“Grandes Naufrágios Portugueses” | Entrevista com José António Rodrigues Pereira

José António Rodrigues Pereira

"Atrevo-me a dizer que, provavelmente, saberemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o fundo do mar"

A vida de José António Rodrigues Pereira esteve, desde muito cedo, ligada ao mar. Entrou para a Escola Naval em 1966 e, em 1999, foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra. Prestou serviço em diversas unidades navais, foi Professor da Escola Naval, esteve colocado no Departamento de Relações Bilateriais da Direcção-Geral de Política de Defesa Nacional e desempenhou cargos como secretário da Comissão Cultural da Marinha ou director do Museu da Marinha, só para mencionar alguns. Antes de se reformar, em 2010, foi também professor na Universidade Autónoma de Lisboa e do Instituto de Estudos Superiores Militares.

É também um académico e estudioso de tudo o que o mar abraçou ao longo da História portuguesa. Depois das “Grandes Batalhas Navais Portuguesas”, José António Rodrigues Pereira escreve agora sobre os “Grandes Naufrágios Portugueses”, livro que reúne os acidentes marítimos que marcaram a História de Portugal entre 1194 e 1991.

Trata-se de uma recolha exaustiva de 60 naufrágios, provocados por acidentes, batalhas navais ou falhas humanas, uns ocorridos na traiçoeira barra do Tejo, outros por locais espalhados pelo mundo onde os portugueses andaram. Algumas das embarcações encontram-se ainda por descobrir, fascinando os caçadores de tesouros e fazendo sonhar com a riqueza prometida. A RDB fez-se ao mar na sua frágil jangada e esteve à conversa com José António Rodrigues Pereira. O vento ajudou, o mar esteve tranquilo e o cenário de naufrágio nunca foi hipótese.

Para quem é dirigido este livro? Simples curiosos ou investigadores e estudiosos?

O livro está dirigido ao público em geral, embora possa servir de orientação a estudiosos de história marítima.

Como decorreu o trabalho de investigação, nomeadamente procurar, sistematizar e explicar os grandes naufrágios portugueses num período de nove séculos?

O trabalho de investigação demorou mais de dois anos e o mais difícil foi escolher num universo de várias centenas de naufrágios os que pareciam mais marcantes em cada época na história de Portugal: pelas grandes perdas humanas, pelas volumosas perdas materiais, ou por os seus efeitos se enquadrarem numa comunidade marítima restrita.

De onde surgiu este seu fascínio pela tragédia marítima portuguesa?

Não posso afirmar que tenha um fascínio pelas tragédias marítimas. Como investigador de história marítima dou a mesma importância às viagens, ao desenvolvimento científico da navegação, aos combates e aos naufrágios. Este é o livro dos naufrágios que se seguiu ao livro sobre as batalhas navais.

No livro há uma evidente preocupação em oferecer, para lá do enquadramento sócio-cultural, económico e político ligado a cada naufrágio, também um pouco da história do navio e da própria arqueologia naval. É este um reflexo das suas paixões enquanto investigador?

Sim, as minhas investigações sobre história marítima obrigam a estudar cada acontecimento sob vários ângulos, a que não posso alhear a minha formação e experiência profissional como oficial de marinha.

Será “Grandes Naufrágios Portugueses” também a história da ascensão e do declínio da actividade marítima portuguesa?

Não o considero como tal. É evidente que os maiores e mais numerosos naufrágios correspondem a um período de grande expansão da actividade marítima e, por isso, são também os mais relatados – refiro-me directamente à História Trágico-Marítima. Mas retira-se do livro que houve grandes acidentes marítimos ao longo dos quase nove séculos da nossa história, como também houve combates, desenvolvimento tecnológico e científico.

O livro mostra que nem tudo foram rosas nos Descobrimentos Portugueses, pelo menos no que diz respeito aos naufrágios, onde se perderam inúmeras vidas humanas e navios. O que trouxeram os Descobrimentos ao País e ao Mundo?

Fundamentalmente, as viagens de exploração marítima dos Séculos XV e XVI – a que vulgarmente chamamos descobrimentos – trouxeram a Portugal e ao Mundo o desenvolvimento das técnicas de navegação – nomeadamente a navegação astronómica -, o desenvolvimento da construção naval – primeiro com a caravela e, mais tarde, com as grandes naus da carreira da Índia -, a descoberta da verdadeira dimensão geográfica do Mundo e, muito especialmente, a primeira globalização, com o estabelecimento de ligações directas entre o Ocidente e o Oriente – duas civilizações até então separadas e desconhecidas entre si.

A história de um naufrágio é também a história da sobrevivência e da luta do homem contra todas as adversidades (criaturas marinhas, fome e sede, a imensidão de água sem terra à vista)?

Em muitos naufrágios, verificou-se que perdido o navio, por encalhe ou afundamento, os sobreviventes iniciam uma luta pela sobrevivência enfrentando um meio adverso, seja ele o mar ou as costas inóspitas e com populações hostis, obrigando a uma, por vezes longa, luta pela vida.

Qual destes naufrágios poderia ser transformado numa produção cinematográfica ao nível do Titanic?

Penso que neste conjunto de acidentes poderíamos escolher dois casos (ou mesmo três): o galeão São João, em 1552, cuja descrição pormenorizada nos é dada na História Trágico-Marítima, focando não só os aspectos da luta do navio contra o mar mas também, depois do encalhe, o drama da longa e penosa caminhada em terra na busca do socorro, com todos os seus dramas humanos e morais; a perda dos navios da esquadra de D. Manuel de Meneses, em 1627, pela tragédia material e humana que representou para o País a perda de tantos navios e também da fina-flor da sua nobreza. Quintela, nos anais da Marinha Portuguesa, chama-lhe o alcácer quibir da Marinha; ainda poderíamos incluir, pelo efeito que teve na pequena comunidade marítima de Matosinhos, as perdas das quatro traineiras e 151 homens em 1947.

O mar ainda esconde segredos?

Apesar do desenvolvimento científico, o mar ainda hoje nos reserva alguns segredos; basta lembrar o fraco conhecimento que ainda existe sobre o fundo dos oceanos e do respectivo subsolo; atrevo-me a dizer que, provavelmente, saberemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o fundo do mar. Quanto a navios perdidos há ainda muitos que não foram encontrados, como os que os cronistas diziam terem sido comidos pelo mar.



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