feira no Musicbox. «Download», mais à frente, coloca um pé na pista de dança e a seguir «Updated», mais downtempo, atira-nos para um beat desconstruído, mais esotérico. «Miss Wrong», mesmo a finalizar, é um instrumental que mostra a complexa qualidade da produção de Yellow, e «Yellowland» fecha o álbum com o mais próximo de uma balada que podemos ter, à maneira própria de Yellow. Comprovem e saquem à vontade o disco no site oficial.

Disponibilizar o álbum para download gratuito pode ser uma decisão arriscada, especialmente tratando-se de uma colecção de temas tão definidos e produzidos com muita qualidade, mas Yellow faz referência a diversos artistas como Radiohead ou Prince que também disponibilizaram gratuitamente os seus trabalhos. Esta é uma produção independente e Yellow não quis estar à espera de ninguém: “a minha intenção, acima de tudo, foi passar o trabalho cá para fora seja de que forma for e por isso achei que o melhor era lançar o álbum em free download porque assim não estou a obrigar ninguém a cometer ilegalidades para ter acesso à música. Neste momento a minha preocupação principal é que a música chegue às pessoas. Se não o tivesse feito, as músicas estariam todas guardadas no computador.”

YELLOW – Warming up for “Wings” live @ Musicbox 8/02 from Yellow on Vimeo.

Mas este não é um statement de rebeldia. É antes uma forma de Yellow mostrar que quer fazer coisas, que as está a fazer e esta é a melhor forma de chegar ao maior número de pessoas, especialmente numa indústria tão competitiva cujo jogo mudou radicalmente nos últimos vinte anos.

As asas estão abertas e Yellow não vai parar. O seu objectivo neste ano é tocar ao vivo mas tem vários projectos na forja que iremos revelar atempadamente. Ente remixes e colaborações, participações especiais e outras surpresas, fica aqui a certeza que este será um ano pintado de amarelo. Não tem havido recentemente música electrónica portuguesa tão madura e segura, com uma estética definida e produção exemplar; “Wings”, ainda por cima gratuito, vem lembrar-nos que não precisamos de olhar lá para fora para procurar as nossas referências.

O facto de as canções serem cantadas em Inglês não desprestigia a nossa língua; esse preciosismo preconceituado que alguns têm em relação à nossa criação musical é completamente descabido; tudo o que se faz por cá é relevante para a nossa cultura. Temos apenas que abraçar todos estes projectos que nos colocam num patamar de qualidade em relação ao resto do mundo e deixar essas críticas para os velhos do Restelo.

Façam download da Yellow para o vosso coração, tal como Yellow sugere em «Download», e abram também as vossas asas sem preconceitos.

Yellow actua sexta-feira dia 8 de Fevereiro no Musicbox Lisboa.



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